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Weaver: independente de tudo, artista

Com Weaver Ferreira Lima Por Luiza Carolina Figueiredo, Igor de Melo
15.mar
2017

Quem acompanha os trabalhos de Vós já viu esse nome por aqui mais de uma vez: Weaver. E já que ele está sempre por aqui, fomos atrás de saber o que mais ele anda fazendo por aí

Weaver Ferreira Lima. O nome pouco usual é acompanhado de um sobrenome bem brasileiro. A história da origem é daquelas boas de se contar numa roda de conversa. Quando jovem, o pai comprou um jeep, daqueles do tipo de guerra, cuja marca era Weaver, e achou o nome bonito. Logo decidiu que no dia em que tivesse um filho, esse seria o nome dele. “Só que Weaver era sobrenome, e ele colocou como nome. Coisas do Ceará…”

Também foi o pai o responsável pelo primeiro contato de Weaver com o desenho. “Ele costumava desenhar algumas figuras de animais de forma amadora mesmo e eu comecei a fazer o mesmo e a mostrar a ele e ele dizia que estava bonito”. E o menino ficava lá, no chão da mercearia do pai perdido nos seus rabiscos e mostrando o resultado para os clientes.

Ainda criança viu que desenho era algo que dava dinheiro e podia dar problema. Fazia quadrinhos no colégio e logo criou uma “rede” de comércio envolvendo os colegas que vendiam entre si e na rua. No ano seguinte, foi impedido de se matricular na escola, pois os pais reclamaram que o conteúdo dos quadrinhos era muito pesado.

Teria outro problema com quadrinhos muitos anos mais tarde, ao tentar publicar uma coletânea dos fanzines do Seres Urbanos, grupo que fez parte anos anos 1990. O livro passou num edital na Secretaria de Cultura, mas foi barrado devido um cena de nudez, “porque aquilo não era coisa de criança”. E não era mesmo. Foram três anos e mais um edital para o livro finalmente ser publicado.

A espera valeu a pena, pois ele venceu o Prêmio Miolos de Melhor Publicação de Quadrinhos, em 2015, da Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo. A tiragem de 1500 exemplares foi toda vendida e eles estão agora na segunda tiragem e já preparando uma segunda edição, mais adulta e com uma inédita e boa história pra contar: “a de quando a gente foi ‘censurado’ em pleno 2012”.

Entrevista

Vós – Como foi que você começou a trabalhar com desenho?
Weaver – No começo dos anos 1990, fiz parte de um grupo de fanzineiros que se chamava Seres Urbanos. Mas antes disso eu já desenhava, já fazia quadrinho. Quando era adolescente, era ligado a isso de andar de skate, de fazer desenho no shape dos amigos.

Vós – Sobre o que falavam os fanzines dos Seres Urbanos?
Weaver – A gente começou fazendo quadrinhos, mas criamos uma publicação de fazer tudo aquilo que a gente curtia, então tinha aquilo do skate, alguma coisa de arte urbana, literatura, cinema… No fim era uma publicação que falava de tudo, de coisas ligadas à cena alternativa. E o grupo começou com essa ideia de fazer publicações de tudo o que a gente curtia, mas o principal era desenho e quadrinho, que era o que a gente fazia. Anos mais tarde, publicamos um livro só com a seleção dos quadrinhos, embora os fanzines tivessem bem mais coisas, cotidiano, como arte postal, arte gráfica, etc. Através desse grupo a gente passou a participar de eventos no eixo Rio-São Paulo, porque os fanzines tinham isso de gerar contato no Brasil todo, e começamos a ganhar um certo respaldo no país, até que apareceu a oportunidade de fazer uma coluna dentro do jornal O Povo, quando o editor era o Lira Neto. Nós tínhamos uma página de jornal, onde a gente divulgava toda essa cultura independente e alternativa, que ia desde bandas e quadrinistas a outros fanzineiros do país. A coluna durou dois anos, 1997 e 1998, porque a gente queria que ela fosse limpa, sem anúncio, pra não ser pautada. Mas aí, quando tem corte no jornal, página sem anúncio está suscetível a ser uma das primeiras a sair. E a gente sabia disso. Mas durou até muito para uma iniciativa desse tipo. Logo depois o grupo foi acabando.

