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[Arteiros] - Um alencarino em Nova Iorque

Com Caio Ferreira Por Thiago Gil
24.mar
2017

Nosso colaborador Thiago Gil bateu um papo com Caio Ferreira, fotógrafo carioca criado em Fortaleza, mas que faz sucesso mesmo é nos States. Confere aí!

Carioca de nascimento mas criado e alimentado com muito sarrabulho em Fortaleza, Caio Ferreira desbrava a meca da fotografia fashion mundial, Nova Iorque. Destemido e desenrolado CF tem se garantido na Big Apple. Aqui falamos mais das experiências, medos, ideias e tudo que forma sua arte: a fotografia. Se liga na entrevista!

Thiago Gil – Fale um pouco sobre você. Onde nasceu, como a fotografia entrou em sua vida?

Caio Ferreira – Eu nasci no Rio de Janeiro, por um erro de percurso, pois minha mãe é de Ubajara, na Serra da Ibiapaba, e meu pai de Fortaleza. Família classe média, estudei no Marista Cearense e cresci no Bairro de Fátima.

Aos 10 anos encontrei uma Nikon F quebrada em cima do guarda-roupa do meu pai. Era a câmera que ele usava nos tempos que morávamos no Rio de Janeiro. Mesmo quebrada, ele me ensinou, teoricamente, a usar. Sete anos mais tarde, morando na Califórnia encontrei outra Nikon F na casa que estava hospedado e botei em prática todo o conhecimento que havia recebido. Comprei minha primeira câmera aos 19 anos, foi uma Minolta SRT101. Como trabalhava no Diário do Nordeste, sempre revelava os negativos por lá ou no laboratório da Unifor. Com o tempo, comprei uma Hasselblad 500 que pode ter sido usada pelo Chico Albuquerque e minha primeira máquina digital em 2006.

Em 2008 resolvi levar a sério a possibilidade de me tornar fotógrafo e em 2010 montei meu estúdio e realmente embarquei nesta jornada.

Thiago – Como foi a transformação de uma carreira sólida para a ideia de “largar” tudo e enfrentar a capital da moda. De onde surgiu a inspiração?

Caio – Quem me conhece sabe que não paro quieto. Minha primeira grande mudança foi largar a função de webdesigner de uma grande instituição para me dedicar à fotografia. Logo de início foquei meu o trabalho para a moda, pois Fortaleza é um grande mercado nacional.

Devo esta decisão a vários nomes importantes que me deram muito suporte desde o início. Lindebergue Fernandes, Charles W. Sei Barros, Francisco Matias, Felipe Naur, Rogilton Conde e João Luiz Castro.

Sou formado em Publicidade na Unifor e tive uma boa preparação fotográfica, mas nunca consegui me especializar na moda e, após meia década de estúdio, me mudei para Nova Iorque para estudar um mestrado em Fotografia de Moda na School of Visual Arts – SVA.

Thiago – Sua pós-graduação foi em umas das mais destacadas escolas de arte visual do mundo. a School of Visual Arts – SVA. Qual o impacto disso em seu trabalho?

Caio – A SVA, em Nova Iorque, é como Hogwarts em Harry Potter. É a escola de artes mais respeitada dos Estados Unidos. Lá, todos os professores eram profissionais do mercado. Entre eles, havia três críticos de fotografia que trabalham em revistas renomadas, como a New Yorker, historiadores e editores das revistas Vogue, W e i-D. Além disso, tínhamos conversas exclusivas com profissionais dos mais variados ramos, como Tim Walker, Erik Madigan Heck, Gordon von Steiner, Marcus Mam, Poppy Delevingne, entre outros.

Em relação ao meu trabalho, notei um crescimento artístico e um senso crítico na forma de pensar moda. Fui bombardeado de informações e isto me fez repensar minha forma de fotografar. Afinal era uma escola de arte.

Thiago – Como foi dar e receber influências de uma cidade tão rica em tendências?

Caio – Em NY você precisa ser crítico para identificar e curar o que deve prestar atenção. É muita informação ao mesmo tempo. Gosto da arte espontânea, a sujeira, a falta de acabamento dos prédios, as marcas de tinta desbotada, os adesivos em todo canto, as bicicletas abandonadas, os carros grafitados e os tênis pendurados nos fios. Essa imersão artística te inspira em todos os sentidos e reflete no jeito de vestir e interagir.

