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Um pé no mundo, e outro sempre no Conjunto Ceará

Com Dr. Pedro Júnior Por Jonathan Silva, Igor de Melo
04.abr
2019

É oito e meia da manhã quando Pedro Rogério Teixeira Júnior, mais conhecido Dr. Pedro Júnior, chega na sede da Uniodonto Fortaleza, no bairro Aldeota. Apressado, cumprimenta a recepcionista e pede desculpas pelo atraso, se justificando: “Estava em São Paulo e cheguei às três da manhã em Fortaleza”. Pedro Júnior é presidente da Uniodonto Fortaleza e vice-presidente da Uniodonto Brasil. Divide seu tempo entre gestão dos dois núcleos da cooperativa e consultas odontológicas no Conjunto Ceará, bairro que é berço de sua carreira há 25 anos.

O dentista vê o bairro com um olhar mais afetivo, já que iniciou a profissão numa época onde haviam apenas três dentistas na comunidade. Para ele, não houve uma transição entre o “profissional do bairro” e o “vice-presidente nacional”. “Todos os dias que estou em Fortaleza tenho consultório normal, tarde e noite, e no sábado pela manhã”. Os atendimentos na semana são das 14:00 às 22:00.

Morador do Conjunto Ceará desde os nove anos, Pedro Júnior iniciou seus estudos em uma outra área. Vindo de uma família de educadores, ele possui Licenciatura Plena em Matemática pela Universidade Estadual do Ceará. Lecionou até os 40 anos, até que as dificuldades pesaram. “Ter deixado aos 40 anos o magistério foi por conta de que, infelizmente, no nosso país a educação deixa muito a desejar em relação ao financeiro.”

Atualmente, o lado “professor” é manifestado em palestras, conversas com colaboradores, novos dentistas e nos livros. Além de dentista, gestor e docente, Pedro tem dois livros publicados: o romance O Segredo de Anthony (adaptado para língua inglesa como The Anthony’s Secret) e o suspense Mistério de Alto Monte. Além disso, como bom cearense, adora contar histórias. Não importa para quem seja.

                       Entrevista

VÓS – Como era o Conjunto Ceará na época que o senhor começou a atuar na área da Odontologia?

DR. PEDRO JÚNIOR – Quando nós começamos foi em 1994. Éramos três dentistas, apenas. Hoje já somos 25 dentistas no bairro. A odontologia deixava muito a desejar porque eram poucos colegas. Quando eu comecei tinha dois, eu fui o terceiro e daí começou a abrir mais um leque de oportunidades e horários. Eu sou um dos que ficam até a noite, geralmente das das 14h às 22h. Isso foi um diferencial. Também atendo nos sábados, ao dia. Hoje sou bastante conhecido, conseguimos levar para o bairro uma odontologia de qualidade.

 * Imagem de arquivo

VÓS – Sua primeira graduação foi Matemática. Como foi a transição de cuidar de números para dentes?

DR. PEDRO JÚNIOR – Na realidade eu sou de uma família de educadores, então minha mãe é professora, minhas tias professoras. Não tive dúvidas de que queria também seguir a linha de ser professor. A primeira graduação foi de Ciências na Universidade Estadual do Ceará. Entrei muito jovem na faculdade, estava completando 16 anos de idade. Aos 18, estava formado na primeira, de Ciências em licenciatura curta. Em seguida fiz a licenciatura plena, em Matemática. Terminei com 20 anos. Paralelo a isso passei em Odontologia na UFC e fiquei cursando Odonto e Matemática. Tive que trancar a Odontologia por dois anos e meio, pois casei muito cedo. Tinha a responsabilidade de ganhar o pão de cada dia. Voltei para a Odontologia depois de dois anos e meio trancado, concluindo aos 24 anos. Logo em seguida veio o consultório. Então fiz o colégio, o consultório durante muito tempo, pois ensinei dos 16 aos 40. Então tem nove anos que deixei de ensinar.

