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[Padaria Filosófica] Crescimento de verdade traz leveza, seja no pão, seja na vida

Por Adnilson Pinheiro, Igor de Melo
07.fev
2019

Uma das coisas mais valiosas que a cozinha nos ensina é o tempo. Para quem olha de fora, pode parecer que a questão do tempo na cozinha se resume a pouco mais que a correria dos reality shows, nos quais ele nunca é suficiente. E, embora a TV não represente o que é a rotina de uma cozinha profissional, se você passar um dia na cozinha do seu restaurante favorito, vai perceber que a pressa é, sim, uma constante. Chefs e cozinheiros travam uma batalha inglória contra o relógio, e a recompensa é viver para lutar outro dia.

Existe, porém, uma segunda camada, mais profunda e rica.

Se você já fez um pão, sabe que esse é um preparo que requer descanso, não dá pra apressar. A natureza opera sua magia à revelia da nossa rotina, e as bactérias fermentadoras requerem do padeiro um tipo de paciência desperta, uma espera atenta, na qual ele não intervém até que surja o momento ideal.

O mais interessante aqui, porém, não é tanto a espera, mas o fato de que, às vezes, ela não vai valer a pena.

Explico. Mas para explicar melhor preciso usar algum anglicanismo.

Uma massa de pão fermenta duas vezes, uma antes da sova e outra depois. Em Português, dizemos simplesmente primeira e segunda fermentação. Simples, objetivo e transparente. Em Inglês, porém, usam-se dois termos distintos: bulking (inchaço, crescimento em volume) e proofing (prova, teste, pôr à prova).

Pôr à prova.

A ideia de que é preciso pôr o crescimento à prova é algo que não me ocorre naturalmente. Se algo está crescendo, está crescendo e pronto. É só colocar os olhos em cima e ver: cresceu. Mas a verdade é que nem todo crescimento é real, nem tudo aquilo que ganha volume se sustenta.

A carreira que deu primeiros passos tão promissores com o tempo se mostra pouco mais que um fogo de palha. A nova empresa, com posturas arrojadas e palavreado da moda, daqui a pouco não passa de uma bodega com nome chique. Aquela amizade nova que fluía tão macia, cheia de afinidades imediatas, como se já tivesse se submetido ao teste dos anos, começa a fazer uns barulhos estranhos depois da terceira lombada.

Um teste muito comum entre padeiros amadores para saber se a massa está pronta, se passou a prova, é virá-la sobre uma vasilha com água. Se boiar, deu certo. Se não, você perdeu seu tempo. Porque o crescimento não é um fim em si mesmo. Crescimento de verdade traz estrutura e sabor, seja no pão, seja na vida.

Traz leveza.

E, enquanto escrevo esse texto, penso em quantas das coisas que cresceram na minha vida sobreviveriam ao calor do forno. Quantas, depois de passadas pela pedra e pelo fogo, resultariam surpreendentemente saborosas e belas? Quanto do tempo desprendido a observar, esperançoso, bolhas promissoras, não foi na verdade desperdício de farinha e de olhar?

Mas, se não temos como saber se as coisas vão sobreviver à prova do tempo, fica então a grande pergunta: o que fazer do tempo desperdiçado? O que fazer das massas que não cresceram e das promessas que não vingaram?

Acredito que a resposta a essa pergunta dependa muito mais do padeiro do que da massa.

Quando se quer algo bonito, precioso, o que resta é jogar fora a massa falha e começar de novo. Novo fermento, nova massa, nova esperança e, se tudo der certo dessa vez, novo pão. O mistério e a incerteza ainda estarão ali até o fim, mas é isso que dá graça à vida, afinal.

Há, porém, momentos em que tudo bem se a massa não subir. Como um domingo meio preguicento, na companhia de quem já não se importa com a aparência das coisas. Nesses casos, sempre se pode fazer da massa murcha uma panqueca ou um pão de frigideira, nada que um tanto de geleia e um bom café não justifiquem.

É o que se espera das coisas que vai determinar se elas nos servem ou não. O trabalho insosso ainda paga as contas enquanto você escreve aquele romance, e a quitinete apertada ainda recebe uns dois ou três bons amigos, que ainda é mais do que muitos de nós julga merecer.

Talvez por isso o povo de Deus, quando da sua saída do Egito, tenha comido pão ázimo, sem fermento: para entender que muitas vezes o alimento não está no volume, mas na sobriedade. Que um pão simples e chato, sem firula e sem tamanho, pode ser o alimento que antecede a liberdade.

Colaboradores

Adnilson Pinheiro

Adnilson Pinheiro

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Escritor, cozinheiro, programador, criativo. Escreve também em médium.com/@EditorChef.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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