Vós – O grupo acabou por causa do fim da coluna?
Weaver – A gente já tava saindo da casa dos pais, vendo que tinha que pagar conta; em outra realidade. E a gente viu que o que ganhava com isso era muito pouco e que não ia dar pra se sustentar, por isso o grupo foi acabando. E também aconteceu o seguinte: quando a gente começou a fazer os fanzines, que não tinha internet e a gente se correspondia por meio de carta, o mercado independente mundial estava dando pistas do que ia acontecer, sabe? Tipo o Nirvana, que estourou mundialmente por uma grande gravadora, a gente sabia de casos na Europa e nos Estados Unidos de circuitos independentes. São Paulo estava tendo uma ebulição de fanzines, o Angeli tinha lançado uma revista em quadrinhos que vendia 100 mil exemplares, que era a Chiclete com Banana. A gente tinha modelo de coisas que estavam funcionando e de pessoas que mostravam que dava pra viver disso. Mas o engraçado é que, depois dos anos 1990, esses modelos acabaram. Até o circuito de bandas, que a gente fazia cartazes, deu uma esfriada. Então, era como se as coisas que a gente tava fazendo, de repente tivesse dado um bum e de repente tivesse acabado. E acabamos fazendo um monte de trabalho que não tinha nada a ver com o que gostávamos de fazer, que não rolava identificação, não valia a pena. Aí, cada um foi para um lado, e o pessoal foi trabalhar pra agência de publicidade, freela de alguma coisa… Eu comecei a trabalhar como ilustrador pra vários locais e fiquei dando aulas de quadrinhos para crianças – tinha um curso chamado Lápis Atômico.

Vós – E quando foi que você começou a se interessar também pelas artes visuais?
Weaver – Foi exatamente em 2000. Eu frequentava exposições e pensava: “Poxa, isso aí, eu também posso fazer”. Comecei a pintar ainda em 2000 e dois anos depois participei do meu primeiro salão de arte contemporânea, que foi em Sobral. E nesses salões, circulam críticos de arte. Em Sobral, tinha o Olívio Tavares e o José Guedes, e eles estavam conversando em frente ao meu trabalho e um dos jurados estava pensando que era plotagem, que não era pintura. Então o Guedes e o Olívio falaram que se fossem do júri o meu trabalho com certeza seria um dos premiados. Aquilo pra mim foi muito foda, porque eu tinha acabado de entrar e já poderia ser um dos premiados. Depois eles me chamaram, me elogiaram e foi melhor do que ganhar. No anos seguinte, em 2003, participei do Salão de Abril, aqui em Fortaleza, onde aconteceu uma coisa engraçada. Eu tava participando com dois painéis e todo mundo que chegava estava me parabenizando; só que eu não tinha ganho. Tava todo mundo pensando que o prêmio era meu. Então fui ficar na frente do meu trabalho e as pessoas continuavam a me dar parabéns pelo trabalho e pelo prêmio, e eu dizia que eu não tinha ganho o prêmio. Na época, realmente surpreendia, porque não tinha nada parecido, com essa coisa mais pop acontecendo, por isso eu acho que chamava a atenção. E foi da mesma maneira… Não ganhei prêmio, mas fiquei pensando, “sou foda”, porque as pessoas estavam me parabenizando [risos]. Eu nunca fui egocêntrico, mas achava massa quando as pessoas gostavam do meu trabalho. Aí, quando foi no ano seguinte foi que eu ganhei, em 2004. E o engraçado é que quando me inscrevi nem era mais com um trabalho tão representativo como achava nos anos anteriores, mas foi o que ganhou. E daí pra frente comecei a ganhar prêmio, a fazer currículo e a criar nome.

Vós – Mas além de fazer arte, você também faz curadoria de exposições, não é verdade? Como isso começou?*
Weaver – Foi também por meio dos anos 2000. Fiz uma pesquisa de um quadrinista aqui do Ceará chamado Luiz Sá, que nasceu em 1907. Em 2007, ia fazer o centenário dele, e ia passar batido. A gente estava fazendo alguns eventos de quadrinhos e algumas comentaram do centenário e que nós devíamos fazer alguma coisa. Nessa época, eu já fazia parte da Artz Produção Cultural, que era empresa que depois viraria a Monstra. Então, nós passamos dois anos fazendo essa pesquisa sobre o Luiz Sá, fomos na Biblioteca Nacional, conseguimos aprovar projeto de resgate de fotografia… E foi um trabalho bastante relevante, pois fizemos todo um trabalho de resgate, dialogando com instituições, com locais de obtenção de recursos para projetos culturais. E a partir daí a empresa ganhou corpo e desde então a gente não para.

