Vós

menu
Inovar para Crescer

Mudança na ponta do pé com os sapatos veganos da Borandá

Com Olga Moara Por Flávia Bessa, Igor de Melo, Gabriel Lage

Acredita em Vós

19.nov
2019

No meio do Centro de Fortaleza, uma casa colorida chama a atenção de quem passa na rua. O contraste entre as cores vibrantes da porta e janela é um convite aos olhos dos mais curiosos. É ateliê e lar. Quem mora e trabalha ali é a artesã cearense Olga Moara, a mente e as mãos por trás da produção artesanal e vegana da marca de sapatos Borandá.

Quando falamos de sapato, automaticamente relacionamos a peça do vestuário com a Moda, mas a história de Olga Moara nada tem a ver com a indústria fashion. Suas mãos são marcadas pelo gosto de fazer e usar as suas próprias coisas, da luminária do quarto ao vestido que usa, e reluta em dizer que o que faz é Moda. ‘’Nunca estudei a indústria e realmente só sei da moda o que eu quero ter no meu corpo. Acredito numa moda em que a gente consiga fazer parte da criação dela, que a moda se encaixe a mim, não que eu me encaixe à moda’’.

Nadando contra a corrente da “ditadura fashion”, a artesã escolheu a perspectiva do que é feita de forma local, mirando um olhar para além das tendências. Oceanógrafa por formação, ela se tornou artesã por acaso, quando ainda estava na faculdade, em meados de 2014. A princípio, a prática artesanal surgiu apenas como uma forma de ganhar um dinheiro extra. Na época, todo o trabalho foi dividido com uma amiga, que também virou sócia. Depois houve uma pausa no trabalho durante o período em que as duas amigas embarcaram num intercâmbio acadêmico. Quando Olga retornou de viagem, assumiu a Borandá de forma independente e assim segue até hoje.

Por enxergar a marca como pequena e não modal, as peças são feitas em pequena escala. Rola uma exclusividade, cada sapato é único na Borandá. Nesse caminho, Olga se encontrou na produção artesanal vegana e por encomenda. ‘’É artesanal porque eu acredito muito em coisas produzidas fora da indústria; vegana por não utilizar nada de origem animal nas composições dos sapatos, e por encomenda pois é uma forma de não produzir coisas que não sei aonde elas vão parar. Eu só produzo o que vai ser usado’’.

“Tatear, ver e calçar”. Essas são as três palavras norteadoras do caminho que a Borandá resolveu trilhar no processo de produção dos seus sapatos. Os verbos também dão o tom da transparência entre o consumidor e a marca, símbolo da moda compartilhada que Olga escolheu abraçar. “Quero que as pessoas acompanhem e compreendam as etapas de produção. Eu sou uma sapateira que incita as pessoas a andarem descalças, porque nós precisamos sentir para poder ter alguma sensibilidade. Tudo o que permeia a Borandá é muito sobre isso: olhar ao nosso redor e prestar atenção de onde vêm as coisas. É também sobre perceber o meu trabalho, a forma que ele é feito, porque demora e como esse deveria ser o natural das coisas.”

A Borandá está sempre de ateliê aberto para criar junto com o cliente o sapato artesanal ideal, num trabalho em conjunto. De morada compartilhada, o lar de Olga é também, o espaço onde a produção dos sapatos acontece. Além de oficina e casa, também funciona como escola: ali acontecem oficinas de sapataria artesanal ministradas pela própria artesã. ‘’Eu queria ensinar as pessoas a fazer, ao invés de só fazer. A pessoa vê, se interessa, marca comigo e aí fechamos a agenda. É tipo ‘Bora? Bora!'”

Entre 12 a 14 pares, é o número máximo que Olga produz por mês na Borandá. Carregando o propósito do ‘’bicho que não pisa em bicho’’, a matéria-prima dos seus calçados é composta, basicamente, por materiais reutilizados. Com um pouco de cola e costura, coisas velhas como restos de tecidos e pneus reciclados ganham nova cara e forma. “Eu colo esses tecidos pra eles ficarem um pouco mais grossinhos, com cara de sapato, e nos solados utilizo borrachas, pneus, neo light ou Havaianas recicladas.”

O veganismo vai além dos sapatos na vida de Olga, mas ela não se identifica totalmente com o radical da ideia, por isso se declara apenas como uma pessoa livre. “Minhas escolhas do dia a dia, indiretamente, são veganas, então qualquer coisa que eu fosse fazer na vida iria ter esse viés de mínimos impactos ambientais possíveis”.

Passeando pelos rótulos, a artesã prefere não enquadrar a Borandá na linha sustentável por não acreditar em uma sustentabilidade autêntica quando relacionada com os processos de compra e venda. No balaio das práticas sustentáveis, o maior entrave da Borandá se dá por a marca ser pequena e local. Olga não consegue obter sua matéria-prima com a máxima garantia de origem limpa e verde. “Eu acabo ficando refém do que existe pra vender aqui no Centro da cidade e, geralmente, o que tem aqui eu não sei, de fato, quais são as fontes.”

Se empreender já é atividade complexa, imagina quando se é mulher e está inserida no universo sapateiro? Predominantemente masculinos, os espaços de compra e venda de material para a produção de sapatos já foram locais de acesso social desafiador para Olga. “Ainda é uma coisa muito de ‘homem do interior’, então eu tinha que chegar nas lojas e ouvir os caras querendo ensinar como fazer o meu trabalho, explicar qual era o nome da ferramenta e colocar preço mais caro em produtos que eu já conhecia a média de valores”. Desde o início da sua caminhada independente ao lado da Borandá, lá em 2017, a artesã vem construindo a sua autoconfiança como sapateira profissional, dia após dia.

Existe uma mística criada em torno do produto artesanal que o coloca como artigo luxuoso e inacessível para a maioria das pessoas. Parte disso é verdade. O preço da produção artesanal é, de fato, ”mais caro”. O que Olga Moara quer questionar é quais os reais motivos dessa supervalorização – que acaba provocando, no caso, a desvalorização da produção artesanal. ‘’Eu não consigo competir com uma fábrica de sapatos que produz três sapatos por minuto. Isso daqui é um preço muito justo. Nosso produto não é caro; na verdade, as lojas que produzem em massa é que são baratas demais. São elas que tem algum momento da cadeia produtiva que não está sendo bem pago, tá faltando respeito com o que vem da natureza’’, finaliza a artesã cearense.

SERVIÇO

Borandá Sapatos
Site: boranda.me
Instagram: @borandares
E-mail: borandasapatos@gmail.com

Colaboradores

Flávia Bessa

Flávia Bessa

Ver Perfil

Escolheu a Comunicação Social, pois acredita no comunicar mais acessível e representativo. Encontrou no jornalismo, o caminho para a (re)construção dessa nova forma de informar. Uma comediante em ascensão, provavelmente sempre terá uma piadinha pronta pra contar (e rir sozinha).

Igor de Melo

Igor de Melo

Ver Perfil

É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

Gabriel Lage

Gabriel Lage

Ver Perfil

Cearense, empresário, filmmaker e fotógrafo. Acadêmico de audiovisual pela Unifor. Fã de Star Wars e dos anos 80.

Comentários

Quer conhecer mais histórias como esta?


Cadastre seu email abaixo para receber matérias, novidades, eventos, e outras informações na sua caixa de email.

fechar