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Histórias

[Patrimônios Históricos] - O gigante de pedra em Fortaleza

Por Leila Nobre, Igor de Melo, Michele Boroh

Acredita em Vós

22.mar
2016

À Leila Nobre nada escapa. Em toda a nossa série Patrimônios Históricos, em que ela colabora aqui no Vós, é comum lermos as minúcias por trás dos prédios conservados pelo Patrimônio Histórico. Sobre o prédio da Caixa Cultural, ela traz curiosidades típicas de quem há anos apura fatos em jornais de mais de 100 anos, em busca de entender “a história toda”. Uma curiosa ilustre, com quem temos a alegria de contar.

O gigante de pedra em Fortaleza

Até 1810, a atual Avenida Pessoa Anta era apenas um caminho, conhecido por “caminho da praia”, depois batizado de rua da Praia. Naquele ano, surge por um alvará, a Alfândega de Fortaleza, em um modesto prédio na Praça Almirante Saldanha, que ficou conhecida à época como Praça da Alfândega.

No final do século XIX, um novo prédio foi projetado pelo engenheiro inglês John Hawkshaw, que concluiu que a melhor região para o Porto seria mesmo no local existente (onde hoje está a ponte metálica, na Praia de Iracema). O relatório trazia a então nova estrutura portuária de Fortaleza. O projeto do novo conjunto portuário não foi aprovado, sendo construído apenas o prédio da Alfândega. O local escolhido era um terreno baldio e cheio de árvores.

A construção tem fachada revestida de pedras com argamassa feita de óleo de peixe e areia. Os ferros foram importados e vieram da Firma escocesa Walter MacFarlane e Co. de Glasgow. A estrutura é em ferro fundido e forjado integrando adornos e elementos. As colunas são esguias com fuste cilíndrico e decoradas com capitéis coríntios. A escadaria monumental é dupla em dois lances. Os balcões, corrimãos e gradis também foram escolhidos dos catálogos da empresa. O prédio tem traços da arquitetura vernacular britânica em pedras.

O edifício tem características ferroviárias, com detalhes construtivos técnicos e formais deste tipo de edificação, tais como plataforma de carga e descarga, portões de ferro de amplas dimensões e piso para tráfego intenso de carga. As esquadrias são em madeira, com detalhes em vidro e bandeiras em ferro fundido (sobre as portas da alfândega, inseridas num portal de pedra aparelhada). Algumas possuem molduras de alvenaria, em arco abatido e outras têm trabalho em cantaria. O piso superior da edificação têm linhas horizontais e a parte superior da fachada é arrematada por platibanda com cimalha.

O contrato foi firmado em 05 de maio de 1883 e as obras iniciadas em 14 de outubro de 1884. Após sete anos, em 15 de julho de 1891, o prédio é inaugurado e as atividades tiveram início em 10 de abril de 1893, passando a funcionar no prédio, não só a Alfândega, mas também a Guardamoria do Estado.

O edifício ficou localizado no extremo do terreno, possuindo também depósito a céu aberto para mercadorias/produtos não perecíveis e armazéns para mercadorias com necessidades de armazenamento que foram divididos em armazém de exportação e de importação. Para facilitar o transporte para carga e descarga de mercadorias, foram levados até o prédio, os trilhos dos bondes de tração animal e dos trens.

O projeto original compreendia um bloco central de dois pavimentos usados para a administração do conjunto mercantil da Alfândega, com seus armazéns (ambos os blocos laterais ao bloco central – um pouco mais recuados em relação ao primeiro). Na cabeceira leste, um anexo de dois andares, para administração do porto de Fortaleza. Em 1910, um pavimento é adicionado ao armazém Central e na década de 40, na administração do Interventor Luís Sucupira, o prédio passou por reformas e o armazém leste passa a ter dois pavimentos também.

Com a mudança do porto para a Enseada do Mucuripe na década de 30, as atividades portuárias também foram transferidas e o prédio da Alfândega foi ocupado por outros setores da Secretaria da Fazenda. Foi no início dessa década (1931/1932) também, na gestão do Major Tibúrcio Cavalcanti, que a Avenida Pessoa Anta foi urbanizada. A avenida havia recebido o nome do mártir João de Andrade Pessoa Anta, em 27 de junho de 1925, no centenário de sua morte.

