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O nome, a voz e o elo do rock cearense

Com Maurilio Fernandes Por Leilane Freitas, Igor de Melo
06.mar
2018

Ex Switch Stance, atualmente assume os vocais da Rocca Vegas e segue com produção musical. A história de Maurilio Fernandes se confunde com a trajetória do rock em solo cearense.

A terra do forró também guarda seus amantes do estilo musical popularizado por nomes como Chuck Berry, The Beatles e Rolling Stones. Maurilio foi um dos caras que deu o pontapé inicial para que as bandas de rock de Fortaleza tivessem a oportunidade de gravar seus trabalhos e, consequentemente, divulgá-los a um público sedento por novidade.

Pai de quatro filhos, o produtor musical nasceu em Belém do Pará e morou por um tempo em Manaus. “Nasci fora daqui por um simples acaso. Meu pai é cearense e foi pra Belém por causa do trabalho, mas já tem mais de 30 anos que resido em Fortaleza”. Aqui estudou Engenharia Elétrica na Universidade de Fortaleza (Unifor) e Música na Universidade Estadual do Ceará (UECE) – a sua verdadeira paixão.

Como um bom adolescente dos anos 80, Maurilio aprendeu a andar de skate, surfar e embarcou de corpo e alma nesse universo. Assistia aos filmes de esporte e – como ele mesmo diz – “pirava” nos sons que descobria; com o seu microsystem começou a gravar as trilhas sonoras. “Com isso meu fascínio por música só foi crescendo. Criei verdadeira paixão por vinis, comecei a encomendar de fora e assim fiquei conhecido entre os meus amigos como o cara que tinha os melhores sons, que tinha os sons que ninguém mais tinha”.

Então ele fazia uma espécie de troca com a turma, de som e de conhecimento. Foi quando começou a arranhar algumas músicas no violão. “Aprendi três músicas e com 18 anos decidi montar uma banda com alguns amigos. Pegava a galera e o equipamento com o meu Chevette Junior e íamos pro local de ensaio para tocar três músicas, as únicas que aprendi. Essa banda não durou muito, só fizemos uns quatro ensaios. Pra mim aquilo foi surreal, maravilhoso”.

Em meio a isso, começou a compor suas próprias músicas, e foi quando conheceu os membros da Switch Stance. “Entrei pra tocar guitarra, só depois acabei assumindo os vocais. Eles já tinham músicas próprias e logo começaram a tocar as que eu tinha composto. Achei isso o maior barato”.

Em 2001, ele criou o selo Empire Records, que foi responsável pela gravação do primeiro álbum da banda formada em Fortaleza em 1996 e que teve seu ápice entre os anos de 2003 e 2004, quando ganhou notoriedade em todo o território nacional. Junto com a Switch Stance, Maurilio subiu ao palco de festivais como Ceará Music, Porão do Rock em Brasília, Abril Pro Rock em Recife e abriu os shows da turnê brasileira da banda The Offspring.

Entrevista

Vós – Você foi primeiro músico ou produtor musical?

Maurilio Fernandes – Sou um músico que se tornou produtor musical. É simples responder isso. Tudo o que eu fiz foi no sentido de me aperfeiçoar. Eu notava que muita coisa acontecia no mundo e aqui as oportunidades eram escassas, então decidi correr atrás da minha própria história, trilhar meu próprio caminho e fazer a minha sorte. Mergulhei de cabeça, estudei os setores de tudo isso, desde o comecinho na Empire: criando selos, fazendo shows, turnês, festivais. Tudo isso pra fortalecer a minha banda. Com isso eu fui vendo o potencial do mercado e comecei a investir nele. Tudo isso vai se entrelaçando na minha história na música. Hoje em dia eu sobrevivo da produção musical, mas não largo a banda de maneira nenhuma.

Vós – Como começou a história da Empire?

