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Histórias

Rock cearense entocado no Bom Jardim

Com The Good Garden Por Jonathan Silva, Igor de Melo
15.jan
2019

É sexta à noite na rua Nova Conquista, no bairro Bom Jardim. Enquanto a maioria dos moradores está dentro de casa vendo TV ou na calçada proseando, uns roqueiros com camisa preta se aglomeram na frente do número 1066. Motos e carros estacionados em frente e muito papo pro ar. O muro alto chapiscado da residência não está lá por acaso; bota “nas entoca” o Toca Good Garden, pub rock ‘n roll que há quatro anos movimenta a cena underground no Bom Jardim.

Uma movimentação obtida sem flyers, letreiros em neon ou pintura temática que servem de anúncio no lado de fora. O que falta de adereços na área externa, porém, transborda no interior. O chão quadriculado, em preto e branco, é convidativo pois lembra uma pista de dança dos anos 50. Discos, CD’s e panfletos de eventos decoram as paredes negras. O maior destaque é o Godzilla gigante pintado ao lado do logo da banda que gerencia o espaço: The Good Garden.

Quem chega no pub é recepcionado por Georgiano de Castro, baixista e vocalista que fica de porteiro. Se você quiser tomar uma dose basta falar com Wellington Lobo, guitarrista e vocalista responsável pelas bebidas no bar. Cícero Alexandre, baterista e vocalista, deixa as baquetas de lado para operar a mesa de som e demais equipamentos técnicos.

“Houve até uma ideia de fazer um show com cada um nos seus lugares. Eu aqui tocando dentro do bar, o Alexandre por trás da mesa e o Georgiano lá fora, que ele fica na portaria”, leva na brincadeira Wellington Lobo, o mais novo do power trio. Nem no lendário CBGB (antigo bar nova iorquino responsável por alavancar a carreira de bandas como Ramones, Talking Heads e Blondie) havia membros tão proativos assim.

The Good Garden surgiu no Bom Jardim em 2003, revisitando o rock cinquentão com um verniz punk adolescente. A banda já havia conquistado uma presença no underground com shows e festivais no Ceará e outros estados. Na discografia, singles, EPs, discos ao vivo, além de produtos como camisetas, bonés e revistas em quadrinhos. Mas em 2014 havia uma necessidade: um espaço próprio para que eles e outras bandas pudessem tocar.

“A gente já chegou a alugar o Hey Ho (Rock Bar, pub fortalezense experiente na cena), lava jato, motel… Fazíamos eventos em todos os cantos. Então a Toca Good Garden era uma necessidade do movimento. Ao perceber que algumas pessoas tinham feito esse mesmo modelo, principalmente em São Paulo e Minas, resolvemos fazer também”, relembra Georgiano. Inicialmente, a ideia dos integrantes era comprar um circo, inspirados na trajetória do Circo Voador, no Rio de Janeiro. Por pouco o lance não foi pra frente.

Foi aí que Cícero, que já tinha um terreno sobrando em casa, se utilizou de recursos próprios para construir o pub. Algo pertinente, uma vez que não pagariam aluguel pelo espaço. Wellington e Georgiano entraram com equipamentos de som e luz. Dentro da ética punk do “faça você mesmo”, os garotos roqueiros do Bom Jardim estavam bem disciplinados.

Justamente por ser dentro da propriedade residencial de Cícero, não soa nada estranho abrir a porta preta que fica atrás do palco e dar de cara com uma sala bem caseira típica. Um simbolismo do que é a vida do “Alexandre do Rock”, como o músico é conhecido nas áreas: de dia professor de educação física e pai de família; à noite, roqueiro dono de bar.

Conscientes de que os lucros não seriam abundantes, os três trataram de manter o aspecto sustentável que mantivesse o negócio. Sustentabilidade é outra ética de trabalho que Cícero defende para o Toca. “O som é nosso, a iluminação é nossa, o espaço é nosso. É uma forma de fechar a cadeia produtiva sem perder. Os lucros são muito baixos pois, num bairro de periferia, você não pode explorar economicamente as pessoas.”

Em cada noite de evento quatro bandas se apresentam para um público que varia em média de 60 a 70 pessoas, entre moradores do Bom Jardim, outros bairros da cidade e, em alguns casos, bandas de outros estados. Existe entre os donos e público uma abertura para ideias e sugestões de programação, assim como festivais organizados por coletivos independentes sem ligação direta com o The Good Garden. Dentro dessa cadeia de relações, 120 shows aconteceram só em 2018.

Wellington, o guitarrista barman, se sente próximo das pessoas que visitam o Toca. “Até quem não é amigo se torna quando chega. O público acaba também entrando na vibe.” Apesar da seriedade de gestão, o clima interno é desencanado. Pagando 7 “ilusões”, por exemplo, você tem a oportunidade de degustar as Rodelas do Órgão Sexual do Godzilla Acebolado. Termo inusitado para nomear a porção de calabresa.

Para 2019, a promessa é de que haja maior abertura para construções coletivas entre o The Good Garden e demais coletivos que trabalham o bom e velho rock ‘n roll feito às próprias custas. Independentemente do movimento estar na estrada ou na rua Nova Conquista, bem detrás do portão preto na casa 1066.

Colaboradores

Jonathan Silva

Jonathan Silva

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Garoto diferentão do Bom Jardim, entrou no Jornalismo com a intenção de escrever sobre música, uma paixão herdada da mãe. Hoje usa essa ferramenta para escrever sobre o cotidiano, a cidade, pessoas especiais, artes, fatos marcantes e a luta nossa de cada dia pela dignidade. Se não fosse jornalista, com certeza seria um astro insano do rock.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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