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Um cara de vícios elegantes

Com Ricardo Bacelar Por Michele Boroh, Igor de Melo
22.mai
2018

Raramente é lembrado entre os grandes nomes da música cearense, mas deveria. Rock star no Brasil dos anos 1990, ranqueado nas paradas de jazz dos EUA, indicado ao Grammy Latino em 2016, atual membro votante do Grammy Latino e do Grammy Americano. Nos discos atuais, instrumentais, sons e imagens regionais. Sua maneira de levar o Ceará pro mundo. É mais ouvido e reconhecido lá fora do que aqui.

Advogado militante da cultura, já encabeçou a luta pela inclusão da educação musical nas escolas. Faz a lição de casa. Repete as primeiras instruções que recebeu nos colos do pai e do avô e senta ao piano com as duas filhas. Já tocam Bach e arriscam as primeiras músicas autorais. Hoje estuda os efeitos do streaming no mercado fonográfico e na folha do artista.

Durante a conversa, uma K7 esquecida surge de uma caixa cheia de fitas. Primeiro um chiado, depois uma conversa, uma risada, um acorde no piano e uma voz inconfundível. Numa gravação pessoal e inédita (até esta entrevista), Ricardo Bacelar e Belchior, seu parceiro e amigo, registram uma sessão privada de composição em 1995, uma muleta para a memória. Como resultado, aquela que seria uma das faixas do disco Vício Elegante, a princípio batizada como Mais sensual que o bolero. Um presente. Um passado presente.

Vós: Você é natural de onde?

Ricardo: Eu nasci em Fortaleza. Tenho descendência da serra da Ibiapaba, uma bisavó de Viçosa e uma avó que nasceu em Camocim, mas meus pais já nasceram aqui e eu também.

Vós: A influência musical é familiar?

Ricardo: Eu comecei a ser um músico profissional muito novo por influência da família. Meu pai é pianista e minha mãe tocava violão. A casa do meu avô tinha dois pianos e uma discografia muito eclética, com jazz, música brasileira, eletroacústica… E tinha também a banda do colégio Cearense, onde eu estudava.

Vós: Os encontros da família eram musicais?

Ricardo: Sim, na casa do meu avô. Meu pai tocava, os tios, os sobrinhos, a irmã do meu pai também, a tia Inês, que é professora de piano. E também tinha uma reunião quinzenal de um grupo de choro que ele organizava. Eu tocava percussão, meu avô tocava pandeiro, meu pai ficava no cavaquinho… E minha paixão pela gravação também veio daí, porque meu avô tinha um gravador de rolo e colocava uns microfones pela sala pra gravar tudo. A gente tem várias gravações dessa época.

Vós: Você tinha que idade?

Ricardo: Uns 8 anos, mas lembro com felicidade dessa época. Eu convivia com essas pessoas, esses músicos, e ouvia de tudo; música brasileira, rock, e comecei a gostar de jazz também, muito novo. Eu sou uma pessoa muito eclética.

Vós: Qual foi seu instrumento de entrada?

Ricardo: Foi o piano, e ainda mais novo, aos cinco anos. Meu pai já tocava e me colocava no colo. E depois eu comecei a estudar: primeiro com a Célia Mota, depois passei para a Zenaide, com música erudita, e fiz muitos cursos no Conservatório.

Vós: Como foi parar no rock?

Ricardo: Eu trabalhava em Fortaleza como músico, tocava com várias pessoas. Quando eu tinha 17 anos, o Hanói Hanói estourou com Totalmente Demais, e eles viram um trabalho que eu fiz. Aí um percussionista do Hanói, o Alex Holanda, que já faleceu, me ligou e disse que o grupo estava querendo um integrante novo e que tinham gostado muito do meu piano, e perguntou se eu podia ir pra lá (Rio de Janeiro) pra gente tocar um pouco… E eu disse “posso!”

Vós: E foi embora?

Ricardo: Eu era acadêmico de Direito, tinha uma namorada, a família toda aqui também… Mas com 17 anos a gente não tem muito o que nos prende, né? Fiz minha mala, tranquei a faculdade e fui. Avisei minha mãe que era pra passar só três meses, mas fiquei onze anos.

