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Histórias

[Patrimônios Históricos] - Santa Casa e a árdua luta em prol dos menos favorecidos

Por Leila Nobre, Igor de Melo, Mariana Marques, Michele Boroh

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28.nov
2015

Enquanto as Santas Casas se espalhavam pelo Brasil, a do Ceará só se instalou 300 anos depois da Santa Casa de Santos. Preocupado com as consequências da seca de 1845, que deixara grande número de pessoas doentes e sem tratamento, o presidente da província Cel. Inácio Correia de Vasconcelos, tomou a iniciativa de construir o que chamou de Hospital da Caridade, mas o presidente foi exonerado em julho de 1847, e as obras foram paralisadas, pois seu sucessor, Casimiro José Morais Sarmento, preferiu investir na construção de um cemitério no Morro do Croatá, que recebeu o nome de São Casimiro, em homenagem ao fundador. (O cemitério de São Casimiro ficava na atual Praça Castro Carreira, mais conhecida por Praça da Estação)

Em 1839 o Ceará foi assolado por uma epidemia de malária, surgindo então à necessidade de construir uma Santa Casa em Fortaleza, mas o plano não foi adiante. Mais tarde, em 1847, a ideia renasce, e a construção da Santa Casa é iniciada, em um terreno doado por D. Maria Guilhermina Gouveia, localizado em frente ao Paiol do Forte, onde hoje é o Passeio Público. Apesar da necessidade de uma Santa Casa, o prédio esteve sempre ameaçado de ceder lugar ao Liceu do Ceará, fundado dois anos antes, em 1845, funcionando desde então na sala do sobrado de Odorico Segismundo de Arnaut, na esquina da Rua Dr. João Moreira com Rua Major Facundo, local hoje ocupado pelo prédio da Associação Comercial do Ceará.

No ano de 1851, o Ceará é afligido por outra epidemia, então a da febre amarela. Apesar da precariedade do estado sanitário de Fortaleza, e embora ainda não estivesse concluída a construção, foram abertas duas enfermarias da Santa Casa aos doentes mais carentes, que logo ficaram lotadas. Somente em 1854, as obras foram retomadas (O então presidente Padre Vicente Pires da Mota, com o apoio de pessoas de posses, resolveu retomar as obras do Hospital da Caridade. Entregou a direção da construção ao Boticário Ferreira, que era intendente da cidade e havia realizado um excelente trabalho na urbanização de Fortaleza.), sendo concluída a construção em 1857 do prédio térreo com capacidade para 80 leitos, com o nome de Hospital de Caridade, mas não iniciou o funcionamento porque não havia pessoal treinado para trabalhar no hospital. Ainda em janeiro daquele ano, o Presidente da Província, Paes Barreto, cede as salas e enfermarias para o Liceu, que permanece ali até 1861, quando só então ocorreu a inauguração formal, recebendo o nome de Santa Casa de Misericórdia.

A Santa Casa foi construída inicialmente com recursos públicos fornecidos a Província para resolver os problemas advindos da última epidemia de febre amarela. O funcionamento da Santa Casa não era prioritário, o do Liceu sim, priorizado no momento por uma pressão da intelectualidade e das famílias abastadas, que desejavam ver seus filhos estudando em Fortaleza e não mais se deslocando para outras regiões, principalmente Pernambuco e Bahia, como ocorria até então.

Em 12 de fevereiro de 1861, o Presidente da Província, Antônio Marcelino Nunes Gonçalves, oficializou a Irmandade da Misericórdia, nomeando seus dirigentes com a missão de administrar o Hospital de Caridade. Em 14 de março do mesmo ano, alterou o nome para Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza, que teria como mantenedora a Irmandade Beneficente da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza. O Dr. Joaquim Antônio Ribeiro (Nascido em Ico, a 9 de janeiro de 1830 e falecido em Fortaleza a 2 de maio de 1875), foi o primeiro médico nomeado para trabalhar na Santa Casa, em 12 março de 1861. Formado em medicina pela Universidade de Harvard, Cambridge, na Inglaterra em 1853, foi o autor do “Manual das Parteiras”.

No início do século XX, a Santa Casa de Fortaleza, apesar das dificuldades financeiras, prosseguiu empenhada na árdua luta, visando o melhoramento da trágica situação de saúde do povo cearense. Em 1915, a Santa Casa passou a atender uma grande massa de retirantes sofrendo das mazelas da Grande Seca. O edifício é reformado em 1920 (Projeto do arquiteto italiano Paschoal Fiorillo), sendo-lhe agregado mais um andar, e fachadas com características neoclássicas, as quais são mantidas até hoje. Dez anos depois, em 1925, a Santa Casa firmou-se como um hospital de alta tecnologia, foi o pioneiro no estado na introdução do serviço de radiologia ao inaugurar no dia 29 de junho de 1925 o primeiro aparelho de Raios-X. Pelo espaço de 4 anos, funcionou na Santa Casa o primeiro serviço de urgência em Fortaleza, quando em setembro de 1937 foi inaugurado o Pronto Socorro Dr. José Ribeiro Frota.

No final da década de 40, a Santa Casa procurou modernizar sua infraestrutura, visando o grande impulso que viria a ter os negócios da medicina durante a segunda metade do século.

Em 1961, a já centenária Santa Casa, contava então com 300 leitos e tornava-se um hospital de grande porte.

As injeções de morfina e as contenções ativas foram substituídas por anestesias locais e tronculares.

A Santa Casa passou por profundas modificações nos anos 70, quando foi desligado o Sr. Arcebispo e a Diocese de Fortaleza da gestão do hospital. Foi inaugurado um moderno centro cirúrgico, composto de oito salas, que em pouco tempo fez com que a Santa Casa fosse o hospital a realizar o maior número de cirurgias em todo o Ceará e passou a ser a maior escola prática de medicina no Estado que durante todos esses anos tem oferecido ao estudante de medicina, ao médico e a todos os profissionais de saúde uma aprendizagem das mais significativas.

Os anos 80 foram marcados pela integração do Hospital ao Sistema único de Saúde – SUS. Sendo um hospital filantrópico sofre todas as consequências das medidas determinadas pelo Ministério da Saúde. Na virada do século XXI a Santa Casa passa por uma séria crise que foi acumulada através de anos. A atual provedoria tem se esforçado, mas as dificuldades são muitas e o hospital permanece necessitado de doações.

Colaboradores

Leila Nobre

Leila Nobre

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Leila Nobre é pesquisadora Memorialista. Idealizou e mantêm o site Fortaleza Nobre, onde procura resgatar a Fortaleza antiga, em suas ruas, praças, praias, monumentos. É casada e mãe de três meninas. Ama ler e escrever.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

Mariana Marques

Mariana Marques

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Mariana Marques nasceu em Fortaleza em 1982, e não pensa em ir embora. O Ceará é casa e lugar de trabalho, panorama e memorabilia. É apaixonada por gente e pelo fantástico movimento da rotina. Pelo que passa despercebido. Concebeu a plataforma, junto com uma equipe muito especial.

Michele Boroh

Michele Boroh

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Nasceu no Dia do Jornalista. Aos 9 criou o Jornal dos Amigos do Prédio, em folha de caderno e à base de canetinha. Agora, aos 31 e após 8 em TV, é coordenadora de conteúdo e colunista de VÓS, com a mesma paixão da infância. É também cronista no Tribuna do Ceará, viciada em livro, cavaquinista de churrasco e mãe de um Bull Terrier. Ariana, de sol e lua.

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