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Plural

Padre Rino: cuidar da mente e espírito para crescer em comunidade

Com Padre Rino Por Marcela Benevides, Igor de Melo
18.out
2018

Aos 18 anos, Rino Bonvini decidiu ser motorista de ambulância voluntário na Itália, seu país de origem. Foi nesse trabalho que teve o primeiro contato com os “mistérios da morte e da dor”. Diante dessas situações delicadas e inesperadas da vida, o voluntariado e o desejo de ser médico se tornaram objetivos claros para ele. Ao longo do curso de medicina ficou fascinado com a capacidade que os médicos tinham de salvar uma vida na emergência, mas aos poucos foi descobrindo a psicologia e a psiquiatria.

O desejo era se tornar médico sem fronteiras, ir à zonas de conflitos e tragédias para ajudar nas missões, mas a possibilidade de ajudar o outro surgiria de maneira diferente na vida do jovem italiano. Rino sempre foi católico e cruzou, casualmente, com os Missionários Combonianos e foi por meio deles que conheceu uma igreja que era diferente das que estava habituado na Itália.

Foi na Igreja do Brasil que Rino conheceu o lado social da instituição católica. “Era uma igreja com uma CNBB presente, que na época da ditadura teve a coragem de ser contra e denunciar, e eu disse, mas que igreja é essa? é católica? porque nessa época na Itália a igreja era muito distante desses valores sociais”.

Foi a partir daí que o médico passou a se interessar e decidiu entrar para o seminário. Dentre os lugares que viajou, África, Equador e Estados Unidos foram os caminhos que possibilitaram o amadurecimento da síntese de ser médico e padre.

Rino Bonvini é médico, padre, professor de psicologia, psiquiatria e há 22 anos trabalha no Movimento de Saúde Mental Comunitária no Bom Jardim. Ele faz parte do grupo de palestrantes que estará neste domingo, 21, no último dia de Plural que acontece na 20ª CASACOR Ceará.

Entrevista

Vós – O que veio primeiro na sua formação? A medicina ou a teologia?

Pe. Rino – Sempre fui católico mas me formei primeiro em medicina. Comecei como motorista voluntário de ambulância aos 18 anos. E foi nesse momento que entrei em contato com os mistérios da dor e da morte; porque você se depara com uma série de situações que te deixam perplexos em relação a vida e aos valores humanos e imediatamente ficou muito claro a questão do voluntariado.

Vós – Foi na experiência como motorista que o senhor despertou para a medicina?

Pe. Rino – Sim… foi no ambiente das ambulâncias que a vocação médica fortaleceu. Fiquei fascinado com a capacidade que os médicos tinham de chegar na emergência e salvar uma vida. Ao longo dos meus estudos me aproximei da psiquiatria e psicologia. Mas eu queria ser médico sem fronteiras, ajudar as pessoas nas zonas de guerra, terremotos, tragédias…

Vós – E como o senhor conheceu o Brasil?
Pe. Rino – Eu já era padre missionário e estava terminando minha especialização nos Estados Unidos quando aconteceu, em 1993, o Congresso Mundial de Psiquiatria no Rio de Janeiro. Lá eu conheci o professor Adalberto Barreto, que é o criador da terapia comunitária na comunidade do Pirambu. Ele me apresentou a experiência de saúde mental e foi o que quis fazer: trabalhar com os excluídos por meio da saúde mental, mas ainda não sabia como. Então eu vim à Fortaleza e conheci, casualmente, os missionários Combonianos, que tinham uma proposta diferente de igreja, era um lado que me atraía. Eles têm um CNBB participativo, que todo ano organiza a campanha da fraternidade. Na época da ditadura teve a coragem de ser contra e denunciar, foi a partir daí que decidi entrar me especializar e voltar para o Brasil.

Vós – E então o senhor voltou para o Brasil e fundou o Movimento de Saúde Mental Comunitária (MSMC)?

Pe. Rino – Em 1996 voltei e fundamos o MSMC no Bom Jardim. Começamos esse projeto para estar a serviço da comunidade mais pobre, abandonada, excluída e carente. O trabalho dos missionários comboniano começa no final dos anos 1980, numa evangelização que une a fé com a vida. Então, a nossa missão não é só celebrar, mas transformar a realidade de acordo com um plano de justiça e solidariedade para todos, com vida em abundância.

Vós – E como acontece essa transformação?