Vós – Você disse que a Monstra começou como Artz. Mas quando foi que o coletivo realmente surgiu?
Weaver – Em 2008. A gente reuniu todo mundo num evento no Centro Cultural do Banco do Nordeste e queria que fosse um grupo que tivesse tudo: desenhistas, pessoal do audiovisual, fotografia, música, teatro. Foi a primeira vez que fizemos alguma coisa com o nome Monstra. E a escolha do nome é engraçada porque a gente foi escrever “mostra” e acabou escrevendo “monstra”. Aí ficou a brincadeira da “Mostra Monstra”, um negócio meio esquisito, que pode ser grande, que pode ser feio, que não existe no dicionário. Era um nome que tinha a ver e a gente curtiu. E o nome Artz era um negócio mais de “arte z”, de última qualidade. E como sempre dava problema do grupo Monstra e da empresa Artz, que parecia ser duas coisas, a gente decidiu ficar com um nome só.

Aí, depois que a gente fez várias exposições coletivas, que o nome Monstra estava estabilizado e muita gente já sabia o que era o coletivo, mas ninguém sabia quem era quem. Conhecia o grupo, mas não sabia quem eram os integrantes, não reconheciam os estilos. Então, tivemos uma reunião e decidimos que voltaríamos a nos encontrar depois que cada um fizesse a sua exposição individual. Eu já fiz umas cinco [risos].

Vós – Você também tem projetos particulares, como o RASTRO. Poderia falar um pouco dele?
Weaver – Foi um projeto que pensamos como de arte urbana. A gente foi para a região dos Inhamuns – que é a região dos avós da Luciana [Rodrigues, esposa do Weaver] e eu saía fazendo umas caveiras por lá, que eram uns desenhos mais gráficos. E depois de um tempo eu fui vendo que algumas pessoas apagavam essas caveiras. Aí caiu a ficha: isso incomoda! A casa tava toda suja, mas a caveira que tava lá a pessoa apagou, então isso incomodava as pessoas. Esse projeto foi meio decisivo na hora de pensar no que se está fazendo, porque uma coisa é legal pra mim, mas o que me dá o direito de fazer algo que incomoda alguém? E num espaço que, de certa maneira, é mais dele do que meu, porque ele tá ali direto. Então a gente pensou num projeto em que íamos chegar nas cidades, na casa de alguém, conversar com o dono da casa, com a família e criar um projeto na hora, nesse dia de conversa, e criar um trabalho na fachada da casa da pessoa. Ele foi virando isso. Como você faz um trabalho de arte em que o artista divide a autoria com as pessoas da própria casa? O projeto foi se transformando. Um que eu lembro bem, era o de uma menina que a mãe vivia reclamando do lençol bagunçado na cama, e eu comecei a desenhar ele todo estilizado. O engraçado é que os pais dela ficaram lá achando bonito e ela chegou bem pertinho de mim e perguntou: “tu tá desenhando o meu lençol, né?”. E fica tipo um segredo. Era uma coisa que a mãe dela ficava com vergonha por causa da bagunça e agora virou um trabalho artístico na fachada. Eu não chego lá pra fazer um trabalho de pintar a família. Não. Vou fazer um trabalho que tenha uma história por trás e que tenha um elo de ligação que, de repente, eu e a família entendamos aquilo e depois eles vão continuar contando a história.

*Atualmente, Weaver é curador da exposição Arquivo Nirez, em cartaz na CAIXA Cultural Fortaleza até 16 de abril.

Serviço

Weaver F/WRFCE
Seres Urbanos/seresurbanosfanzines
MonstraMONSTRAcomix
Projeto RASTRO: vídeos e exposição

Colaboradores

Luiza Carolina Figueiredo

Luiza Carolina Figueiredo

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Apesar de jornalista, sonha com ficção e, por isso, fica animada em ouvir os causos dos outros - quem sabe não tira inspiração para um futuro romance? Acredita que, se escrever de tudo um pouco, um dia vai conseguir a história que realmente quer. Leitora compulsiva, está sempre com um livro ou HQ nas mãos (ou na bolsa). É meio tímida, mas tem um bichinho tagarela dentro dela que, quando começa a falar, quase não para. E se a conversa for geek, então...

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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