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Histórias

Um minimuseu de arte, memórias e generosidade

Com Rachel Gadelha, Paula Machado, Lúcia Ferreira Por Jonathan Silva, Igor de Melo
16.jan
2020

Ao lado da linha férrea do Mondubim há um terreno grande, delimitado por muros baixos e árvores de todos os tamanhos e espécies. Ambiente bucólico que replica o clima interiorano da primeira metade do século XX. Mas estamos em 2020, e nesse terreno há uma casa que vence o tempo há cinco décadas. Os donos não moram mais aqui, mas sua marca permanece. Seus nomes estão preservados na entrada: Residência Ecológica Cultural de Nicestrigas, hoje oficialmente nomeada de Minimuseu Firmeza.

O lugar mistura residência com museu de arte. É o segundo legado do casal de artistas plásticos cearenses Maria Nice (1921-2013) e Nilo de Brito Firmeza, o Estrigas (1919-2014). O primeiro legado, obviamente, foram as obras que os dois produziram em vida. Estrigas ia do figurativo ao abstrato em suas pinturas; já Nice era dedicada à arte naïf, estilo que valoriza a simplicidade e espontaneidade das cores e traços frente ao rigor das técnicas acadêmicas.

Para uma casa com estrutura tipicamente interiorana, seu conteúdo é vanguardista e variado em produtos culturais. São três salas de exposição: Arte & História faz uma cronologia das artes plásticas no Ceará; Arte & Afeto compila obras doadas por amigos e crianças que eram alunas de Nice; já a sala que leva o nome dos donos mostra parte do conteúdo produzido pelo casal desde o final da década de 1950. Os demais cômodos, como o quarto e o ateliê pessoal de Estrigas, também estão abertos ao público.


Atualmente o espaço é gerenciado por Rachel Gadelha, sobrinha-neta de Estrigas e gestora do Cineteatro São Luiz, junto da historiadora Paula Machado e da professora de bordado Lúcia Ferreira. Paula é responsável pela preservação do legado histórico e material do casal e de demais artistas cearenses – cerca de 500 obras – que variam entre pinturas, desenhos e esculturas. Lúcia mantém viva a aprendizagem de bordado para mulheres da comunidade, da mesma forma que aprendeu com Nice.

Reunidas, cada uma delas tem histórias particulares de como conheceram Nice e Estrigas e de como o Minimuseu Firmeza as afetou de alguma forma.

“Um local de existência e resistência”

É na cozinha da casa, entre um café e pedaço de bolo, que as três vão compilando as histórias, curiosidades e fatos não muito conhecidos do casal “Nicestrigas”. Rachel, das três a única com parentesco direto, puxa lembranças da infância para relatar como era passar o tempo com os tios.

“Eu tenho recordação de criança: sábado e domingo, se você chegasse aqui a qualquer hora, de manhã ou de tarde, tinha gente visitando. Eram famílias, pessoas interessadas, mães de jovens pintores.” Próximo deles já moraram a família de Aderbal Freire Filho, diretor teatral e apresentador de TV, e da escritora Ângela Gutiérrez – “vivia aqui”, garante Rachel.

As relações artísticas vem desde a década de 1940. Estrigas e Nice, casados desde 1961, eram egressos da Sociedade Cearense de Artes Plásticas, a SCAP, fundada em 1944. Entre os “scapistas” (como eram chamados os integrantes da sociedade), havia os artistas Aldemir Martins, Raimundo Cela e Barrica.

Com o fim da sociedade, em 1958, os artistas ficaram “meio soltos”, como lembra Paula. Quando Estrigas, um odontólogo formado, saiu do Centro para morar na casa dos pais junto com Nice, no Mondubim, montou um ateliê com obras próprias e de outros artistas da SCAP. Foi em 1969, como forma de unir os artistas em um espaço, que o Minimuseu Firmeza foi aberto ao público com exposições e encontros de artistas e admiradores da arte.

A visão de Paula é de que a iniciativa foi pioneira numa época onde não existiam tantas políticas públicas para arte e cultura. “Eu vejo muito que o Minimuseu nasceu para ser esse espaço tanto de sociabilidade para esses artistas como também de produção artística mesmo.” Não somente a classe artística visitava a casa, já que esta ficava aberta a toda vizinhança. “Eles (Nice e Estrigas) ofereciam frutas e trocavam plantas com a comunidade”, lembra Rachel.