Na década de 50, as atividades da Alfândega são transferidas para o Porto do Mucuripe.

Em 1969, o prédio passa a ser sede da Delegacia da Receita Federal. Na noite do dia 29 de janeiro de 1978, às 20h, um incêndio de grandes proporções, causado por um curto-circuito, destruiu parte das instalações da delegacia (no quinto bloco). Além da ala esquerda superior do prédio, bens móveis, patrimônio bibliográfico, arquivo de documentação e objetos diversos também foram atingidos. Foram adotadas providências administrativas para dar continuidade aos trabalhos da Delegacia, mas as condições precárias e desconfortáveis em que ficou funcionando, enquanto se restauravam as áreas atingidas, fez com que em outubro do ano seguinte, a Secretaria da Receita Federal passasse a funcionar no Edifício do Ministério da Fazenda na rua Barão de Aracati.

Este foi o quinto incêndio que o prédio sofreu, sendo os anteriores, de menores proporções. Do lamentável acontecimento, é importante ressaltar a preocupação e interesse da população cearense pela restauração do prédio, tendo em vista o que ele representa como patrimônio histórico-urbanístico, e o empenho dos funcionários na recuperação dos documentos e no atendimento ao púbico, para que todos os setores funcionassem normalmente e fosse mantida a imagem da Receita perante os contribuintes e o público em geral. Com a saída do órgão Federal, o prédio fica abandonado.

Na década de 1980, a Caixa Econômica Federal, adquire e recupera o prédio, conservando sua fachada inalterada. Em seu interior, divisórias para organização dos espaços, novos revestimentos no forro e no piso, novas instalações elétricas e hidráulicas, tudo que foi necessário para adaptar o prédio para receber uma Agência bancária (Agência Pessoa Anta). Por causa do último incêndio, foi necessária a demolição do quinto bloco. Em 1998, outra reforma se fez necessária, dessa vez, procurando recuperar a originalidade do prédio que havia passado por diversas alterações ao longo de diversas intervenções.

Em 2005, o prédio é finalmente tombado pelo Governo do Estado e no ano de 2008, a Caixa Econômica Federal deixa o prédio para nele instalar a Caixa Cultural. As obras para a construção tiveram início em 2010 e segundo informações à época, o prédio receberia atividades de pintura, teatro, dança música, entre outros projetos culturais. A obra foi orçada em 13 milhões de reais. A preocupação primordial da Caixa era guardar as características arquitetônicas do prédio e tudo foi feito sem pressa, para preservar ao máximo da história do prédio que um dia abrigou a Alfândega da cidade.

Em junho de 2012, Fortaleza é enfim agraciada com uma Caixa Cultural, sendo portando a sétima cidade a receber uma unidade, já presente em Recife, Brasília, Salvador, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro. O espaço é composto por um Cine Teatro com 190 lugares, três amplas galerias de arte, sala de ensaios, salas para oficinas de arte-educação, foyer, café cultural e livraria, além de um jardim e espaços para convivência e realização de eventos.

Visite:

Endereço: Avenida Pessoa Anta, 287, esquina com a rua Almirante Tamandaré.

Colaboradores

Leila Nobre

Leila Nobre

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Leila Nobre é pesquisadora Memorialista. Idealizou e mantêm o site Fortaleza Nobre, onde procura resgatar a Fortaleza antiga, em suas ruas, praças, praias, monumentos. É casada e mãe de três meninas. Ama ler e escrever.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

Michele Boroh

Michele Boroh

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Nasceu no Dia do Jornalista. Aos 9 criou o Jornal dos Amigos do Prédio, em folha de caderno e à base de canetinha. Agora, aos 30 e após 8 em TV, é coordenadora de conteúdo e colunista de VÓS, com a mesma paixão da infância. É também cronista no Tribuna do Ceará, viciada em livro, cavaquinista de churrasco e futura mãe de 4.

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