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Histórias

Cidade 2000: um pouco do interior na capital

Por Luiza Carolina Figueiredo, Igor de Melo
26.abr
2016

Luiza Carolina Figueiredo foi à Cidade 2000 para saber por que o bairro é tudo de bom

Foi através do compartilhamento de um causo de bairro numa rede social que a Cidade 2000 veio à tona. Ao ser ressaltada a solidariedade dos moradores, admiradores e habitantes do local dividiram a admiração pelos vizinhos e a alegria em morar no lugar.

Com os relatos em mãos, restava ir ao bairro para ver de perto se a 2000 era mesmo tudo aquilo que os usuários da internet falavam. Munida de um bloquinho e na companhia do fotógrafo Igor de Melo, fui conferir se todos aquele calorosos depoimentos eram fatos ou boatos.

Construção




Antes disso, um pouco de História. Construído em 1970 como conjunto habitacional no Sítio Cocó para funcionar como uma espécie de cidade dormitório para os trabalhadores do entorno, a Cidade 2000 foi o principal indutor para o crescimento da zona leste, de acordo com a professora Maria Clélia Lustosa Costa, do deparamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará. “Na época, a região não tinha muita infraestrutura, o que só foi conseguido devido à mobilização da população”.

 

Cidade 2000 na década de 1970 (Foto: Nelson Bezerra)

Hoje a Cidade 2000 se diferencia de outros conjuntos que também viraram bairros. “O conjunto Ceará, por exemplo, é elite no entorno, o que não acontece com a 2000 que é cercada por bairros mais valorizados. E isso acabou deixando-a com um padrão melhor que o dos outros conjuntos”.

Visita

Chegando na Cidade 2000, fomos recebidos por Estácio Facó, o DJ que para nós foi “morador, anfitrião e guia”. Logo fomos levados para o centro da praça principal, local onde se encontra o mapa do bairro, no qual são vistas as quadras – ao todo, 46 – e as alamedas com seus nomes de flores. Também confere-se o formato de taça do conjunto, uma homenagem à Jules Rimet, troféu da Copa do Mundo recebido pelo Brasil em 1970. Em seguida, uma breve caminhada ao redor da “taça”, acompanhada de explicações sobre os principais pontos de convívio do bairro, as praças, bares e restaurantes. Prestatividade: confere!

Feitas as devidas apresentações, era chegada a hora de indagar os moradores sobre a 2000.

A primeira parada foi o Bar dos Otários. De portas abertas há 42 anos, o bar ganhou sua alcunha durante uma reunião de amigos. “Todo mundo falou um nome e ‘Otário’ é o que pegou. Mas aí a gente colocou o ‘s’, pois um amigo falou que se fosse sem, o otário era o dono”, lembra João Ribeiro Batista, 70, proprietário do estabelecimento.

Vindo “por acaso” do Mucuripe, João Ribeiro diz não pretender sair da 2000, local onde fez o pé de meia. “Aqui, as pessoas são excelentes. O bar está sempre lotado e não se vê uma confusão. Até mesmo em dia de jogo do Ceará”, ressalta citando o time do coração. “E a gente recebe todo tipo de gente. Aqui mesmo tem um advogado”, aponta. Seguindo na direção do dedo, vemos Geraldo Sousa, 63.

Geraldo mora no Mucuripe, mas todos os dias vai “bater o ponto” na Cidade 2000 por conta dos negócios e amigos. “Eu vinha morar aqui, mas não deu certo devido às circunstâncias”.

Ao lado dos Otários, há o Bar do Mesquita, administrado por José Forte de Mesquita, 67. Um pouco tímido, seu Mesquita elogia os frequentadores e expõe as regras do bar. “Meu pessoal tem um comportamento muito bom, só de brincar e beber. Aqui ninguém discute nem briga. E ‘papudim’ não fica muito tempo, não. Eu mando pra casa. E também não aceito gente sem camisa”.

Na parte externa ao bar, destaca-se a mesa de sinuca rodeada de pessoas esperando a vez de jogar. Em uma das cadeiras, com um taco na mão, está o eletricista César Oliveira, 48. Morador da Barra do Ceará, César diz ir à 2000 cerca de três vezes por semana. “É porque tem uns ‘cabra’ aqui que eu gosto, né? Também tenho muita admiração pelo dono do bar. Sem falar dos ‘patim’ [da sinuca] e eu posso beber às custas deles”, acha graça. Do outro lado da mesa e rindo da conversa do amigo está o empresário Antônio Adalberto de Andrade, 36. Ele conta que era neto da primeira moradora do bairro, Maria Dolores Correia Mourão.

Saindo dos bares e indo em direção à Outra Praça, nome pelo qual é conhecida a praça Leonan Onofre Cavalcante, encontramos Silvia Bazar, 36. Para ela, o que torna a Cidade 2000 especial é a acessibilidade. “Eu tenho uma filha surda-muda que ainda é cardíaca e aqui ela está melhor assistida porque o bairro tem de tudo e ainda é perto dos hospitais [São Mateus e Hospital Geral de Fortaleza (HGF)]. Sem falar que as pessoas são maravilhosas e me ajudam aqui comprando no bazar”.

