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Ao som das margens cearenses, o batuque provocativo de Baticum

Com Baticum Por Flávia Bessa, Igor de Melo
22.out
2019

Embalado pelo axé do Maracatu, um ritmo sincronizado salta a voz nas rodas dos blocos de rua: ba-ti-cum, ba-ti-cu-m. Onomatopéia melódica ao som do tambor que identifica e reconhece o poeta, arte educador, ator, batuqueiro e ocupador Antônio Viana Rocha. Do codinome Baticum, uma origem que guarda história e tradição: Maracatu Solar à Nação Pici, foi nos grupos de matrizes africanas onde Baticum se reconheceu como arte educador e fez do seu processo de aprendizado o caminho para a prática cultural.

O endereço dele é a rua. Na vitrola, toca o álbum ‘’Clandestino’’, de Mano Chao. ‘’Correr es mi destino’’, canta o verso da música, trilha sonora da conversa com o ocupador. Correr também sempre foi o destino de Baticum, que fez da necessidade de sobreviver na periferia a realização de alternativas transformadoras para mudar a sua vida e das pessoas nas comunidades da cidade.

Tudo começou da ideia de ser provocador cultural, com a criação do coletivo Provocações. Dessa vontade de provocar, nasceu em 2006 a movimentação Okupação, junto ao Sarau Okupação. Há três anos, a comunidade do bairro Antônio Bezerra se reúne na Rua do Amor para vivenciar a poesia de rua. Entre uma rima e outra, Baticum resolveu organizar um projeto de leitura comunitária, dando início em 2017 a Biblioteca Okupação. Unindo a comunidade, ele conseguiu realizar o primeiro Encontro de Sarau do Ceará, realizado no bairro do Conjunto Ceará. 

De lá pra cá, Baticum e sua Okupação já promoveram a Bienal Itinerante de Poesia, movimentando mais de 10 lugares de Fortaleza em um percurso com duração de dois meses. Da itinerância, ele também pensou o projeto Periferia Vive, que funciona como uma experiência escolar itinerante reunindo cerca de 60 a 100 jovens e crianças através da poesia, música e oralidade.  

‘’Somos também seres e sujeitos políticos, que têm suas particularidades e a sua importância para a sociedade’’

Como educador, Baticum atua em escolas nos bairros João XXIII e Jardim Iracema, acompanhando também as turmas de teatro no Centro Cultural do Bom Jardim e na Granja Portugal. Atravessou o Parque Universitário do Pici para construir a biblioteca comunitária Papoco de Ideias e escreve poesia nas ruas do bairro Autran Nunes, com a mostra competitiva Islam. No trajeto dos tambores e percussões, o arte educador está na ativa com a escola de ritmistas do Bloco Doido é tu, no bairro Rodolfo Teófilo. Circular pela cidade e emancipar as periferias através da sua arte é o combustível diário da “okupação” de Baticum. 

Entrevista

Vós – Qual é a história por trás do seu codinome, Baticum?

BaticumÉ uma onomatopéia. Ele vem do período em que eu participava muito dos Maracatus de Fortaleza. Comecei participando do Maracatu Nação Fortaleza, perto do Jardim América, depois participei do Maracatu Solar, Maracatu Rei do Congo, Maracatu Axé de Oxossi, Maracatu Vozes da África, Maracatu Nação Pici… Enfim, de 2006 até 2012 participei de muitos grupos do Maracatu e Afoxé de Fortaleza e o nome surgiu dessa minha participação nos grupos de matrizes africanas. Justamente por se tratar de uma onomatopeia que vem do ritmo ba-ti-cum, ba-ti-cum… ‘’O Baticum já tá aqui?’’, perguntavam. Como eu participava muito dos grupos de Maracatu e escolas de samba, as pessoas sempre viam eu circulando nesses espaços e começaram a me chamar de Baticum. Foi quando resolvi assumir o nome para mim. Antes não gostava muito, mas já que pegou, né?    

Vós – Você é arte educador. Como aconteceu o seu encontro com a arte e a educação?

BaticumO encontro começou no período em que comecei a participar do Maracatu, lugar onde eu me encontrei. Nós, que hoje somos ocupação, temos muito isso de pensar as coisas e ir fazendo ao mesmo tempo. Então foi um aprendizado que vivi muito na prática. De 2008 a 2012, fui me encontrando como um brincante nesses espaços e aos poucos me transformei em arte educador. Aos 22 anos comecei com a arte educação e na medida que adquiria os saberes e práticas, eu repassava para os outros. Me considero arte educador porque vivo para isso e vivo disso. O que eu aprendi, foi com os mestres de Maracatu e Afoxé. Tudo na prática. Como é uma cultura popular tradicional, a oralidade é uma constante. É uma arte que educa muito presente nesses processos culturais. 

