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Histórias

Os Sertões de Natércia Rocha

Por Mariana Amorim, Igor de Melo
18.jul
2017

Em uma conversa sobre literatura e idas e vindas, a escritora cearense Natércia Rocha mostra que o mundo todo pode caber dentro de palavras e poesias

Passava das quatro da tarde quando cheguei ao antigo edifício, no cruzamento entre as ruas Pedro I e Solon Pinheiro, no Centro de Fortaleza. O trânsito na região estava caótico com o fim do dia e as pessoas caminhavam rápidas e indiferentes ao sol que desenhava belas sombras na Praça do Santuário Sagrado Coração de Jesus. A porta já estava aberta e o cheiro de café fresco tomava o corredor quando o elevador parou no 9° andar onde a escritora e jornalista Natércia Rocha me esperava para uma conversa.

Ao entrar no apartamento, qualquer um percebe que o espaço é uma extensão de Natércia. Os livros espalhados por todos os lados se perdem entre os quadros e os desenhos na parede. No canto, uma TV desligada e empoeirada está encostada no chão. “Eu nunca assisto TV e precisava de mais espaço para os livros”, explica a escritora com um sorriso no rosto.

Natural de Fortaleza e criada em Juazeiro do Norte, Natércia Rocha é jornalista – formada pela Universidade de Taubaté, no Vale do Paraíba (SP), e em Dramaturgia pela Escola de Dramaturgia do Museu da Imagem e do Som (MIS) – com passagem pelas principais redações do Ceará. Porém, foi na literatura que encontrou uma válvula para aguentar o mundo. “Os livros sempre foram os meus amigos. A timidez fazia com que eu me escondesse atrás deles”, explica.

Sentamos no sofá da sala, de frente para a torre da igreja e para o bosque da Cidade da Criança, para iniciar nossa conversa. Com a xícara de café nas mãos, Natércia explica que o ato de escrever para ela é como um refúgio, um aconchego. E que isso a levou escolher o jornalismo como profissão. “Aprendi com o bloquinho na mão que, para escrever pelas pessoas, precisa-se de muito respeito. O jornalismo me ensinou o quanto a palavra é forte. Escrever, independente de ficção ou realidade, deve ser feito de maneira honesta”.

A jornada com o jornalismo rendeu para Natércia grandes momentos. Porém, foi quando trabalhou como correspondente em Sobral, no interior do Estado, que ela sentiu o peso de sua profissão. Cheia de saudosismo, ela lembra com orgulho das pautas e matérias escritas no interior. “O sertão sempre esteve em mim. Sinto isso. Minha alma é do sertão, assim como a de Graciliano (Ramos, escritor). E trabalhar em Sobral me deu oportunidade de viver isso de maneira mais intensa. No interior, a realidade é outra. E, muitas vezes, o jornalista se torna um ‘justiceiro’. Alguém que fala pelo povo”.

O trabalho no interior era intenso e solitário. “Eu escrevia e fotografava. Foi maravilhoso porque eu aprendi muito e me dediquei totalmente ao que fazia. Mas, era muito solitário. Minha companhia era o motorista do jornal que, com o tempo, se tornou um grande amigo. Um companheiro naquela jornada”.

Assim, a solidão e o tempo no sertão começaram a cobrar um preço. “É tudo muito injusto e pesado por lá. Encontrei na fotografia uma forma de encarar aquela realidade com outros olhos. Na câmera, sempre trazia fotos de pôr do sol, de sertanejos, de natureza, chuvas, arco-íris. Tinha um universo paralelo naquela vida bem dura. Um lado que talvez fosse o refúgio. Foi assim que nasceu meu primeiro livro”.

O sino da igreja tinha acabado de anunciar a hora do ângelus e as xícaras de café já estavam vazias quando Natércia me conta como sua história na literatura começou. “Precisei de um tempo para mim. Para lavar a alma e recomeçar. Resolvi pedir demissão do trabalho para descansar e fui passar nove meses em Jericoacoara. E aí que abracei a literatura. Lá nasceu Rumo Norte”.