VÓS – E foi difícil montar o consultório?

DR. PEDRO JÚNIOR – A priori eu tinha muito medo, até mesmo da montagem, de não ter condição financeira para isso. Mas a compra do imóvel foi muito interessante, porque ela aconteceu exatamente no dia 1º de maio de 1994. Talvez você não lembre, mas foi o dia que o Ayrton Senna morreu. E saí de casa chateado, pois tinha acontecido o acidente. Estava assistindo na televisão. Saí pelo Conjunto para esfriar a cabeça e no que estou passando eu vi a placa “Vende-se” do imóvel. Era surreal porque era caro, mas, naquele momento, comecei a conversar com o proprietário por volta de duas horas da tarde do domingo, no 1º de maio de 94, e a gente fechou a negociação antes das dez da noite. Aí entrou o carro, a casa que eu possuía e tal pra gente montar o consultório. Até hoje ainda é lá.

VÓS – Como foi sair de um consultório de um bairro periférico da cidade para se tornar parte de uma rede de outros consultórios odontológicos no Brasil?

DR. PEDRO JÚNIOR – Foi um passo bem grande. Eu sou um cara que não gosta de acomodação; pelo contrário, me incomoda muito quando vejo pessoas que estão na sua zona de conforto, acomodados, parados, sem produzir. A Uniodonto foi uma oportunidade excelente que aconteceu em 1999. Estava completando 30 anos de idade quando entrei para o quadro de associados da Uniodonto Fortaleza. Dois anos depois me tornei diretor comercial da empresa, em 2001. Em 2002, eu sabia que se entrasse teria que dar o meu melhor, pois eu tinha pretensões bem maiores junto ao sistema. Em 2009 eu me tornei vice-presidente da Uniodonto. Em 2013, para a Uniodonto do Brasil. Desde 2011 que me candidatei ao conselho fiscal da Uniodonto do Brasil – fui sempre eleito todos os anos. Agora, no dia 22 de fevereiro de 2019, eu me candidatei a vice-presidente da Uniodonto Brasil e assumi a vice presidência. Tô muito feliz com isso.

VÓS – Quando olha para trás e vê essas conquistas, valeu a pena ter saído da zona de conforto que era sua primeira graduação para a Odontologia? Havia esse interesse de mudança na época?

DR. PEDRO JÚNIOR – Sim. Hoje sou capaz de listar muitos amigos que permanecem naquela primeira graduação, ensinando nas mesmas séries – da 5ª a 8ª série, outros que foram um pouquinho mais longe, ensinando no ensino médio, mas não saíram dali. Eles permaneceram. Eu sempre achei pouco onde eu estou. Eu sou meio incomodado e eu quero sempre um pouquinho mais. Eu chego e digo onde eu posso chegar nesse local. Cheguei com nove anos de idade no Conjunto Ceará, um bairro de periferia da cidade de Fortaleza onde a condição de igualdade é a mesma para todo mundo. Ou seja, uma condição baixa, uma condição ruim e foi através de estudos que eu me destaquei. Eu agradeço muito a dona Nilza, senhora minha mãe que para mim foi fundamental para todo esse sucesso que eu estou contando agora. Tenho até uma palestra que chama “O Sucesso Não Acontece Por Acaso”. É muito fácil quando a pessoa diz “oh o cara chegou lá e tal”, mas tem que ver toda a trajetória que aconteceu. Vir aqui e, olhando um pouquinho para trás, me imaginar no Conjunto Ceará naquela época é muito surreal o que eu estou contando aqui hoje. Ter chegado aonde cheguei com muito orgulho, mérito, não passando por cima de ninguém, sempre respeitando, seja um colaborador – aqui cada colaborador da Uniodonto tem acesso a minha pessoa. Não tem essa de “ah, sou o presidente” de jeito nenhum. Eu gosto muito do que faço. Ainda tem o outro lado, pois você me pergunta “como é misturar matemática com odontologia?” Eu também sou escritor, lancei dois livros em 2014 e 2015. Em 2016 lancei a versão em inglês de um deles na Amazon em e-book, que é O Segredo de Anthony, um romance escrito em 2014. Mistério em Alto Monte é um suspense de 2015. Anthony’s Secret foi em 2016, que foi a versão em inglês do primeiro. E tô com um aí no forno, vendo direitinho, vai ser um drama. Acho que lanço esse ano ainda.

