Vós

menu
Histórias

Uma velha dama na Avenida do Imperador

Por Claudia Albuquerque, Igor de Melo, Michele Boroh
22.dez
2015

A casa que pertenceu ao industrial Thomaz Pompeu de Souza Brasil Filho insiste em guardar seus segredos no Centro de Fortaleza, onde hoje funciona o Cerest-Ce.

Já houve tardes silenciosas, crianças à solta, árvores frondosas e passos sem pressa em volta da casa de nº 498 da Avenida do Imperador. Também é possível imaginar festas que entravam pela noite, figurinos copiados de revistas francesas e empregados com bandejas de bebidas borbulhantes. Há 100 anos, quando foi construída, a casa de Thomaz Pompeu de Souza Brasil Filho era uma das joias que ornavam um dos boulevards mais importantes de Fortaleza.

Soberba, ainda não se assustava com os fantasmas que afligiriam o Centro alguns anos depois: tráfego, sujeira, confusão, descaso. Abria-se para calçadas largas, pavimentação em pedra tosca e vias iluminadas a gás carbônico. Hoje, a dama solitária exibe sua arquitetura eclética a transeuntes apressados demais para percebê-la. A Praça da Lagoinha – que é oficialmente Capistrano de Abreu e já foi Comendador Teodorico – fica logo em frente. O Hospital Geral Dr. Cesar Cals é ali ao lado. Minuto após minuto, frotas de ônibus cospem usuários dos serviços do entorno. O comércio miúdo e a luta pela sobrevivência só permitem o descanso ao anoitecer, quando toda a área se esvazia.

Abrigando o Centro Estadual de Referência em Saúde do Trabalhador, (Cerest-CE) desde 2005, quando foi restaurada por uma equipe de arquitetos sob o comando do professor Domingos Linheiro, a casa de Thomaz Pompeu de Souza Brasil Filho foi construída “por volta de 1916”, como explica a placa colocada em um muro lateral, que chama atenção para o “grande mérito arquitetônico” da edificação, desenvolvida em “dois pavimentos nobres com porão alto habitável”. O jardim frontal está maltratado por problemas com a pressão d´água, mas ainda fornece uma pálida ideia dos dias de glória.

Internamente, o pé-direito altíssimo, o piso de madeira corrida, a escada em caracol, as portas delgadas e janelas com arabescos vazados levam a vida como se não quisessem ver o tempo passar. Alguns dizem que o projeto veio da Áustria, outros arriscam que da Inglaterra. Os anos exigiram adaptações, deixaram ranhuras e introduziram elementos novos, como o piso da antiga área da criadagem. Arquivos de ferro e computadores de mesa tomam conta de aposentos antes imponentes. Mas a essência ficou. “Existe coisa melhor no mundo do que estar trabalhando aqui? Você vai num prédio da Aldeota e não vê um alpendre como esse!”, compara o técnico Cláudio Sérgio, do setor de TI do Cerest.

Nascido em 1852, o antigo proprietário da casa, Thomaz Pompeu de Souza Brasil Filho (não confundir com o pai, que era de 1818), fez fortuna no mundo dos negócios. Teve fábrica, banco e companhia de transporte. Produziu redes e tecidos. Uma de suas empresas funcionava na própria Avenida do Imperador, que junto com a Av. Duque de Caxias e a Dom Manuel formava o perímetro de ouro da cidade. Por volta de 1916, quando a casa recebia os primeiros convidados, Fortaleza vivia uma época de embelezamento de seus logradouros, muitas vezes sacrificando mongubeiras e oitis nativos por fícus benjamins vindos da Malásia. A população de 74.000 habitantes seria comparável, hoje, ao número dos moradores de um único bairro, como a Barra do Ceará.

Um século depois, as paredes grossas do casarão onde Thomaz Pompeu esquecia a matemática dos negócios guardam o silêncio da noite. Se houve banquetes, já não há. “Mas de vez em quando alguém para no portão e fica olhando, lembrando do tempo em que brincava em frente ou que passeava pelo Centro”, informa o técnico Cláudio Sérgio. E, com um riso meio incrédulo, garante que há quem vislumbre, nas ocasiões mais inesperadas, a silhueta de uma mulher muito branca, vestida para festa, subindo e descendo as escadarias da casa. “Uma inglesa”, ele acrescenta, sem dar pista de como descobriram a nacionalidade da finada.

Colaboradores

Claudia Albuquerque

Claudia Albuquerque

Ver Perfil

Claudia Albuquerque é jornalista e sempre colecionou blocos de anotações. Adora ouvir histórias da vida alheia e escrever sobre elas. Acha uma sorte ter escolhido essa profissão e concorda com o escritor húngaro que comparou o português a um “idioma de passarinhos”.

Igor de Melo

Igor de Melo

Ver Perfil

É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

Michele Boroh

Michele Boroh

Ver Perfil

Nasceu no Dia do Jornalista. Aos 9 criou o Jornal dos Amigos do Prédio, em folha de caderno e à base de canetinha. Agora, aos 32 e após 8 em TV, é coordenadora e editora de VÓS, com a mesma paixão da infância. É também cronista no Tribuna do Ceará e no Medium, viciada em livro, cavaquinista de churrasco e mãe de um Bull Terrier. Ariana, de sol e lua.

Comentários

Quer conhecer mais histórias como esta?


Cadastre seu email abaixo para receber matérias, novidades, eventos, e outras informações na sua caixa de email.

fechar