Vós

menu
Histórias

Como uma escola pública no Bom Jardim se tornou a melhor de Fortaleza

Por Luiza Carolina Figueiredo, Igor de Melo

Acredita em Vós

02.out
2016

Educação: uma questão de consciência

Quando o assunto é educação, nos deparamos com algumas máximas, dentre elas, “o melhor investimento para o futuro de um país” e “o Brasil ainda precisa avançar muito no ensino público”. Entretanto, algumas escolas públicas do Ceará estão dando passos importantes para reverter essa situação. Vós foi visitar uma delas. Confira!

No Grande Bom Jardim existe uma rua de nome meio engraçado, Estrada da Urucutuba, que dá lugar à Escola Municipal de Ensino Infantil e Ensino Fundamental Herbert de Souza. Por fora, um muro branco com as indicações de escola pública igual a tantas outras, mas basta passar pelos portões para perceber uma atmosfera diferente. Há um ar carregado no peito com orgulho, em forma de bottom, onde se lê “IDEB* 6,7 – 1º Lugar em Fortaleza”.

E como toda história tem um começo, o dessa escola foi com uma pergunta feita pela sua gestora, Luciana Cavalcante: “como é que eu poderia melhorar a condição das salas de aula e da aprendizagem dos meninos? Principalmente na leitura e na escrita.”

O primeiro passo foi fazer um grande diagnóstico da condição dos alunos para identificar quem não sabia ler e escrever, fazer contas ou tinha dificuldades de aprender. Saber onde preciso intervir para ter as competências mínimas de conteúdo.

“Começamos a fazer um trabalho com os professores e os funcionários, discutindo estratégias, porque a aprendizagem do aluno começa a partir da entrada pelo portão, passando pela frequência, lanche, contato com os amigos, professores e pais… É um conjunto. Aí, traçamos metas, sendo a maior delas a de que nenhuma criança saísse do 2º ano sem saber ler. No ano seguinte, passou para o primeiro ano. Depois foi sobre a defasagem, pois quanto mais velha a criança no período escolar, mais trabalho ela vai dar para frequentar. E as metas foram sendo batidas e evoluindo.”

Uma das estratégias foi o Sábado Alegre – a cada quinze frequências consecutivas, a criança tem o direito de ir para a escola, no sábado, para brincar. “Vem tomar banho de bica, usar o computador, brincar de corda, de bola. Porque, infelizmente, na área onde a escola está localizada, não tem espaço de brincadeira”. Outra, o sorteio de brindes através da Caixa Mágica, uma caixa que aparece em dias aleatórios nas salas em que estão com todos os alunos presentes.

A diretora também fala do contato com os pais, da insistência para que eles levem as crianças para a escola através de conversas, ligações ou visitas, “e o Bolsa Família. A gente faz garantir que o aluno perde se não frequentar as aulas. Porque se o programa gera um mecanismo, a gente tem que fazer valer. Mas, acima de tudo, é o contato. Vamos tentando amenizar todas as razões de a criança não vir para a escola”.

Para isso, Luciana conta com a ajuda dos funcionários, como a zeladora Alessandra Delfino. Como eles também são da comunidade, trabalham como uma rede de apoio no contato com a família dos alunos, procurando saber se eles estão precisando de algo ou tentando arranjar soluções para eventuais dificuldades.

Também fizeram parte das estratégias o acompanhamento do Paic (Programa Alfabetização na Idade Certa). “Existe um material próprio do projeto para o 1º e 2º ano. É um material sequenciado e adequado para esse trabalho, mais a formação de um professor. Então, fizemos com que isso realmente acontecesse aqui, intervindo, fazendo ações com período e meta”, conta a gestora.

Para as crianças com maior dificuldade, reforço escolar com monitores. “O aluno do 5º ano vêm no contraturno, duas vezes por semana, para ajudar o coleguinha do 1º ano a aprender a ler. Lógico, com um adulto responsável, que é a nossa professora Rosa”.

Francisca Rosa de Freitas é quem fica encarregada de orientar as atividades de reforço. “Faço a seleção das atividades de leitura e escrita. Oriento os monitores, que são crianças também, e digo o que eles devem fazer que é trabalhar primeiro o nome deles, depois as letras, as sílabas, a leitura de palavras, de textos, até chegar na atividade escrita”.

Duas Anas exemplificam como funciona o reforço. Ana Gabriela Justino, de 10 anos, é a encarregada de ajudar Ana Camila de Azevedo, de 7 anos. “A gente chega e a tia Rosa passa umas tarefas pra eu fazer com ela. Uma das atividades é que tem a foto da figura e ela pega as letras móveis pra formar o nome”, explica Gabriela. E no final da aula tem até brincadeira: uma competição para ver quem acha achar uma letra perdida de alguma palavras.

Trabalho em equipe

A diretora Luciana ressalta que os bons resultados são frutos do compromisso de toda a equipe, pois ninguém é capaz de fazer uma escola sozinho. “É nossa obrigação, como escola pública, formar alunos capazes, ou para o mercado de trabalho, ou para a universidade, ou para as artes. Nós temos que dá-los o mínimo de habilidades para que eles tenham equidade lá fora. Porque a gente briga muito por igualdade, mas não podemos dar igualdade para pessoas com histórias e origens diferentes”.

Para isso, a escola segue o lema: encontro, aprendizagem e transformação. “O que é melhor é que não é uma gestão. Nós estamos construindo nossa própria história. Pode vir o que vier que nós vamos continuar formando bons alunos, porque está no DNA da escola, é o trabalho dela e o que vai ficar na comunidade”.

*Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) é uma espécie de nota dada ao ensino básico do Brasil. As escolas recebem notas de 0 a 10, a partir dos dados sobre aprovação escolar e médias de desempenho em avaliações. Para o MEC (Ministério da Educação) a média 6 é o objetivo a ser alcançado no país até 2021. Em 2015, o Ceará contou com 77 das 100 escolas melhores avaliadas pelo índice.

Colaboradores

Luiza Carolina Figueiredo

Luiza Carolina Figueiredo

Ver Perfil

Apesar de jornalista, sonha com ficção e, por isso, fica animada em ouvir os causos dos outros - quem sabe não tira inspiração para um futuro romance? Acredita que, se escrever de tudo um pouco, um dia vai conseguir a história que realmente quer. Leitora compulsiva, está sempre com um livro ou HQ nas mãos (ou na bolsa). É meio tímida, mas tem um bichinho tagarela dentro dela que, quando começa a falar, quase não para. E se a conversa for geek, então...

Igor de Melo

Igor de Melo

Ver Perfil

É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

Comentários

Quer conhecer mais histórias como esta?


Cadastre seu email abaixo para receber matérias, novidades, eventos, e outras informações na sua caixa de email.

fechar