Pe. Rino – Como psiquiatra, me coloquei a serviço da comunidade e desenvolvemos uma tecnologia social psicoterapêutica que se chama “abordagem sistêmica comunitária”. Nosso programa começa com acolhida, escuta, cuidados encaminhamentos para várias opções/oportunidades e a co-responsabilidade. A pessoa que entrou no círculo com uma necessidade, se fortalece, cuida de si e aprende a se conhecer melhor, desenvolve uma autoestima saudável e através disso pode auto realizar um processo de trabalho, estudo, resolução de conflitos familiares para evoluir… é uma evolução pessoal.

Vós – E ao longo desses 22 anos de trabalho, quais os bons frutos colhidos?

Pe. Rino – A abordagem sistêmica comunitária foi reconhecida em 2009 e está no banco de tecnologia social do Banco do Brasil. No ano passado, em 2017, foi reconhecida como inovação na saúde mental pelo Mental Health Innovation Network, então, nós temos o orgulho de dizer que no Bom Jardim não é só violência, morte, prostituição infantil, perigo e marginalização, mas lá florescem flores e vidas renovadas.

Vós – E por quais dificuldades vocês passaram para dar continuidade ao Movimento?
Pe. Rino – Enfrentar e desfazer o estigma em relação aos problemas de saúde mental. Quando iniciamos, terapia era considerada “coisa de doido, tarja preta”… Existia uma dificuldade de entender que a saúde mental estava dentro do contexto de saúde pública.

Vós – Hoje o senhor enxerga que essa visão em relação a importância de cuidar da saúde mental mudou?

Pe. Rino – É um paradoxo porque melhorou mas piorou. Infelizmente nos últimos 20 anos a saúde mental teve um crescimento exponencial, casos como depressão, que é o problema mais inabilitante do mundo de acordo com a OMS (organização Mundial da Saúde), o suicídio entre jovens aumentou muito, então a saúde mental virou uma questão de emergência, virou prioridade e 20 anos atrás não era ainda. Aumentou os casos de distúrbio mas melhorou a maneira de como lidar com isso.

Vós – E na sua visão, qual a melhor forma de lidar com esses problemas?

Pe. Rino – É preciso incentivar a co-responsabilidade, porque as pessoas não podem ser público alvo de um programa paternalista, assistencialista, que muito frequentemente serve como cabo eleitoral atrás de votos. Mas tem que ser uma força que é descoberta, valorizada, desenvolvida na pessoa e na comunidade para que essa comunidade consiga resolver seus problemas a partir da própria inteligência e isso já foi provado que é possível por meio da abordagem sistêmica comunitária. A conjuntura social precisa pensar num programa que faça esse tipo de atendimento para todos.

Vós – Qual a importância de falar sobre os problemas que afligem a mente?

Pe. Rino – É muito importante falar sobre psiquiatria porque dessa forma criamos métodos de prevenir, chegar antes. Por exemplo, temos um programa de prevenção às drogas com crianças e adolescentes de 7 a 14 anos, que integra o tempo da escola com atividade lúdicas e prazerosa. Então se trata de criar um ambiente em que a criança sente o prazer de viver, porque se ela sente prazer em estar ali ela não vai atrás de prazeres artificiais, como as drogas. Nesse contexto nós favorecemos o poder de auto descoberta dessas crianças, da descoberta de dons e talentos e do desenvolvimento das inteligências múltiplas, então as crianças que passam pelo nosso projeto têm uma chance maior de não enveredar pelo caminho da criminalidade e das drogas, porque ela vai entender que vale a pena viver de forma saudável.

Vós – Você se considera mais padre ou mais médico?

Pe. Rino – Houve uma época em que eu estava em dúvida se eu era padre ou médico e meu formador disse: “você nunca vai não ser padre ou não ser médico” ou seja, eu sou os dois. Em determinado momento eu sou mais padre, em outros mais médico e em outros momentos junto as duas dimensões.

Colaboradores

Marcela Benevides

Marcela Benevides

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Ler e escrever são as duas coisas que mais a definem. Gosta de contar histórias sobre pessoas e lugares que inspiram a felicidade e a percepção de que a vida vai além das bolhas em que vivemos, e é na cidade que encontra a sua inspiração. Acredita que o jornalismo é um dos meios para promover a união entre culturas. Importante destacar: tem o sol em leão.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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