Maurilio – Em 1999 eu fiquei desempregado porque a panificadora onde eu trabalhava fechou. Um dia fui visitar a loja de um amigo, Gerardo Gadelha, chamada Empire Records, e ele me convidou pra trabalhar lá pois eu conhecia muita coisa sobre música. Fiquei como vendedor e gerente de pedidos importados. Em 2000, a loja decidiu fechar as portas e o Gerardo me perguntou o que eu ia fazer, e eu disse “cara, vou montar um estúdio ou uma gravadora porque eu quero lançar alguns discos”. Ele gostou da ideia e resolveu entrar de sócio comigo. Montamos a gravadora e lançamos mais de 35 títulos: Jumenta Parida, Switch Stance, Capones e até de um banda holandesa chamada Travoltas. Com um ano e meio o Gê saiu e eu toquei o barco sozinho. De lá pra cá, a Empire já passou por várias transformações e hoje tenho uma equipe de profissionais ao meu lado. Além de produção, temos uma casa de shows, Berlinda Club, onde também funciona o nosso escritório.

Vós – Por que decidiu criar o selo e entrar também pra esse mundo dos bastidores?

Maurilio – Senti que precisava movimentar as coisas. Eu não queria esperar por ninguém pra lançar os trabalhos da Switch Stance. Pensei: “vou fazer eu mesmo então”. Lancei o selo e em contrapartida isso abriu oportunidade para lançar vários artistas daqui. Tinha muita gente boa fazendo som de qualidade e existia pouca oportunidade por aqui. Então lancei vários discos de bandas de Fortaleza e comecei o trabalho de distribuição com os outros selos e lojas do país.

Vós – E o que é a Empire hoje?

Maurilio – A gente gosta muito de falar que a Empire é realizadora de sonhos, porque não é um estilo que é popular. Se você for ver os shows que a gente fez, são shows que há uns 10 anos você diria que seria impossível de trazer: Motorhead, Bad Religion, os Ramones vivos – todos eles vieram e a gente que trouxe pra cidade. Então tem essa pegada da gente tá muito conectado com o que a gente é. Já fizemos algumas coisas mais comerciais, mas não funcionou muito. Tipo: “vamos fazer aquilo porque é aquilo que dá dinheiro”. Mas não foi a nossa onda. Em 2006, começamos o Ponto CE, que existe até hoje. É um festival de dança, música e audiovisual. Produzimos também o Green Day Eco Festival, foram três edições. Estamos trabalhando há quase 10 anos investindo em show internacional e já trouxemos muitos nomes. Essa é a história da Empire, a gente busca trazer oportunidades e sempre se renovar. Por exemplo, desde o ano passado decidimos investir em um mercado que estava esquecido. Vamos lá. A gente acredita que o pop rock tá em um limbo, né?! Os ritmos populares são outros. A galera tá ouvindo muito funk, por exemplo. Isso falando da grande massa. Foi percebido isso e foi desenvolvido um trabalho da Empire junto com artistas de bandas como CPM 22, Detonautas, Barão Vermelho, Raimundos… Pra resgatar o público dessa galera. Ano passado produzimos uma série de turnês com essas bandas com o objetivo de reacender a chama do rock e pop rock brasileiros.

Vós – Como foi pra você encarar o fim da Switch Stance?

Maurilio – Primeiro foi um pouco difícil lidar com o público, muita gente achou que foi por culpa minha. Principalmente quando surgi com a Rocca. Mas a verdade é que todos os outros integrantes decidiram que era hora de focar em outros objetivos. Quando a Switch Stance acabou, virei a pior pessoa. Eu consegui trazer os melhores shows que Fortaleza podia ver na área do rock. Trouxe o Motorhead, Bad Religion, entre outros. Mas estava muito desestimulado e só pensava em dinheiro. Isso entre 2006 e 2009. Perdi o romance sobre as bandas daqui, sobre o que é tudo isso. Até que vi que isso não era certo, que não tava feliz. Encarava as coisas de maneira equivocada. Senti que eu ia morrer, sério. Foi quando me dei conta de que eu precisava estar em cima do palco, então montei a Rocca Vegas e tudo mudou. Me transformo quando eu tô em cima do palco. Isso me completa, me faz bem.

