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Tiro no escuro

Por Luciana Targino
09.jan
2018

Você já se viu nessa situação? Nessa de que chega um momento da sua vida no qual você é quase compelida a agir, a seguir, a buscar um novo caminho, sendo que você não tem a menor ideia de onde isso vai dar?

Começa com uma inquietação. É um emprego que já não te dá motivação alguma pra acordar e pegar no batente. É um casamento que há muito tempo já foi pro saco, acabou a paixão, o amor, talvez tenha até ficado uma amizade, mas você não reconhece mais quem está do seu lado – pior, não se reconhece mais ali naquela rotina conjugal. São aqueles quilos a mais que não te deixam ter a disposição que gostaria pra fazer aquela tal viagem de natureza e trilhas com a sua turma pra Chapada Diamantina, ou não te faz caber naquele biquíni que você adoraria entrar no próximo verão…

Essa inquietação vai se transformando numa insatisfação, que por sua vez vai se tornando uma tristeza e um belo dia você se dá conta de que se não mudar, sua vida não vai ter sentido.

O problema é que MUDAR é um troço tão desorganizador, exige energia dobrada e dá tanto trabalho que a gente passa um tempão tentando contornar e fingir que tudo vai já, já voltar ao que era antes. Bate um medo de largar o que já foi construído, àquela rotina que, mesmo não te representando mais, é sua e você sabe cada passo daquela estrada. Dá uma insegurança, você pensa nos filhos, em como seus pais vão ficar se você for embora do Brasil, pensa nos amigos, no salário fixo de cada mês, pensa no “para sempre” que você disse em frente ao padre, pensa que vai ter de abdicar das cervejinhas, do brigadeiro e recua o quanto dá.

Só que chega um momento em que não é mais possível contornar o incontornável, pois a mudança principal já está acontecendo desde o dia em que você se inquietou: VOCÊ MUDOU. Simples e complexo assim.

Se enquanto lia essa crônica o filme da sua vida passou pela sua cabeça, esta escritora que vos fala vai te dar um spoiler: o caminho da mudança não é nada fácil, é longo, incerto, mas é de um amadurecimento, de um resgate de si mesma e de tantas surpresas que eu julgo valer a pena atirar nesse escuro.

Fiz esse caminho no ano passado. Uma profissão – marketing – que não me representava havia tempos, um casamento doente e uma vontade enorme de morar no Rio de Janeiro. Paralelamente a isso, eu resolvi dar ouvidos a uma vontade que eu julgava ser menor, que não daria em lugar algum, me levaria a nada, que é a de escrever. Vejam só, tô escrevendo para o Vós! Não é que tá dando certo?

Larguei tudo no dia 22 de Agosto de 2016. Eu saí da minha casa, já havia pedido demissão e me mudei para o Rio de Janeiro para fazer uma graduação em Literatura. De lá pra cá, tranquei a faculdade, fiz vários cursos na área de escrita e agora estou fazendo uma pós graduação em Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo. Tô adorando!

É bem verdade que no início é muito difícil. Uma saudade danada do que já lhe era familiar, saudade até do cheiro da casa, do gosto da comida, do colo da mãe, da conchinha do ex-marido, do salário no final do mês… É bem verdade também que não se trata de um conto de fadas, a história é real, é a da sua vida, princesa, e nada garante que no final tudo vai dar certo, você será bem-sucedida, encontrará o par perfeito e vai finalmente voltará a brilhar. Não é.

Mudar não se trata de um acordo com o divino, do tipo: você se sacrifica e ele te retorna em benesses. Não, querida, a vida não é uma equação exata. Essa visão romântica deve ficar lá no campo da fantasia. Você pode levar um monte de “nãos”. Eu levo vários! Vai levar um monte de “pancadas” também e você vai se questionar muito se valeu a pena.

Eu costumo dizer que se você está bem onde está, não mude, pois é muito importante reconhecer a felicidade quando ela está por perto. A gente tem mania de reclamar, de criticar e, muitas vezes, o que você quer tá bem ali pertinho.

Contudo, se não for o caso, meu palpite é o de que nós estamos nessa vida por acaso. Calhou de ser eu, de ser você. Temos um prazo neste plano e talvez só tenhamos este mesmo. Então, acho que arriscar novas circunstâncias, tentar esbarrar em oportunidades, coincidências, novos afetos, outra jornada pode ser uma boa. No mínimo vai ser diferente, o que já é grande coisa para uma vida que andava meio morna, né?

Tento pensar que, apesar de termos muita gente ao nosso redor, gente amada, gente nossa, precisamos pensar em nós mesmos como seres individuais e os únicos responsáveis por essa tal felicidade que a gente veio conhecer nessa vida.

No final, acho que a busca é só da gente em torno da gente mesma, da nossa melhor versão, da vontade de chegar lá no fim e ter tido uma boa história e uma bela estória para recordar.

Boa sorte, e aproveite o caminho.

Colaboradores

Luciana Targino

Luciana Targino

Ver Perfil

Luciana Targino é cearense, publicitária e escritora. Sempre admirou como as pessoas conseguem ter opiniões formadas sobre tudo e ela não. Muda de ideia o tempo todo. Resolveu escrever que é pra dar conta dos pensamentos e sentimentos. Atualmente mora no Rio de Janeiro e divide seu coração "cearoca" entre lá e cá.

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