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Histórias

Sem Sérebro: um grupo de doidos... pelo surf e pela amizade

Por Marcela Benevides, Igor de Melo
21.mar
2019

Como moradora de Fortaleza, posso dizer sem medo que a “quintura” das 10 horas da manhã é capaz de deixar qualquer pessoa estressada a procura de um lugar com ar-condicionado para se proteger do típico sol-quente cearense. Ou optar por uma das melhores formas de sobreviver a esse calor: à beira da praia e, de preferência, com uma água de coco bem gelada. Mas há quem cultive, ao longo dos anos, uma relação diferente com o mar, que pode começar acordando antes do sol raiar para pegar uma onda até criar um grupo para viver de e para o surf.

Nosso encontro, claro, aconteceu na orla da Praia do Futuro, amenizados do calor pela brisa do mar e pela sombra das poucas árvores do calçadão. Com uma ajudinha do destino ou por simples coincidência, uma parte do antigo grupo estava presente. Uns voltando do mar, outros parando só para comprar parafina ou quem simplesmente chegou de passagem. Todos ajudaram a narrar as histórias do Sem Sérebro Surf Clube.

Tudo começou em 1989 com cinco amigos: Diassis, Sérgio, Alex, Miritil e Raul. O nome do grupo ninguém sabe ao certo de quem foi a ideia, a lembrança que surge é que “sempre um ou outro olhava pra gente e falava que éramos sem cérebro”, recorda Diassis, o mais velho do grupo com 53 anos de idade e 38 dedicados ao surf. Como na época o movimento de surf era fraco, nasceu a ideia de criar um grupo para promover os campeonatos que estavam “muito ruins” e fazer as trips pelo nordeste.

A identidade do Sem Sérebro era a rebeldia e irreverência. “A gente ia contra o sistema. Tudo que era dito como “normal”, fazíamos ao contrário. As pessoas nos viam como irreverentes, era algo que vinha de dentro da gente. Acabamos com a associação de surf de Fortaleza, posso nem falar como foi isso”, relembra Diassis.

Sérgio, que foi atleta profissional de surf, recorda que na hora de dar entrevista nos campeonatos a orientação dada pelo SSSC era para ele falar tudo ao contrário. “Chegava na hora e eu detonava a competição. Xingava, dizia que era mó paia, que as ondas eram ruins, o julgamento era errado, e com isso a gente quebrava a galera porque todo mundo que ia falar dizia coisas boas e a gente ia e fugia do contexto. Foi uma época muito doida.”

E assim o grupo foi movimentando a cena do surf no Ceará, promovendo os campeonatos e criando as “festas memoráveis”. Tudo era produzido pelos membros da forma mais artesanal que se pode imaginar; os cartazes e os convites para as festas eram feitos à mão, de lápis e caneta, e enviados pelos correios. Eles relembram que não esperavam que as pessoas aderissem ao “movimento”, mas aos poucos a galera começava a querer fazer parte do Sem Sérebro. No começo eram cinco, mas passou a ter cerca de 20 membros oficiais, além dos seguidores.

“Hoje a galera se segue pelo Instagram, mas na época não existia isso, a gente não tem ideia da quantidade de pessoas que nos seguiam, porque era tudo espalhado pela cidade. Mas era uma galera, porque nas festas e nos campeonatos apareciam muitas pessoas”, lembra Alex.

Os Sem Sérebro começaram a ter noção de quanta gente que se identificava com eles depois da primeira festa realizada no Eusébio. “Era uma parada roots e não tinha energia e a iluminação era feita com tochas, mas para surpresa de todos bombou e fez a cabeça da galera. Começamos a vender as blusas e os calções e foi a partir daí que aos poucos fomos virando uma marca e demos início a criação dos campeonatos”, recorda Sérgio.

Dentre as tantas histórias, Sérgio descreve uma das que representa o espírito “sem sérebro” da turma. O carro era uma Paraty marrom que ele havia ganhado do pai, mas o motor estava esquentando e por isso não permitia viagens longas. Na mesma época, na Praia do Francês estava rolando “6 a 8 pés de ondas perfeitas”, e claro que eles não podiam ficar de fora. Sérgio chegou para o pai e disse que ia para a praia da Taíba, cerca de 76km da capital cearense. “Botei 10 pranchas em cima do carro, cinco cabra dentro, e me mandei. 1000 km de estrada até Alagoas”, recorda entre uma gargalhada e outra.

Ao chegarem lá, surfaram “altas ondas” sem saber que estava rolando o campeonato de bodyboard, e por isso a TV Manchete estava na praia cobrindo o evento. “O Sérgio saiu pelo palanque, onde estavam filmando. Enquanto isso, na casa dele, os pais estavam assistindo ao jornal. Quando deram fé, ele passou por trás da filmagem”, complementa Diassis. Pra fechar a trip com chave de ouro, no caminho de volta, a Paraty marrom bateu o motor.

