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Histórias

A medicina do cuidar e ser cuidado

Com Vera Dantas Por Jonathan Silva, Igor de Melo, Gabriel Lage

Acredita em Vós

20.ago
2019

Inserido na amplitude do campus da UECE (Universidade Estadual do Ceará) no Itapery, atrás dos centros acadêmicos, está localizado o Espaço Ekobé. A palavra indígena significa “vida”, em tupi guarani. E não é somente essa similaridade com os povos tradicionais que o espaço possui. Lá habita o cuidado oriundo dos saberes ancestrais, como também pessoas dispostas a propagá-las.

A casa não obedece a uma cor, apenas; é multicolorida, tanto nas paredes, ladrilhos, adereços e pinturas artísticas. Construída nas bases da permacultura, tem estrutura em espiral. A cerca é verde e viva. Há salas para atendimentos individuais, um salão redondo que lembra uma oca e poesias espalhadas pelas paredes. A placa da entrada, já gasta pelo tempo, anuncia que “a prosa vai ser misturada, o linguajar meio louco, vai ter papo de caboco, conversa, canto e balada.”

É nessa perspectiva de cuidado e arte que Vera Dantas atua. Sua voz não esconde o sotaque potiguar de Carnaúba dos Dantas, município onde nasceu, no Rio Grande do Norte. Vera é médica de formação, mas também é consteladora familiar, massoterapeuta, homeopata, reikiana e educadora popular; esta última função é onde “me percebo como ser humano.”

Verinha, como comumente é chamada, é uma das criadoras do Ekobé. O espaço foi fundado em 2005, graças a uma colaboração entre a Secretaria Municipal de Saúde, UECE e Articulação Nacional da Educação Popular em Saúde (ANEPS). A inauguração do primeiro espaço, que antes ocupava apenas uma sala em outro ponto da universidade, ocorreu durante um encontro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. 

Tal articulação surgiu como forma de trabalhar outras perspectivas de saúde fora da biomedicina, algo que Vera já percebia como necessário há anos. “Comecei a perceber a potência do trabalho educativo na saúde, já desde o começo da minha vida profissional, no início da década de 80.” Foi  nesse período em que a médica embarcou em experiências com práticas tidas como “alternativas”, como homeopatia e plantas medicinais.

Hoje, Vera e outros três cuidadores realizam práticas de cuidado no Ekobé. Dos quatro, só ela e Joelita, uma enfermeira, são da área da saúde. De segunda à sábado as práticas são realizadas, e uma média de quinze pessoas são atendidas diariamente. São estudantes, professores, demais funcionários da UECE e pacientes dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). “Cada turno, antes de começar o cuidado, nós fazemos uma escuta com as pessoas que já chegaram e vai vendo”, explica Vera.

O propósito é simples. “Não estamos pautados pela doença. Nós estamos pautados na ideia do cuidado, e é um cuidado com a vida.” Entre as atividades realizadas, há Reiki, Reflexologia, Auriculoterapia, Massagem de Som e Biodança. Essas são algumas das práticas realizadas durante a semana, todas elas carregadas de um contato afetivo entre os integrantes.

Os cuidados são gratuitos. Todos que integram o Ekobé, garante Vera, o fazem por satisfação. O princípio da cooperação se faz presente, num fluxo de recebimento e retribuição. “Temos pessoas aqui que chegaram sendo cuidadas e depois viraram cuidadoras”. Não só contribuem dentro da casa como também fora dela.

Com o tempo, o Ekobé se tornou um pólo nacional de educação popular em saúde. “A partir daqui nós começamos a formar pessoas no Reiki em Sergipe, Alagoas, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e do Norte”, explica Vera. Alunos residentes, tanto no Ceará como de outros estados, já visitaram o Ekobé. Médicos da família da Argentina e Chile já realizam o Corredor do Cuidado, uma vivência utilizada pelos integrantes do Ekobé.

Por ser uma pessoa em intenso contato com a natureza, não é de se estranhar que seja dela onde Verinha extraia a melhor comparação sobre o que é feito na casa. “Sabe aquele princípio da polinização? É como se a gente tivesse um bocado de beija flor aqui que vai espalhando os beijinhos rápidos e vai polinizando novas flores e essa ética do cuidado.” Mesmo numa época onde o bem estar é mercantilizado, a moeda de troca que melhor paga o cuidado distribuído no Ekobé é o amor sem distinções.

SERVIÇO

Espaço Ekobé: Rua Dr. Justa Araújo, 1203 – Universidade Estadual do Ceará, Campus do Itaperi, Fortaleza

Colaboradores

Jonathan Silva

Jonathan Silva

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Garoto diferentão do Bom Jardim, entrou no Jornalismo com a intenção de escrever sobre música, uma paixão herdada da mãe. Hoje usa essa ferramenta para escrever sobre o cotidiano, a cidade, pessoas especiais, artes, fatos marcantes e a luta nossa de cada dia pela dignidade. Se não fosse jornalista, com certeza seria um astro insano do rock.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

Gabriel Lage

Gabriel Lage

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Cearense, empresário, filmmaker e fotógrafo. Acadêmico de audiovisual pela Unifor. Fã de Star Wars e dos anos 80.

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