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Jesuíta Barbosa: muito ainda é pouco

Com Jesuíta Barbosa Por Claudia Albuquerque, Igor de Melo, Michele Boroh
06.set
2016

Os diretores de cinema e televisão se desdobram em elogios, os colegas de elenco aplaudem e o público confirma: Jesuíta Barbosa é o cara.

“Esqueceu de mim, foi?”, diz Ayrton (Jesuíta Barbosa) na porta do elevador, olhando para o irmão Donato (Wagner Moura) que não via há 10 anos. Entre socos e empurrões, a cena que se segue é umas das mais impactantes de “Praia do Futuro”, filme de Karim Aïnouz que em 2015 deu a Jesuíta Barbosa o prêmio de melhor ator coadjuvante pela Academia Brasileira de Cinema. Na história, Ayrton é também Speed Racer, um garoto de coração ferido que gosta de velocidade.

Dias que voam como pássaros pela janela talvez sejam a melhor imagem para descrever a rotina atual de Jesuíta Barbosa – se bem que rotina não é matéria para o seu bico. Tão rápido quanto um abrir e fechar de asas, o ator pernambucano descobriu que o tempo é uma questão de preferência. No caso dele, a primazia das horas recai sobre uma arte mutante que exige propulsão de voo: a interpretação.

De 2013 para cá, deixou o brilho de seus olhos castanhos-esverdeados em nove longas-metragens, alguns ainda por estrear: “Tatuagem” (de Hilton Lacerda), “Serra Pelada” (Heitor Dhalia), “Cine Holliúdy” (Halder Gomes), “Trash: a Esperança Vem do Lixo” (Stephen Daldry), “Jonas” (Lô Politi), “Reza a Lenda” (Homero Olivetto), “Malasartes e o Duelo com a Morte” (Paulo Morelli) e “O Grande Circo Místico” (Cacá Diegues), além de “Praia do Futuro”.

Entre um filme e outro, Jesuíta engrena vários papéis na televisão, como na adaptação de “Serra Pelada”, na minissérie “Amores Roubados”, no remake de “O Rebu” e, no início desse ano, em “Ligações Perigosas”, todos pela Globo. No próximo semestre, aparece em “Justiça”, de José Luiz Villamarin, ao lado de Marina Ruy Barbosa, Debora Bloch, Cauã Reymond, Cássio Gabus Mendes e Adriana Esteves. Villamarin também o dirige na série “Nada Será Como Antes”, em que o ator contracena com Bruna Marquezine. Em “Conto que Vejo”, dirigido pelo amigo Hilton Lacerda para o Canal Brasil, Jesuíta encontra com Hermila Guedes, atriz que admira desde que assistiu “O Céu de Suely”, de Karim Aïnouz.

Sertanejo morador de Copacabana, ave solta no mundo, Jesuíta Barbosa Neto nasceu há 25 anos em Salgueiro (PE). Mudou-se aos 10 anos para Fortaleza, cidade da mãe, onde começou a atuar em grupos de teatro, na escola, embora o pai bancário sonhasse com um filho advogado ou médico. Matriculou-se no curso de atuação Princípios Básicos de Teatro do Theatro José de Alencar e cursou Licenciatura em Teatro pelo Instituto Federal do Ceará. Estudou dança com Silvia Moura e trabalhou com o coletivo As Travestidas, junto ao ator e amigo Silvero Pereira.

No cinema, seu batismo foi com o curta-metragem “O Melhor Amigo” (2013), do cearense Allan Deberton, ao lado de Victor Sousa e Marta Aurélia. Apenas três anos e meio o separam daqueles tempos para os dias corridos de hoje. Para não ficar com a cabeça nas nuvens, gosta de escrever e faz diários de filmagens. É ansioso confesso, não se intimida com as cenas de sexo e tem um olhar que diz tudo. Seu carisma é de arrasar quarteirões, e o mundo da moda já descobriu isso: vestindo Burberry, Jesuíta foi recentemente fotografado por Bob Wolfenson para a capa da revista L’Officiel Hommes. Com tamanha força de ascensão e fôlego para peripécias, ele segue desbravando alturas.

ENTREVISTA:

Vós: Na intensa rotina de projetos tão diversos e contínuos (alguns realizados até quase ao mesmo tempo), o que te move ao selecionar oportunidades na TV e no cinema?

Jesuíta: O desenvolvimento da narrativa é a melhor forma de condução para um projeto, é um guia para toda a trama. A idéia é escrita e é onde iniciamos o caminho. Gosto de ler os personagens junto ao enredo, e perceber possibilidades de mudanças na história também é importante, porque é aí que se inicia o processo criativo.