Publicado em 2008 e relançado três anos depois através do prêmio Otacílio Azevedo, da Secretária de Cultura do Estado, Rumo Norte é um livro de poemas e fotografias que retratam a transição de Natércia. “Rumo Norte é como filho. Foi uma gestação longa e difícil. Aos poucos, eu fui juntado os poemas com as fotografias que tinha. Escrever é um trabalho peculiar. Exige dedicação, ajuste”. Natércia define Rumo Norte como um livro de sangue e delicadezas. “O tempo que passei em Sobral, fiquei quieta. Me permiti sentir muito e expressar pouco. Vi muita coisa. Desde absurdos com os animais até 11 corpos estendidos no chão quando fui cobrir um acidente de ônibus na serra da Ibiapaba. Rumo Norte foi a explosão de tudo que absorvi. Ele é delicado, sim. Mas é um livro fruto de noites insones e dias insanos”. Indago Natércia sobre o que ela sentiu quando o livro ficou pronto. “Um misto de alívio, leveza e dor”.

Após o trabalho publicado, Natércia voltou para a Capital. “Entrei em outro momento da minha vida e, apesar da minha relação com o sertão, Fortaleza sempre me acolheu com muito amor.” A escritora partiu em busca de um local para chamar de lar. E foi no Centro, em edifício de arquitetura modernista do arquiteto pernambucano Porto Lima, que ela encontrou o abrigo que precisava. “Quando eu entrei nesse apartamento e olhei a vista da sala, sentei no chão e me senti em casa como há muitos anos não acontecia. Viver no Centro é minha alegria. Aqui a vida pulsa diferente. Me senti renovada. Esse horizonte é o meu motor.”

O prédio tem uma entrada pequena. Quem passa apressado pela rua nem nota o portão de ferro. Lá dentro, tudo parece conservar a elegância da época em que foi construído. O apartamento é do tamanho ideal para abrigar as ideias e histórias de Natércia. “Eu tenho tudo que preciso ao alcance dos meus pés. Tenho um pomar na porta de casa. Uma praça linda do outro lado da rua. Aqui cabem todos os meus sertões”, conclui.

Após Rumo Norte, Natércia lançou o livro-arte Viva o Tempo que se Chama Hoje, em parceria com a bióloga Margarete Muniz. O trabalho, em cartões postais, teve apoio da Secretaria da Educação do Estado do Ceará (Seduc) e é um novo apanhado de fotos e poesias. “Eu acho que é uma remissão do Rumo Norte”, brinca.

No mesmo ano, em 2014, Natércia lançou seu primeiro livro de contos, intitulado Contos de Ir Embora. “A história dos contos começa lá atrás, em 2005. Precisei de um tempo de repouso e escrever aqueles contos foi a maneira que encontrei de manter a lucidez. Quando me recuperei e voltei a trabalhar, deixei de lado o projeto. Tempos depois, por volta de 2011, precisei novamente de uns dias de molho e voltei aos contos.”

Ao falar sobre Contos de Ir Embora, Natércia demonstra muito orgulho da cria. O livro foi escrito em pausas. “Quando tinha o livro quase pronto, fui assaltada e levaram meu computador com tudo. Já tinha outro livro de poesia e perdi tudo. Isso tudo já de 2012 para 2013. Consegui recuperar alguma coisa nos rascunho de e-mails e escrevi o conto O Diário de Alina Reyes. Foi quando decidi publicar Contos de Ir Embora.”

Comento com Natércia que a obra me ganhou pelo título. Ela explica que quando reuniu tudo percebeu que, em todas as histórias, alguém ia embora. “Na verdade, o livro me ensinou muito. Desde perder tudo até a hora que ele finalmente ficou pronto. Quando levaram meu computador, percebi que a minha vida toda estava dentro de um objeto. E o quão terrível é isso. Nos tornamos reféns dessas máquinas. Entendi como a vida me dizendo para ir com mais calma”, comenta entre risadas.