Vós: Foram anos de rock star…

Ricardo: Foram! Você tem que ter muita estrutura pra, primeiro, não enlouquecer, porque é um movimento muito intenso. Todo final de semana você viaja, tem aquele pessoal gritando, você dá autógrafo e você começa a achar que você é o máximo. O problema é esse! Você já começa a vacilar, porque você não é o máximo. As pessoas estão ali gritando por uma imagem que elas acham que você é, elas não conhecem você. Eu adoro os fãs e dou a maior atenção, mas teve uma pessoa, por exemplo, que chegou na minha casa no Rio de Janeiro (conseguiu meu endereço!) com meu nome tatuado na perna! Imagina aí a loucura! Então você tem que ter cabeça pra passar por isso bem e ter a consciência de que aquilo ali é transitório, depois não tem mais.

Vós: Mas a sua atuação com música no Rio foi além do Hanói Hanói…

Ricardo: Além de entrar pro Hanói, eu arrumei um emprego no programa chamado Globo de Ouro, que tinha toda sexta-feira com as 10 mais da semana. E lá a gente tocava, ensaiava, mas às vezes a gente fazia só o playback. Por exemplo, anunciavam “E agora, Roberto Carlos!”, e a gente ficava ali fazendo playback pra ele. E eu comecei a me interessar muito pelo negócio de estúdio. Quando o Hanói ia gravar, eu ficava perguntando pros técnicos pra que serviam os botões, como funcionava a mesa… E aí abri um estúdio no Rio com o Arnaldo, o cantor da Hanói.

Vós: Quais eram as demandas do estúdio?

Ricardo: Produção, gravação de trilha pra cinema e teatro, jingles publicitários e políticos. Gravei também Luís Melodia, Lulu Santos, recebi a Cássia Eller, a sobrinha do Caetano Veloso, a Belô Veloso, gravamos discos do Hanói, fizemos uma minissérie da Globo também, chamada O Portado. O que aparecia, a gente fazia. E depois eu recebi um convite de um produtor chamado Guti Carvalho – ele fundou a Warner Music no Brasil – que tava abrindo um selo e propôs uma sociedade. Aí eu abri uma gravadora lá – a GPA Music. Era como sócio minoritário, mas tinha um estúdio grande e eu fiquei uns 3 ou 4 anos. Eu dormia, acordava e almoçava lá dentro, trabalhando como técnico, músico e arranjador ao mesmo tempo.

Vós: E quem vocês gravaram na GPA?

Ricardo: Lá nós gravamos a Baby Consuelo, o Hanói, Erasmo Carlos, Belchior, Ednardo, Adriana Calcanhoto, Leoni…

Vós: Alguma história curiosa de bastidores?

Ricardo: Olha, o Belchior foi o cantor mais profissional com quem já trabalhei! Com ele você marcava uma gravação às 15h, ele chegava às 14h30 com as letras prontas, tudo ensaiado e o potinho de mel de abelha. E a voz dele era tão potente que tinha que gravar com o microfone longe porque, se aproximava muito, o condensador vibrava e ficava com ruído. Já a Adriana Calcanhoto não funciona bem cantando muito forte, então a gente tinha que colocar o fone de ouvido muito alto e ela cantava bem baixinho, aí ficava lindo, lindo! Cada cantor funciona de uma maneira. Quando você vai gravar alguém, tem muito de psicologia. A pessoa tem que fazer aquele trabalho e você tem que viabilizar pra que ela faça o melhor possível. Então tem gente que funciona com carinho, tem gente que funciona de outra forma. Você tem que criar um clima: acender uma vela, um incenso, colocar uma luz, criar uma atmosfera pra pessoa se expressar.

Vós: Dessa turma toda que você tocou e gravou, sobrou alguma relação mais sólida além de palco e estúdio?

Ricardo: Várias pessoas! A gente fazia um futebol na casa do Herbert (Vianna) com o pessoal da EMI. Hanói, Barão Vermelho, Paralamas e o time da EMI. Era engraçado porque o Herbert colocava os caras grandes, os roadies, pra jogar no time, então o Paralamas sempre ganhava! Mas era muito bom, essa camaradagem das bandas. Eu tenho muita amizade com o Frejat, com o pessoal do Barão. Vivia lá no estúdio o Luís Melodia… Mas às vezes as pessoas têm uma ideia de que o artista é uma coisa extraordinária, mas é só um ser humano como outro qualquer. O Cazuza, por exemplo, se criou em torno dele uma mitologia, mas ele era um garoto normal. Fizeram um filme que não tem nada a ver com o Cazuza! Nós somos aqui todos normais, pessoas. Mas aí tem essa coisa de transformar o artista num mito, né?