Vós: Em dois anos, você já está no sexto trabalho sequencial para uma grande emissora de televisão. Como avalia a visibilidade desses trabalhos?

Jesuíta: A televisão é um veículo bastante difundido no Brasil e no mundo inteiro. Entendo que esse ambiente é um projetor de idéias, de fundamentos, e por isso precisa estar rico em cultura, em desenvolvimento cultural humano. Vejo que algumas produções trazem esse intento na ideia e na realização, vejo que o Nordeste tem sido retratado como nunca antes, com a tradição e os costumes que lhe são genuinamente atrelados. A televisão é uma plataforma de trabalho artístico e pode assumir a função libertária como qualquer outra. Talvez algumas produções e, principalmente, o jornalismo não cumpram esse papel. O que é preciso é somar essa audiência à boa matéria de cultura e sua difusão.

Vós: No início do ano, você esteve na adaptação do clássico literário francês Ligações Perigosas para uma minissérie e também se apresentava no cinema como integrante da gangue motoqueira pelo lançamento nacional do longa Reza a Lenda. Como foi se rever em trabalhos tão distintos?

Jesuíta: São trabalhos bem diferentes, feitos em datas distintas e lugares diferentes. A atmosfera muda, muda a paisagem, as pessoas, o clima, a personagem muda. Me interessa muito perceber as diferenças mas também, e tão quanto importante, as semelhanças.

Vós: Você trabalha de novo com o diretor José Luiz Vilamarim em duas novas minisséries esse ano, ambas com previsão de estreia para o próximo semestre. Pode fazer um paralelo entre ter feito com ele Amores Roubados e O Rebu em 2014, e as expectativas pelas novas produções em Justiça e Nada Será como Antes?

Jesuíta: Estamos ganhando bastante intimidade, essa intimidade faz o set andar de uma forma mais atenciosa e intensa no diálogo com o diretor e toda a equipe. Tenho tido experiências muito boas com o Zé Luiz, com Walter Carvalho, com o Chico Accioly, com atores que estão sempre se reencontrando e podendo experimentar outras possibilidades no jogo de cena. Encontrei com o Zé pela primeira vez no romantismo do Fortunato de Amores Roubados e agora no Justiça estamos trabalhando uma personagem mais contrastante e furiosa.

Vós: Em Justiça você contracenará com duas jovens artistas em ascensão: a Marina Ruy Barbosa e outra que é uma revelação no cinema, a Camila Márdila (de Que Horas Ela Volta?). Como foi o início das filmagens no Recife

Jesuíta: Preparamos com o Chico (Accioly, preparador de elenco) durante algumas semanas no Rio com base em improvisos que renderam muitas respostas e também questões para a criação das energias de cada personagem. Ali encontrei Camila e todo seu carinho e talento. Filmamos no edifício Holliday, que é um subúrbio vertical em Boa Viagem. Esse lugar foi importante pra iniciar a estória no desconforto de um lugar com uma estrutura difícil, de grande contraste social, que fez a equipe toda entender a simplicidade necessária para o projeto.

Vós: Além da oportunidade de viajar, conhecer outras regiões, países e culturas – que você diz ser um dos deleites de alguns trabalhos –, também fala que o sertão pernambucano sempre o chama de volta. Como é o intercâmbio entre o Jesuíta nordestino e suas vivências mais urbanas?

Jesuíta: O Nordeste habita em mim, as paragens do sertão central, as pessoas boas que estão lá habitam em mim. Toda a minha cultura tem base sertaneja, por isso é difícil dividir a mim mesmo em muitos – as personagens são tentativas. Continuo caminhando e conhecendo gente e dando importância a essa gente, daí volto e conto pros meus sobre o que tenho aprendido.

Vós: Por falar nisso, como foi gravar também no sertão do Pajeú (PE) a série Conto que Vejo, e novamente ser dirigido por Hilton Lacerda, três anos depois de fazerem Tatuagem?

Jesuíta: Encontrar Hilton é sempre bastante intenso porque a inteligência dele não é mesquinha, está junto a uma delicadeza de ações que me impressiona. Filmamos em Triunfo o Conto que Vejo, uma estória bem maravilhosa de um ou vários universos possíveis. Existem ainda outros universos onde quero encontrar Hiltinho.

Vós: Você ainda estará no filme O Grande Circo Místico, dirigido por Cacá Diegues, uma lenda do cinema nacional. Que tal a experiência?

Jesuíta: Tenho muita honra em fazer um filme com o Cacá, admiro a obra dele como um menino que olha pinturas e se perde nelas.  O Grande Circo Místico está em finalização. Foi bom estar perto de tantos atores intensos.

