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Uma coleção para ser vista de fotos que contam histórias

Com Silvio Frota Por Luiza Carolina Figueiredo, Igor de Melo
10.mai
2017

O ser humano é um indivíduo essencialmente comunicativo. Por isso, ao longo de sua evolução, ele desenvolveu vários mecanismos para poder se expressar, tanto de forma objetiva, como subjetiva: a fala, a escrita, a arte.

A produção artística faz parte de grande parte do desenvolvimento humano, fazendo parte da história, contando outras. Como peça, uma obra de arte tem o poder de alcançar pessoas, transmitir diferentes significados para diferentes olhares ou simplesmente ser arte.

Alguns têm uma relação mais íntima com a arte, uma sensibilidade capaz de produzi-la. Esses são os chamados artistas. Aqueles que são tocados por elas são os apreciadores, os que conseguem ver beleza e significados que talvez passem despercebidas para outros.

Silvio Frota, 63, é um desses apreciadores. E sua admiração pela arte é tamanha que ele começou a juntar para si coleções daqueles trabalhos que mais o tocavam. Começou com pinturas na década de 1980, mas os olhos verdes e intensos da Menina Afegã, renomada foto do retratista Steve McCurry, fez com que ele abrisse seus próprios olhos para uma nova paixão e forma de ver histórias: a fotografia.

Hoje ele possui um acervo com mais de 2 mil fotos, coleção que ele se recusa a guardar para si. Então, no dia 10 de março, foi inaugurado em Fortaleza o Museu da Fotografia.

Com quatro patamares, o museu tem um acervo diversificado com imagens do início do século passado ao contemporâneo, contemplando fotógrafos regionais, nacionais e internacionais. “Minha intenção, com o museu, é que ele virasse exemplo para outros colecionadores, que eles também abrissem suas coleções. Acho que esse é o nosso papel como colecionador”.

Entrevista

Vós – Como começou essa sua paixão por fotografia?
Silvio Frota – Eu já era colecionador de pintura desde os anos 1980 e, há 9 anos, nós fomos a uma exposição em Houston (EUA) do Steve McCurry, que é o fotógrafo da “Menina Afegã”. Chegando lá, eu me apaixonei por essa fotografia, comprei e, a partir daí, passei a frequentar leilões, galerias de fotografias e a estudar. E quando você começa todo esse processo de estudo, de leitura, começa a criar uma paixão diferente e a ver a fotografia de uma maneira diferente. Não só a fotografia, mas qualquer coisa que você queira colecionar. E a fotografia é uma coisa que é muito mais realista do que a pintura. Você vê que toda foto tem uma história por trás.

Vós – Mas por que você sentiu essa necessidade de começar uma coleção?
Silvio – Foi porque, com esse estudo, eu comecei a entender o que realmente é a fotografia. Porque eu sempre fui apaixonado por ela, mas não como arte, como um colecionador gosta. O olhar de um colecionador é diferente de simplesmente olhar uma foto. Ele estuda o porquê daquela foto, como o fotógrafo chegou àquela composição. Porque o fotógrafo, quando bate uma foto, ele tem que ter uma motivação. Ele é igual a um pintor que muitas vezes está pintando e você não entende porque ele está fazendo aquilo. Mas, na hora que você conversa com o artista, você começa a compreender. E o que me instiga, como colecionador, é justamente isso, entender o porquê de ele ter feito aquilo. O fotógrafo bom não simplesmente clica; ele perde até duas ou três horas para compôr uma foto. É diferente da gente que vê, por exemplo, um pôr do sol e bate uma foto bonita porque essa sempre vai ser uma imagem bonita. Mas se um profissional vai fazer uma foto dessas, será completamente diferente, pois ele não vai estar preocupado com o sol, mas com todo o ambiente que cerca esse cenário, com a iluminação e vários outros aspectos.

Vós – Você tem alguma predileção temática dentro da fotografia?
Silvio – Depende muito da série ou do fotógrafo. Normalmente, não compro só uma foto, mas pelo menos cinco. Escolho pela paixão. Eu preciso gostar da foto. Se eu não gostar, pode ser a melhor foto que existe, mas não vou comprar, pois quem vai conviver com ela sou eu. E prefiro comprar a série completa, que é pra se ter noção do trabalho do fotógrafo, porque, quando você compra uma foto, ele pode ter feito uma fotografia excelente, mas todo o trabalho dele é medíocre. Você tem que ter várias fotos de um mesmo fotógrafo para ter uma noção do trabalho dele, para saber se é consistente. Então, pra escolher o trabalho que vou comprar, o tema… o critério utilizado é muito variado. Tanto é que a nossa coleção é conhecida justamente por causa disso. Se você chegar em qualquer colecionador, normalmente ele coleciona um tipo de foto: ou é clássica, ou é moderna, ou é contemporânea… Não é como a nossa coleção, abrangente. A gente tem coisa do começo do século passado até o contemporâneo. Porque a paixão pela fotografia é justamente isso. Não tem um tema que eu goste, pois o que me interessa é o que está por trás da imagem.