VÓS – Qual o enredo desses dois livros?

DR. PEDRO JÚNIOR – O Anthony, que é o primeiro, é uma história que mexe muito com amor de família, um caso de superação incrível do garotinho Anthony, que nasceu com um problema sério de saúde, e superou tudo, surpreendeu todos e a gente nota o tempo todo que o que fez que isso acontecesse realmente foi o amor que tinha a família – ele é de uma família grande – e teve uma perda. Não vou dar muito spoiler, mas a perda é no início do livro. Para muitos seria uma rasteira que talvez você não sobrevivesse, e o Anthony consegue superar tudo isso através do amor de família, na união de todo mundo junto em função daquele garoto que termina sendo um sucesso. Superação total. O segundo livro se chama Mistério em Alto Monte. Nesse aí você jura que são dois atores diferentes porque eu já vou pro lado do ser humano de ver até aonde ele é capaz de fazer uma maldade. Conta a história de uma menina que desapareceu no final da década de 60 e mexeu com todo o interior do estado do Ceará, uma história que é baseada em fatos reais. Ou seja, realmente aconteceu e fazemos um pouco de dramaticidade de contar a história, mas é um conto bem interessante. Também está na Amazon.

 * Imagem de arquivo

VÓS – Você disse que sua família era de educadores. Teve alguma coisa que você trouxe da pedagogia da sua família para a odontologia?

DR. PEDRO JÚNIOR – Sem dúvida alguma, pois trabalhamos com gente. Tanto no consultório, na parte de administração de empresas, com dentistas que trabalham comigo, que fazem a gestão, os funcionários da Uniodonto (que são 87), 850 dentistas ligados à Uniodonto Fortaleza e agora 117 Uniodonto espalhadas pelo Brasil todo, que eu fiquei com a parte do político institucional direto ligado com as Uniodonto. Então tenho que usar da pedagogia todos os dias da minha vida. Cada disciplina que fiz na faculdade, na Licenciatura, hoje é importante. Cada ensinamento da mãe, que era uma pedadoga, é muito importante. Procuro usar todo o dia.

VÓS – O dentista tem que ter um pouco do que você demonstrou, um relacionamento com a comunidade onde ele está trabalhando?

DR. PEDRO JÚNIOR – É de fundamental importância. Eu lhe digo que hoje, sem sombra de dúvida, não tem uma semana na minha vida que eu não atenda pelo menos ex-aluno, uma mãe de um ex-aluno, um primo, uma esposa ou parente. Esse relacionamento eu criei lá atrás. Você colhe frutos do que você plantou. Não vai colher diferente, vai colher o que você plantou. Se plantou o bem, vai colher o bem. Essa relação com a comunidade é de fundamental importância. Você deixar amigos e fazer network o tempo todo, essa é minha vida. Eu não me vejo indo num avião sentado ao lado de uma pessoa que eu vou passar três horas sem conversar, sem comunicar, sem fazer amizades, sem trocar um telefone… Acho isso quase impossível.

Colaboradores

Jonathan Silva

Jonathan Silva

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Garoto diferentão do Bom Jardim, entrou no Jornalismo com a intenção de escrever sobre música, uma paixão herdada da mãe. Hoje usa essa ferramenta para escrever sobre o cotidiano, a cidade, pessoas especiais, artes, fatos marcantes e a luta nossa de cada dia pela dignidade. Se não fosse jornalista, com certeza seria um astro insano do rock.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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