Vós: E como foi deixar tudo isso e voltar pra Fortaleza e pro Direito?

Ricardo: Eu fiquei no Hanói Hanói durante 11 anos, foram quase 1300 concertos, então era pesado. A gente saía terça-feira de casa e voltava no domingo! Foi muito bom, mas com o tempo você quer outras coisas. Sob o ponto de vista intelectual, eu estava querendo buscar outras coisas. Eu já estava mais velho e comecei a ficar muito incomodado de ficar longe da minha família, nunca me casei lá. Eu queria mudar de vida. Eu olhava pro Mick Jagger e eu morria de medo, não queria ficar assim, velhinho – apesar de ele ser muito enxuto – ainda fazendo show. Então, com 30 anos, eu voltei pra Fortaleza e pra faculdade de Direito, pegando o curso pela metade. Aí eu estudava compulsoriamente, 24 horas por dia, pra poder pegar o resto do curso e poder terminar.

Vós: A música ficou de lado?

Ricardo: Paralelamente, eu trabalhava no meu primeiro disco solo, porque eu sentia a necessidade de fazer uma coisa que era só minha. Então gravei meu primeiro disco solo em 2000/2001. Chamei o Belchior pra declamar uma poesia, o Frejat pra fazer um solo de guitarra, o Hanói Hanói também fez uma faixa, chamei a Kátia Freitas, Cristiano Pinho, Waldonys, e fiz o In Natura. E o disco refletia muito bem o que eu estava estudando, a Filosofia do Direito, lendo os clássicos, então cada música tinha uma inspiração que falava sobre Filosofia, todas autorais. Aí lancei o disco, foi muito legal, fiz uns concertos, mas a advocacia começou a andar também. Eu me formei, abri um escritório e entrei na OAB em 2000. O escritório cresceu, a advocacia engrenou, aí fiquei um tempo sem gravar.

Vós: E sua atuação na advocacia em Fortaleza é intensa desde então…

Ricardo: Entrei na OAB como Membro de Comissão, aí passado um tempo eu fui Diretor de Comissão, Presidente de Comissão, Conselheiro, depois Secretário-Geral Adjunto, Corregedor e Vice-Presidente. Nesse caminho eu fiz 3 especializações – Direito Empresarial, Direito Tributário e um em Políticas Públicas de Cultura. Trabalhei muito com essa parte cultural, fiz vários trabalhos na OAB, vários casos importantes, o escritório cresceu muito. Agora tô terminando minha dissertação de mestrado sobre streaming e a evolução do mercado fonográfico. Aí a música ficou mais em casa mesmo, fiquei esses anos sem gravar discos porque a advocacia consome você.

Vós: E como aconteceu esse retorno aos palcos e aos discos?

Ricardo: Foi em 2015, quando as meninas do Festival de Guaramiranga (Jazz&Blues) me convidaram pra fazer um concerto. Eu aceitei, elaborei o Concerto para Maviola e gravei esse disco lá, ao vivo. Lancei no Brasil e nos EUA, e lá ele chegou na posição 52º das paradas americanas de jazz (Jazz Charge). Fiquei durante oito semanas entre os 100 artistas de jazz mais tocados dos EUA e fui indicado ao Grammy Latino. E eu gostei muito dessa repercussão, porque você faz um disco no Brasil e falta o crítico. Você envia um release pra redação e eles nem leem. Nos EUA, não! O cara pega, escuta, escreve “na música tal tem um sax que parece com o sax tal…” Foram várias críticas e isso me incentivou a ver que tinha um caminho, porque você faz música instrumental no Brasil e ninguém consome! Falando curto e grosso: aqui, quando você faz uma música ruim, enche de gente. Sei lá porque, talvez seja uma política pública que não deu certo, as pessoas não leem mais… Mas a música brasileira tá num caminho muito ruim.

