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Mora

Uma casa habitada pela história de todos nós

Por Leilane Freitas, Igor de Melo
22.ago
2018

A 55 quilômetros de Fortaleza, no município de Redenção, uma casa-museu nos leva a um passeio pela memória do Ceará

O caminho de terra entre o portão de entrada da fazenda até a casa grande não é longo. Logo se vê o muro verde e a varanda por toda a fachada. Os habitantes aqui são os móveis, os quadros, as janelas, as portas, o piso de madeira e cada cômodo que abriga histórias desde 1750.

Durante os seus 267 anos, desde que a casa foi erguida, alguns donos passaram por aqui. Seu primeiro morador, que construiu a edificação, foi o tenente-coronel Simeão Teles de Menezes Jurumenha, de origem portuguesa, que tinha o comércio de negros como um dos seus ofícios, assim como muitos senhores da época. A escravidão, inclusive, ainda é a principal residente do lugar.

Embaixo do piso de madeira foi construída a senzala da fazenda, que é preservada até hoje. O coronel Simeão, de propósito, ordenou que deixassem algumas fendas entre as tábuas que compõem o chão para que pudesse ficar de olho no que os escravos faziam ali. E é assim em todos os cômodos, com exceção do quarto, o único que se diferencia do resto da casa. Nele, o piso é mais junto para preservar a intimidade do casal. Isso, no entanto, não impedia que o coronel deixasse de visualizar os escravos. À época, era considerado sinal de riqueza ter grandes janelas, uma tática também bastante eficiente para não descuidar de seus cativos.

Os relatos, hoje narrados pelo guia Jonas Sousa durante a visitação, têm como fonte uma tataraneta de escravo, Maria Estela, que trabalhou na fazenda durante 50 anos e cresceu ouvindo as histórias que seus pais e avós contavam. Estamos no Museu Negro Liberto.

Pedaços de realidade

Na cozinha, a réplica do fogão guarda uma memória triste. Uma escrava ama de leite estava amamentando o filho do coronel na varanda e, por um pequeno descuido, deixou a criança cair dos seus braços. A queda ocasionou a morte do bebê. Como castigo, foi levada ao tronco, recebeu várias chicotadas, e em seguida lhe deram um banho de água, sal e vinagre. Não satisfeito, Simeão a levou para a cozinha, onde queimou partes de seu corpo em um fogão a lenha. Ela ainda resistia, até que caiu a noite e o coronel ordenou que os escravos cavassem um pequeno túmulo na senzala. Fora enterrada ainda com vida.

As histórias podem até parecer cinematográficas, e fica ainda mais difícil de acreditar quando você se dá conta de que está no local em que tudo aconteceu. E o narrado acima é apenas um dos diversos castigos que aconteceram durante os mais de 100 anos de escravidão que se perpetuaram na fazenda. O museu exibe algumas réplicas de instrumentos de tortura utilizados à época: algemas, gargalheiras e um instrumento odontológico que extraia os dentes do escravo sem anestesia, por exemplo.

Está exposto também um artefato chamado Vira Mundo, usado durante o período escravagista e na ditadura militar brasileira. O objeto era dividido em dois e fechado por parafusos. Os membros superiores eram presos inversamente aos inferiores – pulso esquerdo com perna direita e vice-versa – e o escravo era deixado nessa posição por horas ou dias inteiros.

A própria senzala foi construída privando os escravos de qualquer tipo de regalia. O teto é baixo e o chão de pedra. Existe até uma espécie de solitária onde o escravo era preso caso fizesse algo que desagradasse seus donos, num espaço extremamente pequeno até para uma criança. Na porta, diversos objetos pontiagudos para machucar quem ali estivesse. Além disso, era necessário dividir o lugar com morcegos, que são presença certa na senzala até hoje.

Liberdade e cachaça

Foi dessa fazenda, em 1883, o pontapé inicial para o fim do trabalho escravo no Brasil. O coronel Simeão foi o primeiro dono de fazenda a libertar os negros. No ano seguinte, todo o Ceará seguiu os passos de Redenção e, mais tarde, o país começou a extinguir a mão de obra escrava. Os negros começavam a ganhar liberdade, o que pode parecer um ato de bondade, mas a história não é nem de longe assim.

Jonas conta que o comércio de escravos já não era algo tão lucrativo. “Na época tava acontecendo uma crise financeira, e o dono percebeu que manter os escravos estava gerando prejuízo. Então ele resolveu se candidatar a prefeitura da cidade e, em uma ação caridosa, digamos assim, alforriou os escravos. Por conta disso ganhou a posse como prefeito.”

Logo após o fim da escravidão na cidade, Simeão vendeu suas terras para o segundo dono, Juvenal de Carvalho, que trabalhou basicamente com a produção de cachaça, expandindo a fazenda de 100 para 524 hectares e trazendo maquinários novos da Inglaterra e da Escócia para aprimorar o processo de produção da bebida. Em 1930, o engenho foi vendido para Gaudioso Bezerra Lima e está na família até hoje.

Hipólito Rodrigues de Paula Filho é neto de Gaudioso e atual administrador da propriedade. O empresário dá seguimento à tradição da fazenda até hoje com a fabricação da cachaça Douradinha, criada em 1873, ainda no período escravagista. Em 2003, foi criada também uma outra aguardente, a Cearense, em homenagem ao estado que primeiro libertou os escravos no Brasil.

A casa-museu

Do engenho à cabeça de boi que era usada para armazenar a aguardente na varanda da casa grande, a memória permanece preservada. E as lendas também. “Ela chegou aqui em 1959. É uma cabeça original do animal, só os olhos que não são. E, segundo uma superstição antiga, quem toca nela, com oito dias recebe os enfeites que o boi tem”, conta Jonas.

Até o ano 2000, a casa ainda era habitada pelos atuais donos. A iniciativa de transformá-la em museu partiu da cunhada de Hipólito Filho, Valéria Muniz. A curadoria dos objetos, móveis e documentos que estão expostos foi feita pela própria família. Todos se envolveram e abraçaram a ideia, diante da riqueza de acontecimentos e memórias importantes para a história do Ceará.

A casa de cor verde – originalmente amarela e branca – possui um piso em mosaico português do fim do século XIX logo na entrada. Os móveis são das décadas de 1930 a 1950. A senzala continua preservada, tendo sido feitas apenas algumas alterações a fim de melhorar a visitação do público, como iluminação elétrica e alguns cobogós para circulação do ar. Desde 2003, escolas, turistas e a população local desbravam essa memória física, com paredes erguidas e limites demarcados.

Diferente de outras casas que já passaram pela coluna Mora, nesta, não é uma história pessoal que se revela a partir da residência e de seus objetos, mas a História de todos nós. Um passado que, como bem lembra o estudo da disciplina, deve ser rememorado continuamente para nunca ser repetido ou esquecido.

Serviço

Avenida da Abolição, S/N, Sítio Livramento – Redenção, Ceará
De segunda a domingo, das 8h às 17h
Para agendar visitas: (85) 3332.1116/ (85) 99987.6604/ (85) 98796.6810
Faceboook: /museusenzala.oficial
Instagram: @museusenzala_oficial

Colaboradores

Leilane Freitas

Leilane Freitas

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Já se aventurou pelo mundo do teatro e da dança. Escrevia no jornal da escola mas ainda não sabia que escolheria isso como profissão. Acredita no jornalismo como uma maneira de mostrar o lado positivo dos pequenos detalhes da vida. Decidiu escrever porque, aparentemente, falar sozinha não parece ser coisa de gente em sã consciência.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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