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[Opinião] - Raio Fafizador

Por Hugo Fernandes
22.fev
2018

Em agosto do ano passado, escrevendo artigos num sábado, curtindo minhas hérnias de disco (e Gilberto Gil, esse num disco menos dolorido), abro o Whatsapp.

“Ei… Bora pra Praça dos Leões, tá bombando lá”.

“Praça dos Leões? Aquela que fica no Centro da cidade?” – perguntei, como se fosse possível morar aqui há 12 anos e desconhecer a localização do logradouro, mas tinha que ressaltar a confusão mental que aquela pergunta me trazia.

Fiquei surpreso com a resposta afirmativa e profundamente perplexo quando as primeiras fotos surgiram no Instagram. Sim, a Praça dos Leões, num sábado à noite e sem qualquer show específico, estava lotada. Diante do perfil do público, revelado por rostos de velhos conhecidos, soltei logo o diagnóstico: “É o Raio Fafizador! Ele voltou.”

Para quem não lembra ou não sabe, Fafi era o nome de um dos bares situados na Rua Norvinda Pires, a famosa “Ruazinha”, coração da Aldeota, que abrigou a boemia cult fortalezense por alguns bons anos. Eu vou usar esse termo porque é de fácil entendimento, mas se preferir, defina o cult aqui em questão como o público provedor, mantenedor ou entusiasta da cena cultural alternativa da cidade, contando obviamente com várias exceções. É a tal “juventude alencarina”, lembra? Diga-se de passagem, adoro essa galera e posso dizer que meio-que-semi-quase me insiro nisso aí. Talvez meu lado Humanas não seja tão aflorado para conhecer o lado B dos discos do Gil, mas o fato é que eu curto pra caramba essa cena.

A Rua do Fafi era point certo de quem queria encontrar geral, gastando pouco ou nada. O combo era certo! Cerveja barata e altos crushes (#soujovem e falo “crush”, embora minha referência para isso seja um refrigerante de uva de 1992).

Após o fechamento dos bares, devido a diversos problemas que já conversaremos aqui, para onde foi essa galera? Para onde ir, minha gente? Quero beber cerveja barata, encontrar a cremosa e gastar pouco, o que faço? Ajuda, Luciano! E assim, esse público ficou órfão por mais de um ano, até que o Raio Fafizador atingiu a Rua dos Tabajaras, muito graças ao excelente Mambembe Bar e ao Estoril reaberto. Depois, o raio atingiu o Lions, mas esse devia ter a carga elétrica de meia bateria de iPhone, porque não durou nem dois meses o auê. Agora, toda a energia fafizante estava concentrada no Moto Libre Bar, uma locadora de motos que de noite se transforma em um bar simples, mas muito massa, ali pelos lados da Monsenhor Tabosa. Pela minha experiência por ali, o local parece abrigar um evento semanal chamado ENPaDa (Encontro de Ex-Namoradas, Paqueras e Derivadas), que segundo relatos que colhi com algumas amigas e amigos, também funciona na versão masculina. Há quem afirme que se o Fábio Jr. aparecer por lá, ele encontra todas as ex e mesmo assim permanece (pra você ver como o lugar é bom!).

A ocupação do espaço público é algo fantástico, principalmente para fins culturais. A notícia triste é que esse tipo de uso em Fortaleza não tem vida longa. Os motivos? Basta ver o que aconteceu com os bares da Ruazinha, com a Tabajaras e, claro, com o Lions.

Para começar, não há como qualquer bar competir com comércio de ambulantes de forma desordenada. Enxergamos dois problemas nesse contexto. Falta de zoneamento para regular esse tipo de comércio em determinadas regiões e conscientização do público que utiliza a estrutura e a parte cultural oferecida pelos bares, mas consome do lado de fora, pagando apenas um pouco menos ou por vezes o mesmo preço do estabelecimento (caso do Fafi, por exemplo). Antes que alguém possa pensar em injustiça social, vale lembrar que estamos falando de regulação. Para isso, é preciso estudo de demanda que não prejudique os bares. Isso porque geralmente há muito mais trabalhadores que dependem desses bares do que ambulantes na rua, mas a competição é totalmente desbalanceada, porque o segundo grupo não paga a maior parte da carga de imposto sobre esse serviço em relação ao primeiro. Tratar essa regulação com o argumento da “gentrificação” é de um reducionismo mais injusto do que encoxar a sogra na pia.