*Fotos: Arquivo Pessoal/Baticum

Vós – Qual é o papel de um ocupador cultural? Por que você decidiu se tornar um?

BaticumDecidi ocupar por muitas circunstâncias. Passamos por situações difíceis mas a gente não tem tempo pra ficar lamentando ou reclamando.  Ao mesmo tempo que acontecem essas dificuldades, nós temos que buscar alternativas e meios para contorná-las. A ocupação veio para mim, da dor após o falecimento da minha mãe. Comecei a fazer o sarau, mas antes disso já tinha a ideia de ser um provocador cultural. Eu tinha um coletivo chamado Provocações, mas o movimento não era tão voltado pra essa questão base da cultura do popular. Após um tempo de vivência como arte educador, principalmente, nas escolas públicas das periferias de Fortaleza, comecei a sentir a necessidade de me aprofundar nisso. Sempre fui estudante de escola pública, nasci e vivo dentro desse espaço, então a minha identificação é total com isso. O único meio que percebi como potência realizadora tanto pra mim como, minimamente, para a minha comunidade, foi por meio dessas atividades de arte educação. 

Vós – O que constrói os valores culturais de uma sociedade? 

BaticumOs valores culturais são construídos na base, junto com quem a gente tá vivendo. Temos nossos valores culturais baseados na arte popular, buscando construir ideias e ações de maneira autônoma. Esses princípios são norteadores para as nossas práticas. Na sociedade com um todo, existem os valores que são construídos de cima para baixo, numa forma de imposição. Mas  estamos vivenciando um movimento contrário, onde alguns dos nossos e das nossas, estão ocupando lugares altos. Essas pessoas vivenciaram todas as dificuldades que a gente passa, usando isso como instrumento para reformular novos valores. Não somos uma sociedade única, então temos que buscar nosso reconhecimento a partir desses novos valores, para que todos nos vejam. Criando nosso valores culturais a partir de princípios norteadores como a autonomia, o consenso e a ajuda mútua, queremos que percebam a existência de outros valores culturais. Por dentro desse sistema, a gente acaba fazendo uma cocegazinha na consciência social das pessoas.    

Vós –  Como seria se tivesse que definir o que é arte periférica?

BaticumEu costumo dizer que a arte periférica não existe. Ela só é arte. A única coisa que diferencia a arte periférica, é o fato dela ser construída por pessoas que tiveram menos condições sociais, econômicas e políticas de acesso à bens culturais. É absurda a diferença de tratamento com os coletivos e movimentos artísticos realizados nas comunidades, em relação aos outros da cidade. Nós sabemos como isso reflete. Aqueles “acima” da gente, sempre vão procurar diminuir a nossa arte, inclusive, a taxando como uma educação social. Eu não me considero educador social. Muitos nos chamam de educadores sociais, mas nós somos artistas. Nós só não temos as mesmas condições e nunca teremos, assim como eles também nunca irão saber quais são as nossas condições ou compreender o que a gente passa por aqui.  A nossa arte é de micropolítica. É uma arte como ação direta, feita e vivenciada aqui na base e ao mesmo tempo sai daqui de dentro, pra ser visível em outros espaços da cidade. 

Vós – O que representa ser e estar na cultura periférica?

BaticumNós somos e estamos por uma necessidade. É ela que nos impulsiona. Nossa cultura é uma pouco diferente daquela que existe do outro lado da cidade. A gente acaba não seguindo os mesmo padrões. Por exemplo, a Okupação como Sarau funciona com uma liberdade, com um microfone aberto no meio da praça e a coragem das pessoas. Nossa arte e cultura se dá na participação ativa das pessoas. Não há uma separação entre aquele que faz arte e o que assiste. Existe um atravessamento e um diálogo muito constante entre todos nós. A arte feita na periferia, reflete a nossa própria vivência dentro dela. A nossa cultura é baseada na nossa busca por sobreviver. Com a nossa arte a gente afirma, todos os dias, o nosso direito de existir, sendo não apenas “periferia”. Nós também somos o Centro. Cada periferia é um centro. Somos centros sociais, com gente se relacionando em suas maneiras de existência. Somos centros econômicos, de onde as pessoas vivem e ganham sua renda. Somos centros políticos, diretamente refletindo e sendo reflexo da política. 

Vós – Em que pé se encontra, hoje, a arte da periferia cearense?