Surf raíz

A fala descontraída e o brilho que ilumina os olhos ao narrar as histórias de 30 anos atrás são as características em comum e mais marcantes dos três membros que estavam naquela manhã na Praia do Futuro. Diassis, de bermuda, uma camisa com a nova logo da Sém Sérebro e chinelo; Sérgio também de bermuda, tênis, camiseta e óculos escuro, e Alex de bermuda e camiseta, explicaram, um complementando a memória do outro, que mesmo com a popularização do clube não era qualquer pessoa que podia fazer parte dos formação oficial. Para que alguém de fora entrasse era preciso que todos aprovassem, porque todos “tinham que ser amigos”.

E a importância desses laços era colocada à prova nas “trips de surf”. Porque, acima de tudo, essa era a alma do clube: fazer viagens para surfar juntos e um ajudar o outros nos longos acampamentos, que chegavam a durar mais de 60 dias. As viagens eram feitas pelo nordeste do país, tendo entre as praias queridinhas a do Francês, em Alagoas e Fernando de Noronha, em Pernambuco.

Tudo era feito de maneira rústica e sempre pensando nas ondas. Eles montavam uma oficina para consertar as próprias pranchas, e se alguém precisasse voltar a Fortaleza para resolver alguma coisa, já levava mais duas ou três pessoas para passar na casa de cada um e trazer mantimentos – de ônibus – porque os outros estavam esperando por reforço.

E foi em uma dessas viagens a Noronha que Diassis ficou amigo de Zé Mário, lutador e multicampeão de jiu-jitsu. “Lá no acampamento a gente consertava prancha, mas quando dava onda eu fechava a oficina e ia surfar. Aonde que eu, em Noronha, dando onda, ia ficar consertando prancha?! Só que aí chegou esse cara marrento do Rio de Janeiro, falando assim “pô ceará, ajuda aí” e eu disse pra ele “caba, não sei por quê mas eu gostei de ti, vou consertar tuas pranchas” e passei madrugada ajeitando as 3 pranchas dele. Eu não sabia quem era ele, e o pessoal fica dizendo “cara, tu sabe quem é ele?” e eu não sabia nem o que era jiu jitsu, mas ele ficou meu amigo”, revive contando.

“Até tentamos ser direitinho, mas”…

A verdade é que, ao longo do tempo, o clube se tornou marca e virou moda. Diassis relembra que a galera gostava de usar camisa da Bad Boy com o short da Sem Sérebro. Cresceram, abriram seis lojas, uma fábrica e ainda tinham um camarote no Fortal. “Foi nessa época que até tentamos ser direitinho, porque eu casei e tive uma filha, então eu queria seguir certo, mas não tinha jeito. Quando eu chegava na fábrica tava os cabra tudo bêbado, em cima das máquinas de costura, de uma festa que tinham feito à noite, todo mundo virado. Como é que um negócio desse ia dar certo? Tentamos, mas era muito trash, era todo mundo louco.” Mas loja funciona até hoje.

Depois de passar por um período em que consideraram que o surf perdeu força não só no estado, mas no Brasil, hoje eles enxergam na “Era Medina” uma possibilidade de voltar a ser como um dia já foi. “Têm surgido as escolinhas, o pessoal aprendendo, os pais colocando os filhos pequenos… Tá renascendo, um puxando o outro, porque a molecada vê o Medina na TV e quer fazer igual a ele.”

Diassis ainda compara a nova geração do surf com a antiga. “Hoje se aprende a surfar com aulas, porque antes pra aprender a surfar era na tora… Eu descia a José Vilar até à praia do Ideal e era no “se vira doido”, aprendi sozinho. Hoje existe mais estrutura, dá pra ficar em pé no primeiro dia. Antigamente, se você não quisesse muito, desistia logo. O surf era ou tu ama ou tu odeia.”

Aos poucos cada um foi seguindo rumos diferentes, mas a turma nunca abandonou o surf. Teve quem foi morar em outros países, procurou um emprego mais formal, mas sempre visando uma forma de encaixar as ondas na rotina. E apesar das décadas passadas e das mudanças, quando caem dentro d’água a sensação é de ter os mesmos 15 anos de quando começaram no esporte. E sempre que possível reúnem a “galera das antigas” na casa de alguém, na Taíba ou numa viagem para as Ilhas Mentawai, para fazer o que gostam: pegar altas ondas e jogar conversa fora.

Serviço

Loja – Sem Sérebro Surf Club

Onde: Av. Zezé Diogo, 3080

Funcionamento: Terça a sexta-feira 8h às 12h | 13h às 16h30

Telefone: (85) 9.9871.5561

Colaboradores

Marcela Benevides

Marcela Benevides

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Ler e escrever são as duas coisas que mais a definem. Gosta de contar histórias sobre pessoas e lugares que inspiram a felicidade e a percepção de que a vida vai além das bolhas em que vivemos, e é na cidade que encontra a sua inspiração. Acredita que o jornalismo é um dos meios para promover a união entre culturas. Importante destacar: tem o sol em leão.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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