Vós: No longa-metragem Malasartes e o Duelo com a Morte, como foi protagonizar um personagem cômico tão icônico da cultura brasileira?

Jesuíta: Em evidência ficou a leveza de uma figura que não se detém aos maus casos da vida, não para em tempo ruim, mas transforma esse tempo, inverte a fórmula. É a esperteza do homem matuto, do caipira, que age com idéias simples e grandiosas.

Vós: Você mora em Botafogo, no Rio de Janeiro, mas distingue que Fortaleza é o seu verdadeiro refúgio, inclusive ainda mantém parte das suas coisas na casa da sua mãe. Como é ter essa dupla residência?

Jesuíta: É grande, imenso o prazer de estar em Fortaleza com minha família, de poder me sentir novo ao chegar e renovado ao sair. A minha residência é o meu corpo, o meu lugar é o mundo.

Vós: A admiração e o reconhecimento determinantes pelo início de carreira junto ao Silvero Pereira e no coletivo As Travestidas, aqui em Fortaleza, são sempre referenciados por você.

Jesuíta: O As Travestidas está trabalhando bastante em Fortaleza e no Brasil todo, até na Alemanha tem solo do grupo acontecendo. Sinto orgulho em ter amigos desse coletivo, porque me inspiram a idéia de liberdade que procuro seguir e defender.

Vós: Você também já acenou o desejo de desenvolver e até dirigir um projeto próprio. Em qual segmento seria e como estão os preparativos?

Jesuíta: Quero dirigir cinema. Experimentar ficar por trás da câmera, trabalhar com a condução dos atores. Eu sou tão novo, nós temos tanto tempo…

Vós: Quando você descobriu que poderia ser ator?

Jesuíta: É descoberta constante porque atuar não é como uma profissão exata. Eu pequeno corri para os caminhos do teatro, conheci tipos os quais eu optei por estar perto, porque vi que me faziam bem.

Vós: Você é cinéfilo? O que gosta de assistir?

Jesuíta: Não sou cinéfilo, mas vejo filmes. Gosto de ver clássicos e me atualizar com a história do cinema, gosto de ver filmes de ator, feito em função da atuação – talvez daí venha minha paixão por atuar. Gosto de dramas realistas.

Vós: O que acha do cinema produzido hoje no Brasil?

Jesuíta: Admiro bastante do que tem sido produzido, filmes como Boi Neon me fazem brilhar os olhos. Sempre assisto, procuro assistir, trabalho com isso. Faz bem ver cinema.

Vós: E o teatro, como é sua relação com o que vem acontecendo na cena?

Jesuíta: Estou um pouco longe desse contato prático com o teatro de cartaz, esse de ficar em cena com uma peça durante um tempo, me faz muita falta. Mas sei da certeza minha de querer fazer, por isso vejo sempre teatro, que nunca saiu de mim, tenho todas as ferpas.

Vós: Como você garante tempo livre e o que gosta de fazer quando não está fazendo nada?

Jesuíta: O conceito de liberdade é realmente muito instável, difícil de ser explicado. Percebo meu tempo livre sempre como o de agora, portanto quando não estou fazendo nada, tento não procurar algo para fazer. São as pequenas coisas…

Vós: Qual é o lugar mais bacana que você conheceu ultimamente?

Jesuíta: Conheci Portugal e me apaixonei.

Vós: Que papel seria uma aventura radical e estimulante?

Jesuíta: O Malasartes e o Duelo com a Morte foi uma aventura muita gostosa de fazer.

Vós: Qual a Fortaleza mais marcante na sua memória?

Jesuíta: Fortaleza no pôr do sol.

Vós: Qual seria um sonho, se você pudesse realizá-lo agora?

Jesuíta: Tem sonhos que são incríveis no inconsciente, num lugar que não pode se aproximar do mundo real, alguns me fazem tão bem… Agora eu queria um abraço do meu amor.

Colaboradores

Claudia Albuquerque

Claudia Albuquerque

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Claudia Albuquerque é jornalista e sempre colecionou blocos de anotações. Adora ouvir histórias da vida alheia e escrever sobre elas. Acha uma sorte ter escolhido essa profissão e concorda com o escritor húngaro que comparou o português a um “idioma de passarinhos”.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

Michele Boroh

Michele Boroh

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Nasceu no Dia do Jornalista. Aos 9 criou o Jornal dos Amigos do Prédio, em folha de caderno e à base de canetinha. Agora, aos 32 e após 8 em TV, é coordenadora e editora de VÓS, com a mesma paixão da infância. É também cronista no Tribuna do Ceará e no Medium, viciada em livro, cavaquinista de churrasco e mãe de um Bull Terrier. Ariana, de sol e lua.

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