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A abelha-rainha da renda de bilros

Com Albertina Por Flávia Oliveira, Igor de Melo, Michele Boroh
14.nov
2015

Dona Albertina é professora voluntária de renda de bilros, uma das técnicas mais difíceis do nosso artesanato

“As rendas têm nome, história, anedotários. As rendeiras têm suas rainhas, espécie de abelha-mestra, levando para o túmulo segredo de certos pormenores” – Câmara Cascudo

No papelão pregado na almofada, os pequenos furos formam desenhos que, ainda sem linha, não têm cor ou forma, apenas significado. Os alfinetes de cabeça são colocados para servir de guia e aí sim, as linhas iniciam o entrançado a partir deles, guiadas pelos bilros. Há uma ordem nesse caos, mesmo que cause assombramento a imagem de tantos fios em iminente desalinho. As mãos que os guiam sabem o que fazem, e é assim há tempos, mesmo que não se conheça ao certo de quando ou onde veio a técnica. Deve haver algum tipo de magia na renda de bilros. Sim, deve haver o intangível.

Dona Albertina é uma abelha-rainha de 81 anos e também professora voluntária. Blush nas maçãs do rosto, olhos de longos cílios por atrás dos óculos de grau, ela conversa sem parar, entremeando as peças de madeira ou semente de buriti numa rapidez hipnotizante. O som de um bilro batendo no outro é incrivelmente prazeroso, e as alunas-operárias gostam de parar as atividades para ouvi-lo. As aulas de renda são para a terceira idade, mas há uma abelhinha aprendendo a técnica: a pequena Carol, de nove anos, bisneta de dona Albertina. Por causa das provas bimestrais do ensino fundamental, a menina teve que, muito a contragosto, voar para longe das tardes de renda.

“A renda tem um valor danado para o nordestino, mas se não houver a transmissão desse conhecimento, seja de mãe para filha ou em cursos, como fiz aqui, a tendência é acabar. Se depender da gente, não acaba não!”, diz Maria Mota, diretora do Instituto Chico Mota, no Montese, uma ONG voltada para a inclusão social da terceira idade. Aficionada por educação e artesanato, teve que se desdobrar para achar subsídios para a realização do curso. “Foi uma luta, viu? Porque poucas pessoas detém o conhecimento, e ainda há aquelas que fazem questão de manter em segredo, não ensinam de jeito maneira”, lembra.

“Eu gosto de ensinar. Quer dizer, eu sou exigente, mas é assim mesmo. Imagina que até bem pouco tempo eu ficava sozinha num apartamento de terceiro andar, porque meu filho ia trabalhar, e eu pensava comigo: ´isso não é vida, meu Deus´. Aí parei de me lamentar e pedi pra minha cunhada que foi a Jaguaruana pra arrumar uma almofada, uns bilros e uns espinhos pra fazer de alfinete. O resto eu resolvi, porque eu aprendi a fazer renda aos seis anos, vendo minha mãe fazer. Ficar deitada na rede olhando uma TV não é comigo não, eu gosto é do movimento da escola!”, diz. (Flávia Oliveira)

Colaboradores

Flávia Oliveira

Flávia Oliveira

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É repórter. Anda com bloquinho de papel, caneta e máquina fotográfica na bolsa, para o caso de ver na rua alguma história boa de ser contada. Escreve em mesas de restaurantes vazios ou em qualquer outro lugar. Talvez bem aí, ao seu lado.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

Michele Boroh

Michele Boroh

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Nasceu no Dia do Jornalista. Aos 9 criou o Jornal dos Amigos do Prédio, em folha de caderno e à base de canetinha. Agora, aos 31 e após 8 em TV, é coordenadora de conteúdo e colunista de VÓS, com a mesma paixão da infância. É também cronista no Tribuna do Ceará, viciada em livro, cavaquinista de churrasco e mãe de um Bull Terrier. Ariana, de sol e lua.

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