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Histórias

Um bairro com seu próprio jornal para mostrar que tem vida própria

Por Marcela Benevides, Igor de Melo
14.maio
2019

Eu comunico.
Tu comunicas.
Ele comunica.
Nós comunicamos.
Vós comunicais.
Eles comunicam.

Comunicar é verbo significativo, ou seja, de ação. Utilizamos diversos meios para informar alguém sobre o que queremos. Seja pessoalmente, por redes sociais, televisão, rádio ou jornal impresso, o fato é: o ato de comunicar é inerente ao ser humano. Não à toa desde há muito se fala que “ações, mais do que palavras, transformam o mundo”. E se juntarmos as duas coisas? O falar e o praticar? E se começássemos a tentar mudar realidades com palavras e tendo como base, por exemplo, o bairro em que vivemos?

Ao unir a comunicação com a vontade de mudar a forma como os próprios moradores enxergavam seu lugar e trazer outras perspectivas para quem está do outro lado do muro, o estudante de jornalismo Daniel França decidiu colocar em prática um desejo antigo: criar um jornal comunitário impresso sobre o Curió e para o Curió. Começou com um blog sobre e depois, com o apoio dos amigos Talles Azigon e Patrícia Lopes, criaram juntos o Folha Curió, desse vez no papel.

As atividades do jornal começaram em setembro de 2018 e uma das primeiras questões a serem resolvidas era como viabilizar a produção e a distribuição do impresso. “Sugeri que poderíamos pedir doações a algumas pessoas que já eram simpáticas à causa da biblioteca comunitária e também a comerciantes daqui do bairro, e foi assim que surgiu a primeira edição do jornal”, comenta Talles.

É com essa ideia de integração entre a comunidade que a Folha vai se materializando. “Na faculdade eu comecei a ter um pouco de contato com essa parte da comunicação comunitária, sobre as formas de fazer, e veio aquela coisa de que dá pra fazer algo voltado para a comunicação dentro do bairro. O jornal surge para informar e ensinar os moradores a fazer a própria comunicação”, explica Daniel, o idealizador.

E a aproximação com os moradores do Curió vai além de entregar o jornal de mão em mão. Eles participam ativamente desde a sugestão de pautas até o envio de poemas e atividades, por exemplo. E não são só os mais velhos que podem participar, as crianças possuem o seu espaço dentro da Folha, tanto é que a edição de outubro em comemoração ao Dia das Crianças foi produzida totalmente pela nova geração do bairro, com textos e desenhos.

Outra relação com as palavras e com o bairro

“Nossa, que chique um jornal”… “Um jornal? Quanto custa?”
“Nossa o Curió ta chique, agora tem um jornal”.
“como é que a gente pode ajudar? como podemos aparecer?”

Ler é hábito e, para que se torne um, é necessário estimular. Foi pensando nesse estímulo que a redação da Folha percebeu que só ter apoiadores e disponibilizar o jornal gratuitamente não era suficiente para que a comunidade sentisse que aquele veículo de comunicação era dela e para ela. Foi preciso, antes de tudo, estabelecer um vínculo afetivo: desde a terceira edição o grupo optou por lanças cada publicação junto a algum evento no bairro para que o nível de envolvimento da comunidade com o jornal aumentasse.

“Querendo ou não, estamos dentro de um país e dentro de um bairro de periferia onde a escolarização não é muito alta e a relação com a escrita, historicamente, não é muito grande também. Dentro da comunidade a comunicação é mais baseada na oralidade, vemos isso pela forma como a informação circula pelo bairro, que é através do carro de som e pelo boca à boca, e por isso eu acredito que o projeto é educacional nesse sentido, porque ele tá inserindo algo que é meio estranho para as pessoas, que é o escrito.”

A equipe da Folha defende que o jornal faz total diferença, pois permite que a comunidade “consiga perceber sua força e importância para a cidade. É uma outra forma de retratar o bairro, já que às vezes a mídia (tradicional) noticia coisas muito distantes da periferia, e nós buscamos pautas mais próximas para quebrar essa barreira. Na edição de novembro de 2018, que foi sobre a chacina, a perspectiva foi outra; não é falar sobre uma tragédia que aquele bairro ruim participou, é saber e pesquisar as consequências do que aconteceu e como voltamos a nos estruturar depois desse acontecimento, o interesse é outro”, reflete Daniel.

Ao trabalhar na raiz da questão, Daniel, Ingrid, Patrícia, Marcus, Ramon, Philipe, Talles e Thaynara já começam a colher os bons frutos dessa iniciativa. “Fora do bairro consigo perceber que o Curió tá sendo visto de outra forma. Juntos estamos construindo uma nova identidade social, pois ele está deixando de ser conhecido como o ‘bairro da chacina’ para ser o bairro da biblioteca, do jornal, da floresta, e começamos a ver muitas ações do bairro repercutindo fora dele e isso é o que dá nome ao Curió.”

Além dos impactos externos, dentro do Curió as mudanças são significativas. As novas gerações estão se apropriando de um espaço que antes estava vazio. “As crianças estão mais espertas, mais protagonistas. Elas inventam, criam, passaram a ler mais, e se elas estão lendo mais livros, passam a ler o jornal também.”

Eles até arriscam dizer que as pessoas do bairro estão “mais unidas”. O motivo? Agora a comunidade pensa num objetivo em comum. E eles se reconhecem como o Curió e sabem que juntos podem alcançar muitas coisas.

 

Colaboradores

Marcela Benevides

Marcela Benevides

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Ler e escrever são as duas coisas que mais a definem. Gosta de contar histórias sobre pessoas e lugares que inspiram a felicidade e a percepção de que a vida vai além das bolhas em que vivemos, e é na cidade que encontra a sua inspiração. Acredita que o jornalismo é um dos meios para promover a união entre culturas. Importante destacar: tem o sol em leão.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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