Vós – Quais são os critérios que o levam a adquirir uma fotografia?
Silvio – Começa pela paixão. Por gostar daquele tema, da fotografia… Você vê fotógrafos que são excelentes, mas que têm fotografias que não me tocam. Por outro lado, existem fotógrafos novos com trabalhos incríveis. O melhor exemplo que eu vou lhe dar é o que aconteceu comigo e com o trabalho do Victor Dragonetti, que são as fotos das manifestações de São Paulo em 2013. Cheguei numa galeria para ver outros trabalhos e o galerista me chamou para ver as fotos. Perguntei do tema e quando ele disse que eram os conflitos aqui no Brasil eu logo disse que não era meu foco. Mas ele insistiu e pediu pra me mostrar pelo menos uma foto e me pediu, como favor, para comprar uma, para estar na minha coleção e ajudar o fotógrafo, um menino novo. Mas, depois de ver tudo, eu quis a série inteira. Por que mudei o meu pensamento? Pelo trabalho do menino, pela composição. Não era mais um conflito o que eu estava vendo, mas um trabalho excelente. Tanto é que depois ele ganhou o Prêmio Esso de Fotojornalismo com uma das imagens dessa série. Como eu disse, não é o tema que me interessa, mas o trabalho do fotógrafo, que é algo consistente, uma arte. Hoje, até mesmo uma foto de conflito ou de guerra traz uma preocupação diferente, pois os fotógrafos cuidam para que sejam artísticas, diferente do que era feito antigamente, que era adrenalina.

Vós – E o que levou o colecionador a abrir um museu?
Silvio – Foi a partir de um problema que eu sentia muito. Eu sentia muito por não ter acesso a ver uma pintura, por exemplo, porque ela estava dentro de uma coleção. Então, na hora em que nós começamos a fazer essa coleção e ela chegou numa importância de tamanho, começamos a pensar que não era justo ter um acervo daqueles e as pessoas não terem acesso a isso. Foi aí que a gente começou a pensar num espaço. Só que o espaço foi crescendo e fomos pensando no que mais poderíamos fazer. Quando a gente foi ver, estava um museu, uma coisa grande. Resumindo, o museu foi criado mais para que não cometêssemos o mesmo erro; nós disponibilizamos para as pessoas um espaço para que elas tenham acesso a essas obras.

Vós – Você tem um acervo com mais de 2 mil fotografias. De todas essas fotos, tem alguma preferida?
Silvio – Quando você começa a colecionar, a tudo se tem um apego. Então, não tenho uma obra ou coleção preferida. Eu sou a pessoa que mais está curtindo o museu, porque posso ver as minhas obras sempre e antes não podia, pois estavam no meu escritório, guardadas. Eu até tinha um sequência de 200 a 300 fotos que estavam abertas para mostrar para as pessoas que vinham de todo o Brasil e de fora ver a coleção, mas o resto não tinha como mostrar. Aqui, hoje, tenho 440 fotos expostas. E muitas das obras que estão aqui só tinha visto na hora que comprei. E o meu prazer é estar sempre olhando. Além de achar que não é justo ter uma coleção dessas e as pessoas não poderem ver. Qualquer coleção foi feita pra ser mostrada. A coleção não é pra ser egoísta. Uma coleção que não é mostrada é acumulação, e isso não é correto.

Vós – Qual é a importância de um museu desse porte em Fortaleza?
Silvio – É preciso lembrar que só existem quatro museus de fotografia na América Latina. Tem esse nosso, um em Curitiba, um na Colômbia e um no México. Isso é cultura que está sendo dada às pessoas e quanto mais se dá cultura, melhor é pra população. E esse é o nosso grande foco, sobretudo na questão educacional. O museu funciona de quarta a domingo, de 12h às 17h, porém, às terças-feiras, nós decidimos abrir só para as pessoas com necessidades especiais. Nós temos um trabalho muito grande em relação à inclusão social. Às quartas, recebemos universitários, nas quintas e sextas, os colégios públicos. E ainda temos um projeto, que começa agora em maio, que é de o museu ir às comunidades mais carentes, fazendo um trabalho com um público de 8 a 12 anos, pois quando você faz um trabalho de base, é mais fácil disseminar cultura. Nós vamos levar o museu pra comunidade e trazer essas pessoas para dentro do museu, ensinar o que é a fotografia, a fabricar câmeras pinhole, que são máquinas artesanais, e levá-los de volta para a comunidade para fotografar o dia a dia deles e, finalmente, fazer uma exposição lá dentro. No fim do ano, vamos selecionar as fotografias de várias comunidades e fazer uma exposição aqui dentro, com as fotos deles. Esse é um dos trabalhos educacionais que nós estamos desenvolvendo e que eu acho que eu acho que vai trazer um grande benefício à cidade.

Serviço

Museu da Fotografia de Fortaleza
Rua Frederico Borges, 545 – Varjota
(85) 3017.3661
/museudafotografiafortaleza
@museudafotografiafortaleza
Funcionamento: de quarta à domingo, das 12h às 17h.
Entrada: R$ 10 (meia para todos). Gratuidade para menores de 18 anos e acima de 60. Quarta-feira tem entrada gratuita.

Colaboradores

Luiza Carolina Figueiredo

Luiza Carolina Figueiredo

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Apesar de jornalista, sonha com ficção e, por isso, fica animada em ouvir os causos dos outros - quem sabe não tira inspiração para um futuro romance? Acredita que, se escrever de tudo um pouco, um dia vai conseguir a história que realmente quer. Leitora compulsiva, está sempre com um livro ou HQ nas mãos (ou na bolsa). É meio tímida, mas tem um bichinho tagarela dentro dela que, quando começa a falar, quase não para. E se a conversa for geek, então...

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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