Vós: Você, inclusive, já se envolveu em projetos pela inclusão de educação musical nas escolas…

Ricardo: Eu tive dois projetos na área da música. Um foi uma bandeira que eu levantei pelo Conselho Federal, porque existia uma lei que determinava que a música fosse obrigatória nas escolas. Fiz campanha, fui pra cima, fui pras TV’s, enviamos ofícios pros ministros da Educação e da Cultura. Mas aí teve uma coisa que me marcou. Eu fui convidado pra fazer uma palestra no Encontro Internacional de Educação Musical que estava acontecendo no Rio, com as presenças dos ministros Marta Suplicy (Cultura) e Mercadante (Educação). Aí pensei que eu poderia debater com eles, seria ótimo! Mas quando cheguei lá, não tinha nenhum dos dois! Então minha fala lá foi revoltada, porque era um negócio enorme, um encontro de educadores musicais do mundo todo, com mais de 100 convidados de todo lugar, mas eles não foram nem lá! Aí eu me revoltei, e depois ainda tiraram de novo a lei! E eu consegui fazer um projeto aqui também pra montar uma orquestra nas escolas, que eu não sei como tá isso hoje, acho que em andamento. Mas a música na escola é um negócio importantíssimo pra formação das pessoas.

Vós: Quais são os principais efeitos?

Ricardo: O mínimo que a pessoa conviva com a música e o instrumento já melhora a autoestima, a sensibilidade, cognição, sociabilidade, a sua maneira de ver o mundo, sua emoção. A música traz um cesto de benefícios pra você, pra que você possa ser uma pessoa melhor, respeitar mais o outro. Eu falo muito isso até pros colegas do Direito nas palestras e eventos. Eu acho que todo operador de Direito, toda pessoa que mexe com a Justiça, tem que ficar perto de alguma coisa de arte, porque a tendência é ficar frio com aquela coisa técnica demais, e você não se emociona, né? A arte traz essa capacidade de se emocionar e acessar valores de humanidade.

Vós: E como é que a música e os artistas sofrem o impacto dessas mudanças constantes, como o streaming?

Ricardo: O streaming veio como resposta à pirataria que nocauteou a indústria fonográfica. E esse movimento deu certo como uma forma legal de consumo da música, só que paga muito mal e não existe uma norma. Então o que acontece hoje é que não tem mais a pirataria, mas eles pagam centavos e a norma não sabe o que é streaming; é uma tecnologia nova interpretada por uma lei de 1998 que não tem nem a palavra internet nela. Aí a indústria, se aproveitando disso, achatou os direitos autorais. Nós, que somos de uma geração mais antiga, com contratos antigos, somos pagos no streaming com base nos mesmos descontos daquela época. Eles tiravam 10% pelos vinis que diziam que quebravam e 10% dos custos de impressão de capa. Só que hoje eles ainda aplicam a mesma coisa. É cruel! Além disso, o valor do streaming é coisa de 0,0003 centavos por execução, então, pra você ganhar 300 dólares, por exemplo, você precisa ser executado milhões de vezes. É indigno, entende? Desvalorizou demais a música no mundo, virou um negócio sem importância, barato demais. Então hoje se investe em coisas estritamente comerciais porque tem que dar o retorno. Você não vê alguém da música erudita nesse mercado, por exemplo.

Vós: Mas você está tentando…

Ricardo: Porque eu sou um doido, estou completamente na contramão do que as pessoas estão fazendo. Eles gravam cada vez menos discos, e eu quero fazer mais. Eu tenho a ideia de construir uma obra. Tenho três discos, se eu fizer pelo menos quinze eu já morro feliz. Eu considero o disco um veículo de transmissão de conhecimento, não só de música. Um exemplo é o mais recente, o Sebastiana. A arte de capa é de um quadro do Di Cavalcanti que fica em frente a minha mesa de jantar e eu almoço todo dia olhando pra ele; tem um livrinho dentro com informações; tem fotos de Quixadá, pra onde eu levei um piano e coloquei em cima de um monólito… E olha o Quixadá nos jornais de jazz dos EUA, uma foto de Quixadá! É uma forma de levar o Brasil e o Ceará, a nossa terra, pra outros lugares.

Colaboradores

Michele Boroh

Michele Boroh

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Nasceu no Dia do Jornalista. Aos 9 criou o Jornal dos Amigos do Prédio, em folha de caderno e à base de canetinha. Agora, aos 32 e após 8 em TV, é coordenadora e editora de VÓS, com a mesma paixão da infância. É também cronista no Tribuna do Ceará e no Medium, viciada em livro, cavaquinista de churrasco e mãe de um Bull Terrier. Ariana, de sol e lua.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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