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Histórias

Um negócio pra quem bota banca mesmo

Por Luiza Carolina Figueiredo, Igor de Melo
04.abr
2017

Não faz muito tempo, elas estavam na maioria das praças, em várias esquinas, no meio da rua. As bancas de jornal, ou de revista, sempre fizeram parte do cotidiano das grandes cidades. Um local para se atualizar, discutir, conversar e até, quem sabe, fazer valer o nome e comprar um jornal ou uma revista.

Há uns 30 anos, ser jornaleiro era um negócio promissor. Primeiro se abria uma banquinha aqui, depois outra ali, e mais outra… Alguns até conseguiam expandir o negócio e virar sebo ou livraria. Mas, de uns tempos pra cá, as bancas estão desaparecendo e está ficando cada vez mais comum que uma ou outra troque a venda de fascículos por acessórios para smartphones.

Mas ainda há aqueles que insistem e resistem. Que botaram banca no sentido literal e figurado. Vós foi falar com cinco jornaleiros de Fortaleza para saber como vivem as bancas nos dias de hoje.

Banca Taciana

Local: Av. Virgílio Távora com Rua Pereira Valente
Idade: quase 32

Na banca, mãe e filha são as responsáveis por atender a clientela. Edisete e Natália Ribeiro, 59 e 26 anos. Já o nome da banca é em homenagem à filha mais velha, Taciana.

A família sempre trabalhou com comércio, mas enveredou pelas bancas de jornais há quase 32 anos, quando um amigo disse “que era um ramo muito bom. E era mesmo. Hoje está mais complicado. A gente tem muito problema com a distribuição de revista. Tem coisa que não vem, ou vem pouco, ou chega atrasado em relação ao Sudeste por exemplo. Então, se a pessoa vive na ponte aérea, pega logo tudo de fora”.

Mas, apesar das dificuldades, Edisete diz que tem uma clientela bem antiga, fiel e “que não gosta muito de ler conteúdo de revista na internet”. “Tem até cliente que vinha aqui quando era criança e hoje traz os filhos”.

Diariamente com a mãe, Natália conta que a banca funciona muito mais como uma espécie de “consultório” do que como um ponto de venda. “As pessoas aqui são muito mais amigas do que clientes. Muitos vêm para conversar e a gente tem um relacionamento quase familiar”.

Banca Líder

Local: Av. Barão de Studart, em frente ao Juarez
Idade: 35 anos

Localizada bem em frente à Sorveteria Juarez, a Banca Líder já tem 35 anos de existência. Também já teve outro dono, mas hoje é administrada por Eridan Medeiros, 55, jornaleira que diz que é preciso de muita coragem para permanecer no negócio. “Quem tem quer vender, mas ninguém quer comprar. Para ter uma ideia, a gente já teve cerca de 650 bancas em Fortaleza. Hoje, não tem nem 300”.

A grande sorte dos donos de banca é que, na era digital, ainda tem muita gente que não gosta de ler certos tipos de conteúdos pela web, prefere o papel. “Porque pela internet não se aprende. Pode até ter muita informação, mas revista é acervo. E também tem as coleções”.

Se por um lado é difícil lidar com momentos de marasmo no negócio e dores de cabeça com os distribuidores, a jornaleira ainda consegue ver as vantagens da profissão. “Aqui a gente faz muita amizade, conversa com muita gente culta. E vez ou outra também aparece cada figura…”, acha graça.

E ela também tem suas manhas para incrementar as vendas. “Já viu banca com água de coco? Tem gente que vem só pra comprar a água. O povo gosta bastante”.

Banca Terruã

Local: Rua Guilherme Rocha com Rua General Bezerril
Idade: 32 anos

Se for pensar em bancas de jornal pelo Centro da cidade, talvez o primeiro lugar que venha em mente seja a Praça do Ferreira. Mas há muitas outras bancas espalhadas pelo bairro. Uma delas, inclusive, fica bem próximo de lá, a Banca Terruã. Ou melhor, as bancas, pois há uma na Guilherme Rocha e outra na General Bezerril.

Falemos da primeira. Nela, será atendido por Seu Azevedo de Andrade, 56. Bem-humorado, o jornaleiro é categórico ao responder o que as pessoas mais procuram numa banca de jornal: dinheiro trocado. Fala isso e solta uma boa risada.

Como a maioria, ele abriu a banca há cerca de 30 anos, época em que era uma boa opção comercial. Já hoje, vive do que construiu e do que aprendeu. “A gente não pode ter muito estoque, por causa da falta de espaço, mas também não pode deixar faltar mercadoria. Precisa ter uma boa administração”. Isso e alguns artifícios como a venda de bombons, lanches, apostilas e, agora, a troca de livros – aqueles romances clássicos de banca.

Banca O Edmilson

Local: Av. 13 de Maio com Rua Conselheiro Tristão
Idade: 45 anos

Das cinco bancas visitadas, O Edmilson é a mais antiga. Mas quem nela atende é a esposa dele, Maria das Graças Duarte, 63.

É também a mais diferente. Logo na frente, locais venda de salgado, bolo, tapioca e cachorro-quente, além das mesas para os clientes se servirem. “É assim que a gente consegue manter a banca, com a venda de lanches. Agora, de revista, o que sai mesmo são as de novela e as caça-palavras”.

Localizada bem em frente a uma parada de ônibus, a banca tem os mais variados tipos de cliente. De acordo com Dona Maria, muitos são trabalhadores do comércio local. “Mas também tem muita gente que mora aqui perto, conhecidos”.

Ela conta que o trabalho é difícil, mas que gosta de estar lá, dentro da banca, afinal “é bem melhor do que ficar em casa”.

Banca Exemplar

Local: Praça da Imprensa, de frente para a Avenida Antônio Sales
Idade: mais de 30 anos

Rodeada por vários veículos de comunicação, seria de estranhar caso não houvesse pelo menos uma banca de jornal na Praça da Imprensa. Há três. Uma delas é a Exemplar, comandada por Imaculada Serpa, 55, ou simplesmente Malu.

A jornaleira conta que a banca tem mais de 30 anos e já era do marido na época em que casaram. Era um negócio comum na família dele e que ela adotou para si. “É aquela velha história: quem faz o que gosta, não precisa trabalhar”.

Apesar da dificuldade do trabalho na atualidade, Malu diz que a situação melhorou um pouco. Eles também arranjam jeitos de aumentar as vendas como, por exemplo, aumentando a variedade de produtos ofertados, como bombons e lanches rápidos, “porque a venda de revistas é só 25% do lucro”.

E ela gosta de estar lá. “Quando chega uma revista nova, eu sou a primeira a ler. Também adoro ter contato com o público, ouvir a opinião das pessoas… Principalmente sobre política, que é algo que eu não tenho muita convicção”.

Quando indagada sobre o futuro das bancas, é direta. “Ora, as editora não resistem? Enquanto houver editora, haverá leitor. Enquanto houver leitor, tem banca!”.

Colaboradores

Luiza Carolina Figueiredo

Luiza Carolina Figueiredo

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Apesar de jornalista, sonha com ficção e, por isso, fica animada em ouvir os causos dos outros - quem sabe não tira inspiração para um futuro romance? Acredita que, se escrever de tudo um pouco, um dia vai conseguir a história que realmente quer. Leitora compulsiva, está sempre com um livro ou HQ nas mãos (ou na bolsa). É meio tímida, mas tem um bichinho tagarela dentro dela que, quando começa a falar, quase não para. E se a conversa for geek, então...

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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