Já quando se trata de moda, é preciso estar ligado a tudo e em cada canto da cidade você se depara com estilos diferentes, detalhes, tendências… Minha maior fonte de inspiração é andar pelo bairro onde moro, Bushwick, no Brooklyn, e no Metrô L aos sábados. Quando tenho cinco minutos de descanso, estou tomando um café pela Morgan ou Jefferson Street. Às quintas geralmente têm alguma exposição nova no Chelsea ou uma festa de alguma marca importante da cidade.

Thiago – Como foi seu primeiro click em NY? Você simplesmente pegou a câmera e a foto saiu?

Caio – Minha primeira sessão fotográfica na cidade foi em estúdio. Equipe experiente de profissionais, com trabalhos realizados para grandes marcas, uma modelo transgender e todos colaborando para um simples test shoot.

Não foi difícil, mas também não foi fácil. Apesar de ser fluente em inglês, faltava a fluência específica do ramo e a forma de tratar as pessoas. Mas ao final foram muitos elogios e convites para outros trabalhos.

Thiago – Em uma entrevista do Platon, um grande fotógrafo também radicado em NY, ele disse que para fotografar era preciso envolvimento e sinergia entre fotógrafo e modelo. Como foi a quebra de línguas e a temperatura de um sangue cearense com o mundo quase individualista de NY?

Caio – Segundo o Silas de Paula, todo fotógrafo já deveria sair de casa com uma ideia do que quer fotografar. Gosto de sair preparado e sabendo onde quero chegar. Daí é questão de jogo de cintura.

Quando conversamos sobre o Platon, lembrei de uma amiga chinesa que é o oposto dele. Ziqian Wang finge não saber inglês para desconfortar a modelo, uma espécie de lost in translation, e o resultado é um trabalho natural, real, e estranhamente lindo que frequentemente é publicado pela i-D e a Harpers Bazar chinesa.

Thiago – Vendo seu trabalho atual, percebemos que ele se transformou. O cenário realmente consumiu sua criação? Até que ponto NY realmente impõe sua identidade em seu trabalho?

Caio – Quando cheguei, fui logo cobrado por trabalhos realizados em NY. Eles prezam pelo que é feito aqui. Não sei se é uma forma de negar o que vem de fora ou se é para impor uma visão nova iorquina a todos os artistas. Intelectualmente falando, você tem que estar em sincronismo com as ideias locais para se infiltrar e isto é um processo constante. Até quem já não mora mais aqui continua sob esta influência, como é o caso do fotógrafo cearense Roberto Kennedy.

A segurança de poder andar com o equipamento em qualquer lugar e a qualquer hora é outro ponto positivo. Acredito que todos em Fortaleza fotografariam mais a cidade se tivessem a segurança de carregar seu equipamento para qualquer lugar.

Thiago – Como você vê seu trabalho hoje?

Caio – Após muitos anos fotografando comercialmente e me dedicando exclusivamente aos projetos dos meus clientes, em 2016, tive a oportunidade de me dedicar somente a projetos pessoais e identificar um estilo próprio.

Por opção, tenho fotografado bastante masculino, buscando o lado emocional como percepção final. As fotos são sempre verdadeiras, existe uma grande interação entre a equipe e o modelo, sem poses forçadas, liberdade de movimento e confiança. Minhas fotos estão mais escuras e tenho utilizado sombras. Classificam meu estilo como Lowbrow.

Thiago – Como viram seu trabalho aí em NY? Como foi sua exposição na Milk Gallery?

Caio – Tive um grande retorno com a exposição na Milk Gallery. Aproveitei para apresentar meu trabalho pessoalmente para muitos profissionais que só conhecia virtualmente.

A curadoria foi realizada por Jimmy Moffat o agente de Annie Leibovitz e o descobridor de Steven Meisel. Conversamos bastante sobre minhas intenções e objetivos para chegar a escolha final.

Thiago – Suas considerações finais.

Caio – Tenho planos de um breve retornar ao Brasil este ano para concluir alguns projetos, realizar trabalhos comerciais e uma exposição. Nos vemos em breve.

Saiba mais de Caio Ferreira em: caioferreira.com

Colaboradores

Thiago Gil

Thiago Gil

Ver Perfil

Designer e publicitário, marido da Camila e pai do Miguel. Curte arte urbana, fotografia, exposições, vídeo, lambe-lambe e tudo que pode abrir a caixinha. Curador e sócio/fundador da Electric Circus Studio, uma galeria de arte que reúne exposições, palestras, oficinas, música, idéias e muito projeto aqui em Fortaleza.

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