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[Afetos] - Mela-mela: o corpo sujo guarda uma alma livre

Por Felipe Gomes, Mario Sanders
07.fev
2018

Historiadores divergem sobre o início da tradição, brincantes se sujam como se não houvesse amanhã e tudo que ela quer é em quatro dias ser o que o resto do ano não permite

Faltam quinze para as 5 da tarde e ela finalmente se encaminha para o ponto de ônibus. Atipicamente, a semana de trabalho se encerra na quinta. Não que não haja expediente amanhã, mas as horas trabalhadas a mais no fim do ano caíram como uma luva pra quem tem pressa de liberdade.

Ainda dá tempo de passar em casa pra pegar a mochila com os biquínis, shortinhos, o creme para pentear, a escova e a pasta de dente e, é claro, o melhor perfume. O “cuidado” da mãe – que até instantes antes de sua saída pela porta, parecia totalmente compenetrada no terço que rezava para Nossa Senhora Aparecida – também cabe na bagagem. Pela voz é possível perceber que ainda parece contrariada, mas que prefere não falar. É justo que a boa filha que tanto ajuda com as despesas de casa tenha um momento para fazer o que quer. Antes disso, no caminho pra casa, nem o cafajeste que insistia em se aproveitar do coletivo lotado pra simular um esbarrão podia mudar seu humor.

Dentro da bolsa carregava a passagem para Beberibe, no Litoral Leste, comprada dias antes. A economia há de valer a pena, afinal eram tantos anos querendo sentir mais do que a TV podia mostrar. A Mocidade Independente de Padre Miguel – escola de samba carioca para qual torce por influência da televisão – que desculpe, mas esse ano ela não vai só ver, vai ser parte do Carnaval.

Na rodoviária, as pessoas pareciam diferentes. O peso da vida já não era aparente nas expressões sisudas que, de costume, encarava durante o dia a dia. A pontinha do tecido com paetês costurados que insistia em ficar para o lado de fora da mochila do grandalhão que nela esbarrara denunciava: os dias gordos que estavam por vir eram mais generosos que os outros dias do ano.

Os 79 quilômetros que separam Beberibe e Fortaleza já haviam sido percorridos. A praia de Morro Branco, em plena sexta feira – dia conquistado pelo brasileiro como um extra de folia -, já estava tomada por paredões com músicas chiclete desse e de outros carnavais. Se ouvia tudo e não se ouvia nada. Ao redor, corpos, movimentos, sorrisos, paixões descartáveis. Tudo ocupando o mesmo lugar. E por falar nisso, quem disse mesmo que dois corpos não podem ocupar um espaço só? A física que me desculpe, mas o mela-mela não respeita regras.

Controversa por natureza, existem muitas explicações para o surgimento da molecagem carnavalesca, que parece ter encontrado no bom humor do cearense a morada perfeita para ganhar a eternidade. A tradição que remete ao entrudo – nome pelo qual era conhecido o carnaval no Brasil Colônia -, com o tempo perdeu o aspecto de guerra entre os brincantes que deviam sujar seu “oponente”, ou o de rivalidade de classe – como aponta uma outra linha de pesquisa -, onde os mais pobres atiravam ovos e farinhas nas pessoas mais ricas que tinham condições de ir aos grandes bailes de carnaval do século passado.

Assim como ela, o amido de milho – maisena, aqui para nós -, era ressignificado durante os dias de folia. O item, que lembra a angelicalidade da infância, usado para fazer biscoitos, bolos e mingau assume contornos profanos quando encontra os corpos suados do sol e da dança. No democrático mela-mela também tem espaço para a goma, farinha de trigo, ovo, spray, confete, serpentina e ultimamente até glitter. Sujou? Tá valendo.

Quando o primeiro punhado do pó branco atinge o corpo que ela se dá conta: o corpo sujo guarda uma alma livre.

Sujo. Suado. Consumido. Corpo cansado de quem só se permitiu repousar poucas horas em quatro dias. Branco. Preguento. Cabelo Duro. Também comeu pouco, bebeu muito – água não foi. Como se não houvesse amanhã. Há?

Livre. Sem amarras. Não precisa parecer bonita. Alma liberta. Não precisa “se dar ao respeito”. É moça de família, ainda que embriagada e de roupa curta. Dança como se não houvesse amanhã. Não há.

Não há mesmo um amanhã em que possa ser assim. As cinzas da liberdade experimentada, ou melhor, a maisena desce pelo ralo. O sabor de quem se permitiu vai acompanhá-la março adentro. Vai comemorar a ressurreição, vai folgar no dia do trabalhador, mas não no dia do estudante – não é mais, nem ainda. No Natal, vai cear com a mãe e comemorar o ano novo na praia, sabendo que só um novo fevereiro poderá trazer de volta o corpo sujo e a alma liberta que a água lava.

Colaboradores

Felipe Gomes

Felipe Gomes

Ver Perfil

Soube desde de cedo que iria ser jornalista. Com as histórias de uma Fortaleza de outros tempos, contadas pela bisavó, aprendeu a ouvir. Entrou na faculdade para falar de coisas. Saiu querendo falar de pessoas. Valoriza o olho no olho, admira o cinema francês e adora música.

Mario Sanders

Mario Sanders

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Filho de Dona Alzira, artista plástico, ilustrador, designer gráfico, artista prático. Nasceu em Aquiraz, mas veio pintar e bordar em Fortaleza. É ouvinte de Nick Cave, Tom Waits, David Bowie, Tom Zé, Mundo Livre, Arnaldo Baptista, Jorge Mautner, Chico Science, mas especialmente dos bilros de fazer renda de Dona Alzira.

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