BaticumHoje a gente tá numa movimentação muito importante. Nós estamos mais organizados nas nossas atividades, mas infelizmente não somos unidos o suficiente. Através dessa organização estamos conseguindo realizar mais atividades e movimentos de forma conjunta. A organização reflete e mostra a nossa existência. Estamos conseguindo circular por todos os cantos da região cearense.  

Vós – Desde a década de 80, a palavra “periferia” passou por muitas mudanças semânticas. O que mudou desde quando você começou a ocupar, até hoje?

Baticum Semanticamente, a palavra ‘’periferia’’ foi agregando outros valores e essas mudanças ocorreram no sentido de afirmar que nós não somos e estamos nesse lugar de marginalizados. Somos também seres e sujeitos políticos, que têm as suas particularidade e sua importância para a sociedade. Essa mudança veio muito no sentido de despertar, né?  Despertar para sermos os sujeitos das nossas próprias histórias! A mudança que eu mais percebo, vem disso: nós nos tornamos os principais realizadores das nossas próprias ações. Participantes. Agora, nós somos sujeitos ativos, ativamente vivendo e contando nossas lutas. Nós não aceitamos mais a imposição dessa palavra para a gente, de uma forma colonizada.  

 *Fotos: Arquivo Pessoal/Baticum

Vós – Quantos e quais são os projetos em que você está envolvido?

BaticumNa minha adolescência fui do movimento estudantil e já realizava movimentações na Escola Antônio Bezerra. Depois de realizações como o Coletivo Provocações e o Movimento Okupa, nós tivemos a ideia de criar o “Okupação”. O que deu o início às atividades foi o Sarau Okupação, realizado na Rua do Amor, sempre na segunda sexta-feira de todo mês. Há dois anos, nós começamos a organizar melhor esse projeto de leitura comunitária com a Biblioteca Okupação. Conseguimos essa geladeira de leitura compartilhada para deixar na rua, aberta durante 24 horas por dia. Mais unidos, organizamos pela primeira vez o Encontro de Sarau do Ceará. Produzimos a Bienal Itinerante de Poesia, movimentando mais de 10 lugares da cidade com crianças e jovens das comunidades, durante os meses de outubro e novembro de 2018. Nós também realizamos o Periferia Vive, com a proposta de uma experiência escolar itinerante, reunindo cerca de 60 a 100 crianças e adolescentes através da poesia, música e oralidade

          

Vós – Hoje, em que regiões de Fortaleza você atua como agitador e educador cultural?

BaticumHoje estou dando aula no projeto da Prefeitura chamado “Integração”, atendendo duas escolas do bairro João XXIII. Também participo como professor de artes, de um outro projeto, o “Pró-técnico”, no Jardim Iracema. Estou na ativa com a Escola de Ritmistas do Bloco ‘’Doido é tu’’, realizada no Rodolfo Teófilo. Acompanho as turmas de teatro no Centro Cultural do Bom Jardim e com as crianças na Granja Portugal. Realizo a mostra competitiva de poesia chamada Islam, no bairro Autran Nunes. Além das atividades no Parque Universitário do Pici, com a biblioteca comunitária “Papoco de Ideias”. No Curió, estamos com a Biblioteca Livre; no Conjunto Ceará, com a Casa Voa e em Maracanaú, com o Sarau Bota o Teu. 

Vós – Quais são os teus desejos para o futuro da arte e cultura periférica cearense? 

BaticumÀs vezes a gente acaba nem desejando, focamos no pensar e fazer as coisas. Se foi possível realizarmos os encontros de saraus pela cidade, também foi possível a Bienal Itinerante de Poesia. Assim como estamos sempre aumentando o número de bibliotecas comunitárias livres pelos bairros. É possível nós mantermos cada vez mais esses espaços e atividades, levando o exemplo de ocupação e resistência para outras pessoas continuarem desenvolvendo mais ações na periferia. Organizados e unidos, conseguiremos transformar nossas vidas e dos outros ao nosso redor.  

Serviço

Baticum Emancipações Culturais e Artísticas

Endereço: Rua do Amor – Padre José Arteiro, 769 – Antônio Bezerra

Facebook: facebook.com/todaperiferiaeumcentro/

Contato: 98887-2425

Colaboradores

Flávia Bessa

Flávia Bessa

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Escolheu a Comunicação Social, pois acredita no comunicar mais acessível e representativo. E encontrou no jornalismo, o caminho para a (re)construção dessa nova forma de informar. Uma comediante em ascensão, provavelmente sempre terá uma piadinha pronta pra contar (e rir sozinha).

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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