Natércia frisa que Contos de Ir Embora é uma espécie de xodó. “Foi o momento de trabalhar com outra linguagem. De me expressar diferente. Além de que tive parcerias incríveis como Audifax Rios, que lindamente ilustrou minhas páginas e o prefácio do querido Nilto Maciel.” O livro foi premiado no IX Edital de Incentivo às Artes da Secult, em 2014.

O vento frio e o silêncio das ruas noturnas do Centro já entravam pela janela quando pergunto a Natércia sobre viver de literatura. A resposta é dura e franca. “Não é fácil. Não existe um momento para sentar e curtir a ‘cria’ (risos). Você não pode parar porque as contas não param. Então, sempre é preciso novos projetos, novas ideias. Sempre caminhando.”

Além das obras citadas acima, Natércia é autora da biografia do humorista cearense Chico Anysio, da Coleção Terra Bárbara, publicado pelas Edições Demócrito Rocha e do livro institucional E Assim se Passaram 25 Anos, uma edição comemorativa das bodas de prata do Programa de Ação Integrada para o Aposentado. Em abril deste ano, a escritora lançou mais um projeto: Da Janela Lateral. Um documentário sobre o Centro que acontece da janela do 9º andar. Foram sete anos captando cenas que mais lhe chamavam atenção. “O trabalho fala sobre a minha jornada aqui. Neste prédio. É dinâmica e solidão”, detalha.

Disponível no YouTube, o documentário de quinze minutos é dividido em três dias e duas
noites, onde estão condensados fragmentos do dia a dia e suas contradições. Natércia afirma que em nenhum momento pensou em fazer algo grandioso ou denúncia sobre a realidade em que as pessoas que moram nas ruas do Centro estão inseridas. “Essa gente que vive, trabalha e mora na rua, tem um acordo de respeito entre eles. Eu consegui captar isso”, orgulha-se.

Pergunto a Natércia como foi fazer esse trabalho em um tempo tão extenso e como isso a transformou. “Eu acho tocante a maneira como o tempo nos move. Fazer o documentário foi justamente olhar de perto essa engrenagem. Entendi que tempo é o que temos. Sempre temos o tempo.” Da Janela Lateral foi aprovado na categoria “Expressões Contemporâneas”, da convocatória “Que Fortaleza é a Sua?”, da Vila das Artes, em 2015.

Já passa das 20 horas quando questiono Natércia sobre o futuro. “Acho que o jornalismo já é algo tão diferente de quando eu comecei que nem sei o que esperar pelo futuro. Acredito que nós, que informamos e trabalhamos com isso, precisamos nos adaptar e rápido. Esse poder não é mais só nosso.” A jornalista explica que o jornalismo precisa conversar mais, se aproximar de seus leitores e consumidores de informação. “Ouvir mais e melhor”, resume.

O silêncio absoluto da estação de ônibus da Praça do Sagrado Coração de Jesus diz que já é tarde da noite quando a conversa chega ao fim. Pergunto a Natércia sobre literatura e ela frisa que sempre tem algo novo por vir. E ensina que a escrita acalma a alma e é catalisadora. “A arte faz transformação.”

Quando me despedi de Natércia, agradeci pelo café, as palavras e o tempo. “Tempo é o que temos”, ela me lembra. E me deixa um conselho. “De cronista para cronista, cada um é o que escreve”.

Colaboradores

Mariana Amorim

Mariana Amorim

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Quase jornalista, metida a cronista e envolvida com música. Romântica além da conta, acredita que uma bela canção pode mudar o mundo. Coleciona livros, discos de vinil, imãs de geladeira e blocos de anotação. Poderia morar em um sebo. Apaixonada pelos garotos de Liverpool e pelo rapaz latino-americano.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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