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Próprias Origens

Com Lira Neto Por Flávia Oliveira, Igor de Melo, Tadeu Marinho
26.set
2015

Lira Neto é jornalista, tem 51 anos, e uma “cara de judeu” que uma vez o fez sair da frente do espelho e ir atrás das próprias origens. É biógrafo consagrado por livros como “Maysa – só numa multidão de amores”, adaptado em minissérie pela TV Globo, a trilogia de “Getúlio” e “Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão”, dentre outros. No entanto, quem o vê esmiuçando o processo de pesquisa, o que já lhe rendeu quatro prêmios Jabuti, o maior importante da literatura brasileira, não imagina o menino tímido e cheio de bichos-de-pé que via a tarde passar no topo das árvores. Ou o rapaz que, bêbado de poesia vendida nas portas dos bares, cantou a plenos pulmões no meio da formação militar.

Quando desafiado, seja pelos amigos ou pela própria curiosidade, Lira atravessa tempos e espaços para ir atrás de detalhes dos seus biografados – mesmo que meses de trabalho e quilômetros viajados resultem apenas em duas ou três linhas no papel.

Pai de duas filhas, Lira já ouviu de uma delas que ele não sabia contar histórias, frustrada que estava pela falta de criatividade do pai em inventar o que não havia. Da admiração pela Emília de Lobato, deu o mesmo nome a uma das crias (teria sido esta a espevitada que o criticou?), fruto do casamento com a também jornalista e escritora Adriana Negreiros.

Lira mora em São Paulo, mas para tocar o novo trabalho – desta vez, não a biografia de uma pessoa só, mas a história do samba, a ser lançado em dois ou três anos – passa algumas horas no que elegeu como “escritório”, um bar “pé sujo” na rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro.

ENTREVISTA

Vós – Sei que você não é muito afeito a dar entrevistas para falar de si mesmo, mas se tivesse que fazer uma pequena biografia falada sobre você, o que diria?

Lira Neto – De fato, prefiro falar da vida dos outros do que falar da minha vida. Acho que jamais permitiria que alguém escrevesse uma biografia minha. Porque quando busco escrever sobre alguém, eu fico muito atento às imperfeições (risos). Mas eu começaria dizendo que por muito tempo, nunca havia pensado que um dia seria jornalista. Venho de família classe média baixa, precisei trabalhar desde cedo, fiz o ensino médio em escola pública, sou de uma família de cinco irmãos, filho de uma funcionária pública e pai que era uma espécie de caixeiro viajante, mas que se apresentava como representante comercial, porque era mais interessante pra ele dizer assim. No final das contas, para cada quatro meses fora, ele ficava três ou quatro dias com a gente, e quem assumiu a função de estar presente, de nos educar e, em muitas vezes, ser a provedora, foi a minha mãe. Quando os alugueis de Fortaleza começaram a ficar muitos caros, tivemos que nos mudar para Caucaia, lugar das recordações mais bonitas da minha infância. Era uma casa com quintal enorme, cheio de frutíferas, e minhas tardes eram em cima das árvores. A gente também criava galinhas, tinha até uma chamada de Roberta. Depois se viu que não era muito politicamente correto, porque tínhamos uma prima chamada Roberta, mas acabou ficando o nome (risos). Tive uma infância cercada de plantas, animais, de muito pé no chão, literalmente. E bicho-de-pé, que doía na hora da minha avó tirar, mas também era prazeroso, apesar da agulha quente. Ah…acho que estou falando dessas coisas pela primeira vez (risos). Eu era um menino tão tímido, que quando chegava visita em casa, eu me escondia no banheiro. Não sei, mas essa entrevista está sendo um exercício psicanalítico (risos).

Vós – E o contato com a literatura?

Lira Neto – Por eu ser muito introvertido, ao descobrir o mundo da leitura, pude preencher esses silêncios com os livros. O primeiro livro que me fisgou e me tornou de fato um leitor foi “A chave do tamanho”, do Monteiro Lobato. Eu estava doente, dentro de uma rede, com sarampo, e minha irmã mais velha, a Rosane, que a gente chama de Zan, levou esse livro pra que eu lesse, já que eu não podia ir ao quintal. E eu me lembro exatamente da emoção e do prazer que esse livro me despertou. Não tenho nenhum medo em dizer isso, mas eu acho um dos personagens mais fascinantes de toda a literatura brasileira, não só da infantil, é a Emília, a boneca. Tem uma coisa fantástica na Emília – e nesse sentido, posso dizer que sou emiliano – é que a antítese dela é o Visconde de Sabugosa, o intelectual empolado, que se alimenta unicamente de um saber cristalizado, e ela é um saber anárquico, sem censura. E eu sempre fui mais Emília do que Visconde, sempre gostei mais do saber que me causa dúvida do que aquilo que já foi dito e sacramentado como verdade absoluta.

Vós – Você já se instigou, como biógrafo, a ir atrás de algum detalhe em relação às próprias origens?