Vós – Muito se fala sobre uma crise do rock, há quem diga até que é em todo o mundo. Qual a sua leitura sobre esse atual momento?

Maurilio – Não enxergo que seja mundialmente. Enxergo que é uma crise brasileira. Acho que existe uma mudança de comportamento das pessoas, principalmente no Brasil, que tá desconectando a história do rock and roll. Não acho que é no mundo, porque se você for ver existe um mercado muito forte em países como Alemanha, Suécia e Estados Unidos, por exemplo. Existem festivais só de rock, que é o caso do Rock am Rings, do Wacken Open Air … Enfim, há vários. Observo que no Brasil o rock tá passando por uma fase muito delicada de transição. Porque assim… Vamos lá: o que é o rock? Rock é atitude, é revolução, força de expressão. Tá muito ligado a isso. E no Brasil, atualmente, essas características estão muito ligadas ao gênero. Os artistas mais expressivos hoje em dia no Brasil quem são? Temos Pablo Vittar, Liniker. Muita gente que ouvia rock, hoje se identifica com esses artistas. Acho que o comportamento tá muito ligado a isso. É meio que uma crise de hábito, acho que é isso. Isso é uma parte do que eu posso observar. Existe uma segunda que observo onde há uma cadeia produtiva de novos artistas, que estão fazendo o novo rock no Brasil que, meu deus… É excelente e está em ebulição. Existem bandas como Supercombo, Far from Alaska, Medula, Vivendo do Ócio, o próprio Rocca, os meninos daqui, Selvagens à Procura de Lei, Projeto Rivera… Bom, tem muita gente fazendo coisa de qualidade. E tá havendo uma junção de novo daquela filosofia lá de trás de conectar essa galera, de juntar essa bandas e fazer turnê e assim conseguir divulgar o trabalho pro público. Esse momento que tá acontecendo no Brasil já aconteceu na Inglaterra e foi feita uma estratégia política-social pra música inglesa, que aí deu uma guinada. Por outro lado, acho que o rock brasileiro tá muito rico de composição, tem grandes artistas. Mas esse lance de atitude, hoje, vem muito mais sobre a força de expressão do gênero, da liberdade de poder ser quem é. Acho que se o rock se envolvesse mais em falar sobre isso, acho que se encaixaria com esse novo hábito de consumir a música.

Vós – Falando nisso, como você encara essa nova maneira de consumir música, com os serviços de streaming, o Youtube e afins…

Maurilio – Acho que a onda da informação tá nos acelerando mais. A nossa cabeça tá funcionando a mil por hora, a gente tá aqui com o celular e existe um mundo de vários assuntos, de vários tipos de conteúdo. E isso é lindo, é maravilhoso. Mas existe um outro lado. Se você faz uma música, ela vai ser consumida sabe em quanto tempo? O mínimo possível. Antes eu comprava um CD e ele ficava meses tocando no meu carro. Eu curtia mais, me identificava e me conectava mais com a banda. Olhava o encarte, pirava com os agradecimentos. Eu uso o streaming, claro. Acho incrível porque tá tudo ali na palma da minha mão. Eu sou muito old school, mas estou passando por essa transformação como todo mundo. Não escuto mais uma banda com o mesmo envolvimento que antigamente. Ainda fico assustado com a quantidade de coisa que é criada e como rapidamente fica velho. Mas tá tudo ali à nossa mão, pra gente ver e ouvir o que quiser, e isso tem pontos positivos e negativos. Vamos todos, me incluo nisso, aprendendo a lidar com eles.

Colaboradores

Leilane Freitas

Leilane Freitas

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Já se aventurou pelo mundo do teatro e da dança. Escrevia no jornal da escola mas ainda não sabia que escolheria isso como profissão. Acredita no jornalismo como uma maneira de mostrar o lado positivo dos pequenos detalhes da vida. Procura enxergar coisas boas em tudo, mesmo nas piores intenções. Decidiu escrever porque, aparentemente, falar sozinha não parece ser coisa de gente em sã consciência.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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