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Histórias

Amor analógico: duas décadas de espera, 30 anos de história

Com Maria Luísa Malta Por Marcela Benevides, Igor de Melo
30.abr
2018

A vontade de ter o próprio negócio sempre esteve dentro dos seus projetos de vida, mas demorou 20 anos para se concretizar. O amor pela fotografia nasceu quando começou a trabalhar na histórica Abafilm, e lá ficou durante duas décadas. Um amigo que sabia do interesse da Maria Luísa Malta – ou simplesmente Malu – de montar a sua empresa, ofereceu a recepção do seu prédio comercial para ela. Seria uma troca. Ele não contrataria um funcionário e ela teria espaço para começar.

Sem hesitar, Malu conversou com o chefe e disse que a sua empresa não prejudicaria a Abafilm. Ele não viu problemas, mas disse que ela “não teria condições de fazer isso”. Porém, sempre corajosa, pediu as férias, vendeu o telefone – que na época valia muito dinheiro –, e começou vendendo 100 filmes. Foi assim que surgiu a Superfilm, que em agosto deste ano completa 30 anos de história.

Malu tinha dois trabalhos. Era gerente de uma das lojas da Abafilm e administrava a própria empresa. “Com 60 dias eu falei para o meu chefe que não queria mais ficar. Eles me demitiram e eu peguei o valor que recebi e investi”. Ela ainda relembra que os chefes esperaram durante seis meses para que ela voltasse, acreditando que o negócio não daria certo. “Hoje tenho orgulho de dizer que são meus amigos, eles me visitam no Natal e Ano Novo, e sempre me perguntam como eu consegui ficar no mercado até agora”.

Enquanto mostrava as câmeras antigas e explicava como elas funcionavam, o ambiente ia se tornando mais nostálgico, e a empresária recordava como a mudança do analógico para o digital foi difícil. “Se adaptar foi complicado. Tínhamos colchonetes dentro das lojas, pois meus
funcionários costumavam virar noites revelando filmes, principalmente no carnaval. Mas com o digital as vendas diminuíram e perdemos isso”.

Malu destaca que além da adaptação em relação ao volume de vendas, os produtos e as câmeras digitais eram mais caras e era preciso fazer investimento. “Erramos muito. Queríamos chegar no mercado mostrando que tínhamos algo digital, então comprávamos os equipamentos e tínhamos dificuldade para usar, e os funcionários precisavam se adaptar também. Os obstáculos eram muito grandes e tinha dia que a vontade era de fechar as portas e desistir”.

Outra adaptação que precisou ocorrer foi por parte dos fotógrafos amadores. Na transição do analógico para o digital, Maria Luísa destaca que as pessoas comuns não aceitaram rapidamente a mudança. “As pessoas diziam que tinham a câmera há muito tempo e que precisaria mudar”.
Mas de acordo com ela, os profissionais aceitaram mais rápido pois “adoravam mudanças”.

O álbum de fotografias, objeto que está associado ao analógico, ainda resiste e para Malu ele não vai deixar de existir. Relembrando da época em que parava para ver álbuns de família e dava risada das roupas e cabelos de outras décadas, ela comenta que pode estar enganada, mas haverá uma forma de guardar as fotografias para a família, seja por meio de álbuns digitais ou impresso.

Resistir ao tempo

É com carinho que Maria Luísa comenta sobre as etapas realizadas até que a fotografia esteja pronta. Ela fez questão de mostrar como é feito o processo de revelação automática, que dura entre 10 e 12 minutos. O ambiente tem o cheiro dos produtos químicos utilizados, mas nada desagradável. Enquanto o equipamento processa o filme, a empresária comenta que no auge do analógico as máquinas não paravam e as lojas estavam sempre com grande fluxo de pessoas.

Sobre resistir à modernidade, Malu afirma que é preciso ter persistência, pé no chão, conhecimento e vontade de compreender a dinâmica do mercado. É dessa forma que Maria Luísa vem tentando sobreviver. Entre sorrisos, ela afirma que o seu diferencial sempre foi o atendimento, e como não gosta de dizer não às pessoas sempre tenta ajudar de alguma forma. E é por isso que ela mantém, apesar dos custos altos, a revelação tradicional. “As máquinas de revelação automática não são mais vendidas, os preços dos produtos utilizados são caros, mas
vamos nos adaptando”.

Com 30 anos de mercado, Maria Luísa faz questão de estar presente todos os dias nas suas lojas. “Não existe nada melhor do que sair de casa e fazer o que gosto, eu me realizo”. Pela manhã fica na loja do Centro; à tarde reveza entre ir a loja do Benfica ou da Barão de Studart – esta última seria fechada no ano passado, mas devido a um abaixo-assinado realizado por clientes e funcionários, Malu decidiu manter a loja que existe há 24 anos. “Eu fiquei muito feliz, eu ia fechar por causa da crise do mercado e por conta da insegurança.”

A estudante Júlia Aragão observava com curiosidade as bobinas de filmes espalhadas pelo balcão da Superfilm, e questionou porque nunca devolviam as dela. Maria Luísa, surpresa com a pergunta, explicou que ninguém pedia, mas que se ela quisesse era só falar no balcão que os funcionários entregavam. Em seguida, Malu pediu para um dos colaboradores pegar algumas para entregar a Júlia, que logo abriu um sorriso.

Júlia cursa Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal do Ceará (UFC). Começou a fotografar com câmera analógica no ano passado e desde então revela os filmes. Seu avô foi fotógrafo, mas ela não teve contato com ele.  As lembranças que possui são as memórias da mãe e as fotopinturas deixadas por seu avô. O interesse pela fotografia analógica surgiu dela, e por ser envolvida com artes, tudo acabou se relacionando.

“Escolhi o analógico porque gosto do processo, da espera, de planejar a foto, de pensar na composição e de como vai ser. Gosto da digitalização porque posso escolher as cores, além de ter fisicamente algo para expor”. Como estuda arquitetura, a cidade e as coisas estão constantemente no seu imaginário, e é por causa dessa relação que Júlia opta por registrar Fortaleza.

Serviço

Superfilm
Lojas
1. Rua Assunção, 67 – Centro
(85) 3252.4862 / 3217.7270
2. Av. Barão de Studart, 2037 – Aldeota
(85) 3261.4425
3. Shopping Benfica – Loja 103
(85) 3223.4665
Funcionamento
8h00 às 18h00 (seg – sex)
Valores
Revelação: R$ 12
Digitalizar: R$ 20 (caso seja feita a cópia das fotos não é cobrado valor da digitalização)
Cópias das fotos: a partir de R$ 1,40
Site: superfilm.com

 

Colaboradores

Marcela Benevides

Marcela Benevides

Ver Perfil

Ler e escrever são as duas coisas que mais a definem. Gosta de contar histórias sobre pessoas e lugares que inspiram a felicidade e a percepção de que a vida vai além das bolhas em que vivemos, e é na cidade que encontra a sua inspiração. Acredita que o jornalismo é um dos meios para promover a união entre culturas. Importante destacar: tem o sol em leão.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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