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Feira Massa

Antes de tudo, um lugar é feito de sua gente

Por Sheyla Castelo Branco

Acredita em Vós

24.ago
2017

A Feira Massa é construída no tecido humano das periferias da nossa cidade. Aqui, o grito é por existência e resistência. Na nona edição, nós respiramos e imergimos dentro dessa “pequena aldeia no meio da floresta”, que se chama Itaperi. Durante sete dias, descobrimos histórias, nos emocionamos e rimos, dançamos, fomos à praça da Capela São José e descobrimos, junto com os moradores, que o riso é mais fácil e leve quando nos unimos e acreditamos que estamos aqui para ajudar uns aos outros, que nascemos para a vida em coletividade.

Coletividade, essa é a palavra que dá sustentação à nossa Feira Massa, um evento feito por muitas mãos, e que vibra no coração de nove comunidades que já receberam, nesses quase dois anos, oficinas gratuitas de capacitação, shows, teatro e uma nova ressignificação de seus espaços.

No Itaperi, conhecemos Seu Carlos Augusto, mais conhecido como tio Augusto. “Eu aprendi desde muito cedo que a vida é para quem tem coragem, minha filha. Fui muitas vezes a pé daqui do Itaperi até o Jacarecanga para estudar. Naquela época eu consegui entrar no Liceu do Ceará e sabia que aquela era minha única chance de mudar de vida, então agarrei com unhas e dentes as oportunidades que apareciam.”

Formado em Letras, Inglês e Matemática, tio Augusto não para de criar e de se reinventar. “Não tive filhos biológicos, mas meu coração gerou 32 rebentos, que cuidei e ensinei com meu melhor”, diz emocionado olhando para o sobrinho que hoje cursa Direito e também não esconde a admiração pelo tio.

O olhar vivaz e a voz altiva mostram um homem que, além de professor, dirigiu uma quadrilha e hoje é pastor. Pelo visto, o rebanho de seu Augusto só tende a aumentar. “Eu gosto é de gente, foi assim que me afirmei, rodeado de pessoas, primeiro dando aula, dançando quadrilha e hoje levando uma palavra de conforto para tantos corações. Acredito que a gente veio aqui para servir, senão, nem adianta viver”, completa ele.

Do outro lado da avenida encontramos dona Cleonice do Nascimento. Com a foto do marido falecido nas mãos, ela relembra da vida árdua de trabalho e de como sua casa era movimentada, cheia de clientes em busca de guarda-chuvas.

“Eu tenho 74 anos, cheguei no Itaperi com dez. Aqui eu casei e construí minha vida. Hoje cuido dos netos, do lar, e às vezes relembro aquela movimentação toda que era essa casa. Vinha gente do bairro todo para consertar ou fazer um guarda-chuva novo. Eu e meu marido éramos conhecidos por esse trabalho aqui no bairro.”

O rosto e o corpo acompanharam os anos, mas os olhos de dona Cleonice pararam no tempo. São duas pupilas pretas e espertas que espiam a realidade em volta. O olhar ganha brilho na medida das experiências vividas.

E Dona Cleonice e seu Augusto são provas disso: representam um Itaperi que continua resistindo, que tem garra, brilho e uma força extraordinária de viver.

Colaboradores

Sheyla Castelo Branco

Sheyla Castelo Branco

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Sheyla Castelo Branco gosta das miudezas, fotógrafa para sentir com mais calma a delicadeza dos instantes , e acredita na vida enquanto possibilidade. É jornalista e se realiza ao contar histórias, precisa sentir a vida na calçada da dona Maria ou no meio do morro de sua cidade. Vive uma verdadeira relação de amor com sua cidade, "Eu não moro em Fortaleza, eu namoro Fortaleza".

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