Lira Neto – Sim, e foi de uma maneira muito prosaica. Em São Paulo, costumo cortar o cabelo a alguns quarteirões de casa. Um dia, Souza, o barbeiro, colocou o espelho atrás, pra que eu visse como ficou. Dessa vez, eu pensei em voz alta: “puxa vida, eu tô com uma cara de judeu!” Aí o Souza disse: “Peraí, e não é? Você vem aqui há anos e eu sempre achei que fosse. Se eu fosse você, iria atrás disso, você que adora uma pesquisa”. Acabei indo. E não é que descubro que tenho ascendência judaica? A minha genealogia vai dar nos costados da Branca Dias, uma judia perseguida pela Inquisição e que virou até um texto clássico do Dias Gomes. Isso me deu fôlego novo pra contar a história de um grupo de judeus expulsos da Península Ibérica pela Igreja. Eles foram para Holanda, se fixaram em Amsterdã e de lá vieram ao Brasil na época da chamada invasão holandesa na ocupação de Recife e Olinda. Expulsos pelos portugueses, muitos voltaram para Amsterdã, mas um barco subiu rumo ao Norte, e é essa história que me interessou, porque esses judeus foram sequestrados na altura da Jamaica, passaram muitas dificuldades, até finalmente chegar no que chamaram de Nova Amsterdã, que a gente conhece hoje pelo nome de Nova Iorque. Eu quero contar essa história. Sou apaixonado por Nova Iorque e estou juntando material para esse livro, que talvez saia em 2020, sei lá. Do mesmo jeito que “Getúlio” foi um projeto que me tomou alguns anos de trabalho, esse também está sendo.

Vós – Como é a tua relação com Fortaleza?

Lira Neto – Nasci em Fortaleza, e sempre volto duas ou três vezes no ano por causa da família e dos amigos. Mas confesso que talvez eu tenha descoberto o que é ser cearense, ser fortalezense, quando eu saí daqui. Acho que que isso me possibilitou um olhar de estrangeiro sobre a minha própria cidade. Por exemplo, eu não conseguia ouvir o sotaque da minha gente, nem o meu. Quando voltei a primeira vez, prestei atenção no sotaque dos cearenses conversando ainda dentro do avião. Havia uma música na fala. Também descobri detalhes que nunca havia percebido – a luz, o céu, a arquitetura, os códigos de convivência. Parece meio maluco, mas conheci mais Fortaleza depois que saí e retornei.

Vós – Quais os episódios memoráveis que se passaram contigo por aqui?

Lira Neto – Olha…vou falar dos que aconteceram ao lado de duas pessoas. Uma com a qual não tive muita relação, porque pra mim ele era quase um deus. Mas aconteceu uma história que eu acho muito importante pra mim. É que eu cometia poemas na minha juventude. Uma dia, ouvi que Moreira Campos ia dar uma palestra na Letras da UECE. Era um amor platônico, nunca havia tido coragem de falar com ele, que, feito um ser etéreo, andava de paletó no calor infernal da cidade e descia do Fusca parecendo um gentleman saindo da carruagem. Cometi a ousadia de vender para ele um livrinho com umas poesias fotocopiadas. Ele leu uma e disse “gostei muito dessa!”. Pra mim, aquilo foi meu primeiro grande prêmio literário, valeu tanto quanto todos os Jabutis e troféus da APCA. Eu tinha sido lido pelo Moreira Campos! Aí tem outra pessoa que não é conhecida na proporção que deveria ser. Acho que Fortaleza não sabe os tesouros que tem. Ele é uma das maiores inteligências e pessoas mais luminosas que conheci em toda a minha vida. Se chama Vessillo Monte, irmão do Airton Monte. Foi com ele que cometi uma das maiores irresponsabilidades juvenis. Andava com ele na Treze de Maio, quando veio um batalhão inteiro na nossa direção, talvez saído do 23° BC. E o Vessillo: “quero ver você enfrentar o Exército agora”, pois havíamos passado a noite conversando sobre a Ditadura. Aí eu entrei no meio da formação cantando “marcha soldado cabeça de papel”. Até hoje não sei como não me fizeram nada (risos). Quem me vê hoje tão ponderado mal imagina as loucuras (risos). Olha, você está tirando coisa aqui que não falei pra ninguém, viu? (risos)

Vós – Antes da nossa entrevista, eu te vi imitando o jeito de falar do Ricardo Guilherme. Ficou muito parecido mesmo!

Lira Neto – Eu sou um observador. Gosto de observar as pessoas. Quando vou biografar alguém, eu assisto vídeos com ela, até pegar os trejeitos, gestos, manias. Sou assim também no dia a dia. [Neste momento, Lira começa a falar imitando o jornalista Luís Sérgio Santos, professor da UFC, e o dramaturgo cearense Ricardo Guilherme]. Aí eu acabo fazendo isso (risos).

Colaboradores

Flávia Oliveira

Flávia Oliveira

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É repórter. Anda com bloquinho de papel, caneta e máquina fotográfica na bolsa, para o caso de ver na rua alguma história boa de ser contada. Escreve as matérias para a VÓS em mesas de restaurantes vazios ou em qualquer outro lugar. Talvez bem aí, ao seu lado.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

Tadeu Marinho

Tadeu Marinho

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Tadeu vai ser alto, não! Baixo, mas não muito. Vai nascer no Rio, mas vai viver no Ceará. Vai ser Inteligente mas nem tanto, deve ser mais esperto que inteligente. Vai se interessar por tudo, cinema, música, cozinha, arte, mar, fotografia, cachorros, pela vida. Vai ser criativo, comunicativo porém tímido, executor, curioso, vai gostar de novidades e de histórias, curtas de preferência. Vai ser objetivo e sem muitas formalidades, mas tem que ser educado pelo menos. Bastante sincero. Opa! Ficou de mais. Precisa ser livre, pelo menos pensar que é. Vai dirigir, fotografar, criar, escrever, editar, conceber e tudo mais que precisar fazer. Menos rimas.

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