Mas sigamos! Depois da tal lotação, temos o efeito da reação da galera diante da lotação. No começo, é tudo muito bonito, até que isso atrai outros perfis de público. É o famoso “tá misturado”, expressão cearense, muito preconceituosa inclusive, para definir a inserção de outras tribos (geralmente menos abastadas financeiramente) no rolê. O público original começa a se esvair, chegam carros de som e a falta de segurança que assola quase todo lugar de Fortaleza acaba resultando em assaltos e por vezes outros tipos mais graves de violência, afastando de vez o público original. O que resta é um espaço público desordenado, bares fechando, até que haja o abandono completo do rolê. A direção do Moto Libre, muito sabiamente, já se antecipou e resolveu mudar-se do local, porque é impossível competir com ambulantes e a falta de segurança.

A solução para Fortaleza, entretanto, é possível. Basta uma gestão pública que tenha o mínimo de bom senso e força de vontade. Para início de conversa, o local a ser investido para isso chama-se Dragão do Mar e o seu entorno, por motivos óbvios, né? Acho que não preciso dissertar sobre isso. Vamos supor que seja a Rua dos Tabajaras. Deve-se regular o comércio de ambulantes (assim como ocorre em feiras livres organizadas), elevar a rua ao nível da calçada, revitalizar a acessibilidade, proibir o acesso de veículos motorizados e o uso de equipamentos de som não autorizados, além de melhorar a segurança no local. Bares continuariam vendendo e atraindo a cena cultural local, isso tudo, obviamente, sem tirar o caráter público e democrático do espaço. Pessoas poderiam trazer bebida de casa e usufruir de todas as instalações a que tem direito. A cena cultural de Fortaleza ganharia um espaço fixo, seguro e economicamente sustentável, a exemplo do que ocorre em outras cidades, como Olinda, Belo Horizonte, Buenos Aires, Barcelona, Sevilha, Havana e tantas outras. Sem higienização social, mas com boa regulação do espaço público.

Infelizmente, o que vemos é o inverso disso. A começar pela triste permanência da feira da madrugada no entorno do Dragão. Não adianta a quantidade crescente de espaços já construídos para abrigar feirantes, barracas continuam nas ruas, no fim de semana, em um esquema político que envolve corrupção, sonegação de impostos e exploração trabalhista. Assistiremos, muito provavelmente, a decadência de um dos melhores centros culturais da América Latina, já sofrido com o corte de vários recursos.

A sorte é saber que, embora haja o descaso, a resistência daqueles que compõe e que lutam pelos espaços culturais da cidade é enorme. Só espero que nessa história o Raio Fafizador seja fortalecido (com profundas modificações, como ressaltado) e mande o raio desse descaso para o raio que o parta.

Colaboradores

Hugo Fernandes

Hugo Fernandes

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Hugo Fernandes-Ferreira é um biólogo mineiro, o que já seria bem suficiente para definí-lo. Tem Doutorado em Zoologia e Pós-Doutorado em Ecologia, mas sonha mesmo com o título de cidadão cearense. Tenta ser músico, tenta ser cruzeirense, mas falta tempo. Professor da Universidade Estadual do Ceará, colunista da Tribuna do Ceará, Huffington Post e apresentador do quadro Zoa (TV Jangadeiro / SBT), deve sua produção científica e midiática a inúmeros arranhões florestas adentro. Se o trabalho é na mata, o refúgio é na cidade, espaço em que se inspira para suas impressões forasteiras aqui na Vós.

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