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[Afetos] - A porta que é janela, ou a janela que é porta

Por Henrique Araújo, Igor de Melo
12.mar
2018

Presente desde muito tempo no mundo, a meia-porta é um convite para o exercício de nossa hospitalidade e de nossa alteridade.

Imagine a descrição das seguintes cenas, que acontecem primeiro em ritmo normal, depois em câmera mais lenta: você saindo de Fortaleza numa sexta-feira, debaixo de um calor e de um sol forte que parecem desdenhar do ar-condicionado do seu carro e do vidro fumê. Daí você pega uma Bezerra lotada, tenta não reclamar da faixa exclusiva de ônibus e pensa que chega a Crateús, mas não chega ao fim da Senhora Hull, tão longe ainda está a BR-020. Mas seu destino não é tão longe assim. Imagine, você vai bem ali a Tauá (mas poderia ser a São João do Jaguaribe, Milagres, Iguatu ou a Quixadá. Podia ser também a esta própria cidade, tivesse entrado à direita depois do Terminal de Antônio Bezerra).

Já numa tomada mais lenta, o que eu gostaria que você imaginasse, agora, é a cena em que você chega a seu destino, após aquele cansaço de quem não mereceu a sesta (embora o último dia útil da semana seja inteiramente seu), e encontra seus amigos numa calçada, sentados naquelas cadeiras de ferro e nylons coloridos entrelaçados, com joelhos dobrados a quarenta e cinco graus e pés no mesmo nível das ancas. Escaldado por um calor seco que não permite suar além das axilas, você atravessa o sorriso dos que lhe dizem “isso é hora, macho?”. Pensa mas não consegue dar-lhes uma resposta, enxerga a cozinha da casa de seus pais – onde vislumbra o último copo d´água do fim do semiárido -, escuta aquele latido com que você sonha a semana inteira, e fala: “Mãe?”. Nessa hora, metade do seu corpo já está na sala, mas seus pés ficam na calçada.

Vislumbrou? A inclinação ocorre como um gesto natural de reverência – automático, é verdade – ao som de dois cliques secos no ferrolho, um para cima e outro que corre paralelo à madeira. Pronto, a janela de baixo soma-se à porta de cima (ou pode ser o contrário) e as duas – a meia-porta toda – estão abertas para você entrar em casa (você pode continuar a cena como quiser, depois).

De certo modo, em um primeiro momento, tendemos a pensar que a meia-porta é uma construção nordestina, cearense. Claro, dependendo do enfoque cultural e semântico que se queira imprimir, ela já ganhou tons locais, sim. E também, confessemos, tendemos às vezes a olhar o mundo a partir de nossa janela, para ficar no referencial de nosso conceito. Isso sem falar que somos, como tantas vezes trouxemos aqui em Vós, um povo sem medo de ir ao mundo.

Mas não. A bendita existe mundo afora, e desde muito tempo.

Há pelo menos três referências dela nas obras de Shakespeare, como na Comédia dos Erros, no Rei Lear e na Vida e Morte do Rei João, sempre com o substantivo “hatch”. Claro, uma rápida olhada na internet e você sequer encontra essa palavra como esse significado antigo, mas na edição do ano de 1818 de seus trabalhos dramáticos, publicada por Henry Durell, seus comentadores não hesitam em anotar: “hatch is a half-door”, que em tradução livre significa “uma meia-porta geralmente colocada na porta que dá para a rua”. Ainda que seja uma referência literária de peças teatrais que se passam em tempos imemoriais, difícil imaginar que as casas do Reino Unido tivessem exatamente a mesma arquitetura das nossas. A ideia de meia passagem, porém, como se vê, já é antiga.

Já na obra O Quinze, de Rachel de Queiroz, existe pelo menos uma citação expressa à nossa queridinha que anda meio esquecida (pelo menos como imagem, mas não como ideia): “Quando o rapaz deu de frente com a casa do logradouro, toda branca, trepada num alto vermelho e nu, viu logo Conceição, no alpendre, resguardando os olhos com a mão em pala e procurando identificar o visitante que chegava na poeira do sol. Ao reconhecer Vicente, enfiou a cabeça pela banda aberta da meia-porta e gritou para a avó, que bilrava lá dentro: – Mãe Nácia! O Vicente!”

No contexto histórico, nossas casas parecem ter sofrido a influência moura, ibérica e dos povos do norte da África. Segundo o professor gaúcho Gunter Weimer, na sua obra Arquitetura popular brasileira (2005), as casas coladas umas nas outras – casas de porta e janela no Brasil e casa de pescadores em Portugal – lembram as do Saara, de modo que são adjuntas não apenas por economia, mas para a proteção do espaço público do calor e da areia, como faz todo o sentido na descrição da escritora cearense.

