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Histórias

É tempo de paternar

Por Marcela Benevides
13.ago
2018

De acordo com o Dicionário Aurélio, pai significa aquele que tem ou teve filho(s), genitor, progenitor, indivíduo em relação aos seus filhos, responsável pela criação. Mas também pode significar fundador; no sentido religioso, é a primeira figura que, juntamente com o Filho e o Espírito Santo, compõe a Santíssima Trindade. No sentido figurado, pode significar amor, saudade, herói, alguém desconhecido, coragem e etecetera.

Ben Hur Oliveira é psicólogo, pai do Rudá de 9 anos e da Iara de 1 ano e 6 meses. Na primeira gestação da esposa Carolina, enquanto ela buscava por um olhar mais humanizado sobre o parto – na época ainda muito precário em Fortaleza -, ele estava atrás de prover, de fazer o “papel do homem”. O parto não foi como o casal esperava. Houve apenas a preparação para o nascimento, não para as mudanças que o primeiro filho traz, e Ben Hur e Carolina tiveram uma crise de relacionamento.

Era um novo mundo, ainda desconhecido. Para passar por esse momento foi preciso se fortalecer, principalmente com conhecimento. Ele confessa que no ínicio era mais uma busca da esposa, mas que com o tempo ele também foi se aproximando dessa realidade.

Carolina, junto com amigas e outras profissionais da saúde, começou a buscar informações sobre gravidez, parto e pós parto respeitosos e fez curso de doulagem, vindo a se tornar doula profssional. Depois, passou a integrar o grupo Mães do Corpo, espaço que tem como intuito, apoio interdisciplinar à maternidade. Durante esse período, a busca por parto humanizado foi crescendo na cidade e outros grupos foram surgindo.

Como Ben Hur é psicólogo e sempre esteve em contato com as atividades da Mães do Corpo, foi convidado para conduzir uma roda de conversa com os pais porque, apesar de ser um encontro de casais, os pais não iam ou ficavam sempre muito calados. Então foi a partir dessas rodas que surgiu o Movimento Paterno, um grupo de pais, conduzido por Ben Hur, com o objetivo de discutir sobre a paternagem a partir do olhar desses pais.

Ele teve liberdade para conduzir as ideias da maneira que julgava ser correto e optou por ser um grupo exclusivamente masculino, para que fosse mais fácil fazer com que os pais falassem sobre as questões que as esposas levantavam. “Depois de um tempo sentimos a necessidade de fazer os encontros fora do espaço Mães do Corpo e hoje nos encontramos em restaurantes, praia, na casa de um dos membros do grupo…” E é entre uma água de coco e uma olhada nas crianças que as problematizações vão surgindo.

Assuntos como escola, dúvidas sobre alimentação, saúde, desmama, vida sexual e humanização são conversados com mais liberdade. Não existe uma programação, os questionamentos vão surgindo e passam a ser debatidos por todos. Ben Hur explica que nem sempre traz esclarecimentos e que por vezes chega com dúvidas ainda sem respostas para estimular no grupo o desejo de mais conhecimento e apresentar os diversos contrapontos existentes.

“O movimento paterno trouxe o valioso contato com outros homens que vivenciam de forma às vezes diferente, às vezes similar, a paternagem. Traz exemplo, referência. Constrói uma sabedoria compartilhada. Desenvolve em nós homens a força, o cuidado e a sensibilidade.”

Durante os encontros, o grupo tenta refletir sobre a herença do patriarcado e como ela dificulta o vínculo com os filhos, além de debater sobre a importância da equiparação do trabalho e das tarefas domésticas. “Tivemos, ao longo desses dois anos, dois encontros com as mães da Mães do Corpo, e sempre é uma troca importante. Esse diálogo entre casais proporciona um olhar diferenciado e uma evolução do grupo. As vezes, escutar as queixas de outra mulher/mãe faz com que sejamos mais empáticos com a condição similar que nossa própria companheira vive no seu processo de maternar”

Com tranquilidade e precisão ao falar, Ben Hur explica que a sociedade mudou, e o que foi considerado ser um “bom pai” em outros tempos, aquele que somente provia e brincava pouco com os filhos, já não se encaixa hoje. Ele argumenta que um bom caminho para exercer a paternidade é dedicar tempo com qualidade no convívio com os filhos. “É participar ativamente de todos os cuidados que o desenvolvimento da criança requer. É ter disponibilidade para dialogar e tentar mudar a cultura patriarcal nessas atitudes a partir de si mesmo. É ter outra visão para com os filhos, um olhar mais sensível”.

Ben Hur também expõe que a dificuldade de criar vínculos e de terceirizar menos a criação dos filhos – com babás, creches ou escolas de tempo integral, por exemplo – é resultado do sistema em que a sociedade vive e que os tempos de licença maternidade e paternidade não são suficientes. “Como uma mãe vai amamentar durante dois anos se ela só pode ficar em tempo integral com o filho durante quatro meses? Como o pai vai estabelecer vínculos mais fortes com uma licença de 5 ou 15 dias?”

Para ele, a visão da população em relação a esses assuntos e a gravidez humanizada têm passado por mudanças importantes, mas é preciso que as pessoas tenham mais acesso à informação. “A mulher, antes de decidir pela forma do parto, precisa saber de todos os prós e contras dos tipos de parto para que ela possa escolher, sem medo o que vai ser melhor, com base em informações e evidências científicas, para ela e para o bebê.”

Dentre as iniciativas que nascem nesses encontros, está o desejo de um pequeno grupo, de criar uma creche parental, que é uma tentativa de alguns casais que estão com os filhos na primeira infância de se juntarem e partilharem o cuidado. “Cinco ou seis famílias se juntam e decidem que dois casais vão cuidar dos filhos de todos a cada dia da semana. É uma forma de criar os filhos a partir dos princípios que nos une. E o que une essas famílias é esse olhar diferenciado.”

As tentativas acontecem sempre e vai funcionando de acordo com a disponibilidade dos pais. “É uma experimentação. Funciona por um tempo, mas os obstáculos vão surgindo, mas aos poucos vamos superando e criando novas formas de viver”

Ben Hur, entre tantos significados, define a paternidade como o ato de se eternizar em um outro; é “plantar a sua semente e cuidar. É o ato de contemplar a beleza de ver os filhos crescer; se dedicar exaustivamente e querer isso e tentar melhorar a cada dia, “revisar os porões dos seus traumas e se libertar deles para que seu filho tenha um pai melhor e se construa uma pessoa mais livre.” Compreender que eles não são a execução de um projeto seu, e ainda assim ser apoio, acolhimento e correção para que eles possam criar suas próprias realidades.

Fotos: Arquivo Pessoal

Colaboradores

Marcela Benevides

Marcela Benevides

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Ler e escrever são as duas coisas que mais a definem. Gosta de contar histórias sobre pessoas e lugares que inspiram a felicidade e a percepção de que a vida vai além das bolhas em que vivemos, e é na cidade que encontra a sua inspiração. Acredita que o jornalismo é um dos meios para promover a união entre culturas. Importante destacar: tem o sol em leão.

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