A coletividade diz muito sobre a personalidade simples dos dois, como Rachel faz questão de destacar, entre outras características. “A tia Nice era mais, assim, intuitiva. De uma certa forma, o tio Estrigas era mais racional.” De Nice, a lembrança é de uma mulher conectada com a natureza e com visão mais ampla sobre as coisas. Estrigas era mais racional e preciso nas ideias e desprendido nas ambições.

A palavra mais utilizada entre Rachel, Paula e Lúcia para categorizar o casal é generosidade. Foi o que permitiu que o Minimuseu estivesse aberto por tanto tempo. Do que recebiam da aposentadoria – Estrigas como dentista e Nice como professora -, investiam na casa. Segundo Rachel, o tio se vangloriava por sua casa ser “o único museu do Brasil que não tinha funcionário nenhum.”

Nice faleceu aos 91 anos, em abril de 2013. No ano seguinte, em outubro de 2014, Estrigas morre aos 95 anos. O pintor fez questão de ser enterrado no terreno do Minimuseu, aos pés de seu baobá. Mesmo idosos, ainda estavam em plena efervescência cultural, como garante Rachel.


A nova fase

Em 2012, Paula,recém formada em História, conheceu pela primeira vez o Minimuseu Firmeza através de um convênio do espaço com a Secretaria de Cultura de Fortaleza. Como os donos estavam bem idosos, precisavam de alguém para cuidar do legado da residência. O primeiro olhar da historiadora sobre o lugar foi inesperado.

“Quando eu vi essa casa parecia um ateliê; eu não via uma casa, e sim um grande ateliê. Era quadro por todos os lugares. Eu, de cara, gostei demais pra ficar aqui.” Mesmo com a exoneração de seu cargo, e a morte de Nice e Estrigas, Paula ainda continua no Minimuseu, trabalhando na digitalização de obras, elaboração de projetos, visitas guiadas e manutenção do acervo bibliográfico da casa.

Lúcia, que já conhecia Nice (a quem ela e Paula chamam de “Dona”) desde 2004, acrescentou à casa uma outra paixão da pintora: o bordado. “Para começar, o bordado dela era muito especial. O bordado dela não existe; nenhum desenho em livros e revistas se assemelha ao dela.” A professora tomou para si a missão de preservar o “bordado de Dona Nice” repassando em oficinas para as mulheres do Mondubim, tal como a artista fazia antes.

Antes de falecer, Estrigas conversou com a sobrinha sobre o destino do espaço. E foi extremamente direto. “Ele preparou tudo, e falava explicitamente com a gente. Comigo ele deu atribuições, dizendo assim: ‘olha, tenta manter isso aqui. Se der uns três anos e você não conseguir, vende tudo, acaba tudo e pronto’.” Dificuldades de gestão, ela admite, já instigaram o pensamento de desistência. Só que a importância de preservar o Minimuseu ainda fala mais alto.

“Aqui tem um detalhe: todo mundo que vem aqui se emociona, sente. Parece que é transportado para a casa da vovó no meio da cidade. As pessoas têm muita empatia. Agora realmente a gente tá precisando transformar essa empatia em ações concretas para que esse espaço não fique na memória.” Financeiramente, o desafio de manter a casa vem sendo vencido graças a iniciativas públicas e privadas.

O ano de 2019 foi especial para a família Firmeza: no dia 19 de setembro foi comemorado o centenário de Estrigas e, em dezembro, o Minimuseu Firmeza comemorou seu meio século de existência. Tal como a receptividade típica do interior, a casa-museu segue de portas abertas, com a mesma generosidade que seus antigos donos transformaram em arte.

SERVIÇO

Minimuseu Firmeza

Endereço: Rua Waldir Diogo – Mondubim, Fortaleza – CE
Telefone: (85) 9 9989-4009
Site: minimuseufirmeza.org
E-mail: [email protected]
Facebook: @minimuseufirmeza
Instagram: @minimuseufirmeza
Horário: 08 às 17 horas

Colaboradores

Jonathan Silva

Jonathan Silva

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Garoto diferentão do Bom Jardim, entrou no Jornalismo com a intenção de escrever sobre música, uma paixão herdada da mãe. Hoje usa essa ferramenta para escrever sobre o cotidiano, a cidade, pessoas especiais, artes, fatos marcantes e a luta nossa de cada dia pela dignidade. Se não fosse jornalista, com certeza seria um astro insano do rock.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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