Embora não haja uma referência expressa à meia-porta nesse último livro, a colocação de mais uma janela onde se teria apenas um portal para a rua permitiu que tivéssemos o acesso à luz, à brisa (ah, o Aracati!) e – o que parece mais interessante – ao outro, sem sairmos de casa e sem que o outro adentre diretamente nosso lar.

Esse signo tem tantas reverberações dentro e fora da gente quantas se possa imaginar. É a ideia de fronteira, de limite, mas também de encontro, porque não nos esqueçamos de que o conflito e a vida se dão nesse limiar. Como sempre nos relembra Tiago Santana em suas falas, o que lhe parece mais rico na fotografia são esses momentos de troca, de encontro, que ocorrem nessas linhas que desenhamos entre espaços que antes eram vazios.

Curioso: ao ter a meia-porta como ideia de fronteira, de passagem por cima ou por baixo de uma identidade que antes era una, podemos lembrar imediatamente – perdoem minha repetição no tema – da região sul de nosso estado, onde encontra Pernambuco. Pois foi de lá que nasceu o Rei do Baião. Quem aí não se lembra de sua cantada declaração de naturalidade (que de resto é uma lição de vida)? “Eu sou um caboclo feliz. Se eu pudesse nascer de novo, eu queria ser o mesmo mané Luiz. Se eu pudesse nascer de novo e pudesse escolher, mais do que eu sou eu não queria ser. Eu queria nascer lá na fazenda da caiçara, lá em Exu, Pernambuco, mermo na divisa com o Ceará. É por isso que eu costumo dizer que uma banda minha é pernambucana e a outra banda é cearense.”

É dele também uma das descrições mais belas de encontro ocorrido à meia-porta. Após 16 anos de saído de casa (depois de muito apanhar da mãe e de dar desgosto ao pai porque queria se casar muito jovem com uma estudante, filha de um homem de posses), ele retorna e resolve pregar uma peça no pai, porque no íntimo ele sabia da boa índole do velho. Na hora escolhida, à meia-noite (mais uma divisa de metades), Luiz chega à casa velha da família e chama por Januário, que não o reconhece ofuscado pela luz do candeeiro:

– “Quem é você?
– Luiz Gonzaga, seu filho!
– Isso é hora de você chegar em casa, seu corno sem vergonha?! Santana, Luiz chegou!”

A cena, para quem lembra, originou a gravação de Respeita Januário, fonografada a primeira vez em 1950, e que se encontra também representada no filme Gonzaga, de pai para filho.

A meia-porta pode ser um tanto mais. Hoje, em que nossas casas são em certo sentido nossos perfis nas redes sociais, visualizadas por janelas como as quais este texto também pode ser lido digitalmente, há quem deixe as duas metades abertas, há quem proteja a metade de baixo e há aqueles que fecham a meia-porta inteira e só querem espiar pela fechadura o que se passa na rua.

Penso que qualquer crítica que se possa imaginar a alguém que conhecemos que se encaixe em uma ou outra situação não vale a pena, porque todos nós, em algum momento, já estivemos em uma dessas ocasiões, de querer ver e deixar-se ver, em maior ou menor grau. O mais importante é saber que a meia-porta nos permite o acesso ao outro, ao encontro, à hospitalidade, ao vento que sopra nos cabelos e à luz natural que já foi vaiada; tudo isso com o respeito e com a consciência de que o outro – e nós mesmos – temos a liberdade de cuidar das duas metades da porta (ou das duas metades da janela, como quisermos).

Voltando à cena do começo, que você pode livremente continuar a sua, eu ouvi na minha:

– É sua vó. Sua mãe ainda não chegou. Está aqui sua água. Quer algo mais, meu filho?
– Queria não sair daqui.
– Venha sempre. Você sabe que, a não ser mais tarde da noite, a porta de baixo fica só escorada.

Colaboradores

Henrique Araújo

Henrique Araújo

Ver Perfil

Conheceu a fotografia ainda aos 9 anos, numa oficina de pinhole com latas de leite. A dificuldade de se expressar o levou à escrita e, esta, ao Direito. Em meio a discursos semânticos sobre norma e conduta, busca entender o mundo através das lentes e escrever pequenos contos visuais.

Igor de Melo

Igor de Melo

Ver Perfil

É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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