Pontos de referência

Adiante, é vista a banca de revistas do Seu José Aldenor de Freitas, 86, também conhecido como o informador do bairro, uma espécie de patrimônio imaterial da 2000. Segundo nosso guia, Estácio, “seu Aldenor sabe de tudo, desde dar informações sobre as quadras até saber onde tem casa pra alugar”. O jornaleiro confirma: “eu sou o corretor do bairro”, brinca. Ele afirma saber o nome de quase todas as quadras. “O que eu não sei, olho no meu mapa”.

Chegando à Outra Praça, somos direcionados ao Ponto do Xerife. Hospitaleiro, o Xerife, ou Antônio José Silva Gomes, 68, é um dos moradores mais antigos do bairro e, provavelmente, o mais conhecido. “Aqui, se não me conhecem, já ouviram falar de mim. E todos têm respeito”. Ele fala que, apesar de cerca de 70% dos moradores não serem mais os mesmos que chegaram ao conjunto, ainda hoje é perceptível a cordialidade e solidariedade entre eles. “Você passa na rua e sai cumprimentando todo mundo. E, se tiver algum problema, é só bater na porta do vizinho que ele prontamente vai te ajudar. Poucas pessoas não vão”.

Morador do bairro há apenas um ano, o professor Edir Fonteles, 41, confirma a solicitude dos habitantes de lá. “Por causa das casas muito próximas, é muito fácil fazer amizade com os vizinhos e aí, se precisar de algo, é só pedir. Eu mesmo já dei garrafa d’água e xícara de açúcar. E como as pessoas se conhecem, quando acontece algo, elas se avisam, o que inibe os assaltos”, relata o professor enquanto olha as filhas – Alícia e Ana Liz Fonteles, de 3 e 9 anos respectivamente – brincando no parquinho da Outra Praça.

Para o professor, outra vantagem da localidade é o ambiente familiar, bom para as crianças. Entre uma corrida e outra, Ana Liz para para também dizer o que gosta no bairro. “Eu tenho amigos que vêm brincar comigo na pracinha e todos os brinquedos são divertidos”.

Praça gourmet

A visita à 2000 termina no ponto em que iniciou, na praça central, o Polo Gastronômico do bairro. Todo prato pertence a alguém: é acarajé da Baiana ou do Assis, bolo da Dona Lúcia, espetinho da Deusinha, pastel do Robson e da Cleide, cachorro-quente do seu Edson, espetinho do tio Tony e por aí vai. Por volta das 19h, já é possível ver a movimentação de pessoas nas filas de barraquinhas de comida, conversando ou degustando as iguarias do local. Entre um pratinho e outro, Jefferson Araújo, 43, do Eva Comida Típica, explica que se mudou para o bairro junto com os pais e decidiu ficar “porque o negócio aqui é bom”.

Há 17 anos à frente da barraca, ele conta que a pracinha é um dos principais atrações da Cidade 2000. “Quando eu vim pra cá, só tinha eu e mais dois permissionários. Hoje são 22”. Para ele, o bairro é quase autossuficiente. “Falta banco e correio. O resto, tem tudo”.

Em uma das mesas azuis da praça, o casal Jaciné Cidrack Neto, 45, auxiliar de vendas, e Alexsandra Cavalcante Cidrack, 45, auxiliar administrativa, terminam de comer, cada um, uma “coxinha da dona Lúcia”. Para o casal, a “praça gourmet” é uma das melhores características do bairro. “O atendimento é ótimo, o preço e a qualidade da comida”, defende Jaciné. “E o ambiente de ficar ao ar livre é muito acolhedor, o que não se vê muito por aí. Tanto que vem pessoas de fora para comer aqui”, completa Alexsandra.

A Cidade 2000 era um conjunto habitacional que virou bairro. Projetada para passar a imagem de futuro, o ambiente é quase bucólico e acolhedor como uma cidade pequena do interior. As pessoas andam e se cumprimentam nas ruas, conversam nas calçadas e têm as pracinhas como principal ponto de lazer. O bairro é um ambiente super agradável de se viver: confere!

Colaboradores

Luiza Carolina Figueiredo

Luiza Carolina Figueiredo

Ver Perfil

Apesar de jornalista, sonha com ficção e, por isso, fica animada em ouvir os causos dos outros - quem sabe não tira inspiração para um futuro romance? Acredita que, se escrever de tudo um pouco, um dia vai conseguir a história que realmente quer. Leitora compulsiva, está sempre com um livro ou HQ nas mãos (ou na bolsa). É meio tímida, mas tem um bichinho tagarela dentro dela que, quando começa a falar, quase não para. E se a conversa for geek, então...

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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