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 No Ceará, Assis é nome de rei

Por Marcela Benevides, Igor de Melo
06.ago
2018

Nascido e criado em Sobral, viu o mar pela primeira vez aos 18 anos quando pegava o ônibus na Praça da Estação para ir embora do Ceará. O verdadeiro desejo era ficar na terrinha alencarina, mas o destino era o Rio de Janeiro com o objetivo de se tornar garçom e ter o próprio negócio. Foi na capital fluminense que ganhou experiência, começou a trabalhar em restaurantes e não parou mais.

A jornada não foi fácil, mas era esperto e queria aprender. Tais ingredientes, acompanhados de uma caprichada pitada de força de vontade, o tornaram quem ele é hoje. Turista ou não, quando se pensa em cerveja gelada, nevada ou, no bom cearês, m-o-f-a-d-a, é impossível não pensar no Francisco de Assis Ximenes do Prado, o Assis Rei da Picanha.

Aos 65 anos, Assis é um homem sério. Sorri pouco, mas se considera brincalhão. Também é um homem de fé, devoto de São Francisco de Assis, e preza por um trabalho feito com determinação e responsabilidade. Gosta de comer um bom baião de dois e tem orgulho do seu negócio, nunca achou que fosse chegar tão longe. Fala com segurança e sem falsa modéstia que acredita que seus restaurantes fazem parte da história de Fortaleza e são um point de encontro entre jovens, adultos, senhores, senhoras e turistas.

Vós – O senhor é natural de onde?
Assis – Eu sou de Sobral…

Vós – Quando veio para Fortaleza?
Assis – Eu tinha 18 anos. Foi a primeira vez que conheci outra cidade além de Sobral. Mas cheguei em Fortaleza, na Praça da Estação, às 8h30 da manhã para pegar um ônibus com destino ao Rio de Janeiro. Foi a primeira vez que vi o mar, ali da praça. Meu irmão apontou e disse “aquilo ali é o mar”, e eu só respondi “é grande, né?”

Vós – E por que o Rio de Janeiro?
Assis – Eu saí do interior com duas coisas na cabeça: montar meu negócio e estudar. Aqui em Fortaleza eu não conhecia ninguém, mas lá no Rio eu tinha irmãos e primos, então fui para lá, mas meu desejo era de ficar aqui.

Vós – Como foi essa experiência?
Assis – Muito boa, aprendi muito. Quando cheguei fiquei impressionado, né?! Mas foi lá que comecei a trabalhar em restaurantes. Até então só tinha trabalhado na roça, e não sabia de nada, mas como meu irmão era gerente em um restaurante, me colocou para trabalhar no balcão, mas nem pizza eu sabia pronunciar, falava pizzá. Mas era esperto e ficava observando ele atender os clientes para ir aprendendo.

Vós – E depois disso demorou para o senhor se tornar garçom?
Assis – Fiquei no balcão, quando passou o Carnaval o dono do restaurante me demitiu porque não tinha vaga. E eu fui trabalhar no Bob’s, na época só tinha um no Rio de Janeiro, mas com um mês pedi as contas. Porque eu queria ser garçom e lá no Bob’s não tinha, foi então que meu outro irmão me chamou para trabalhar com ele no restaurante. Fui porque lá tinha a oportunidade de conseguir meu objetivo, ainda fiquei dois anos e eles não me colocaram como garçom. Depois que fui procurar outra oportunidade, eles me chamaram para trabalhar na função que eu queria. Com um mês fui escolhido o melhor garçom da casa. Fiquei lá durante um tempo, mas depois saí, fui atrás de aprender mais. Trabalhei com português, espanhol, mexicano, em hotel… Fui barman, garçom, faxineiro, churrasqueiro, cozinheiro, aprendi um pouco de cada coisa.

Vós – E como aconteceu o seu retorno à capital cearense?
Assis – Eu vim para passear, conheci minha esposa e voltei para casar. Já tinha uma casa no Rio, mas o padre disse que não casava a gente sem autorização da Igreja lá do Rio de Janeiro, e foi um processo que demorou muito. E conversando com um primo meu, ele perguntou por que eu não ficava aqui em Fortaleza, eu disse que vontade não faltava, mas que não conhecia ninguém aqui. Foi aí que ele me ajudou a procurar emprego e trabalhei durante três anos na Praça Portugal.

Vós – E quando abriu o primeiro restaurante?
Assis – Montei um negócio com meu primo em 1981, mas não deu certo. O movimento era fraco e não tinha como dividir o lucro para duas pessoas. Certo dia meu primo chegou e disse que ou eu ficava ou ele; como a parte dele era maior e eu não tinha condições financeiras de bancar, resolvi sair e voltei a trabalhar como garçom no Trapiche na Beira Mar. Ainda trabalhando como garçom, comprei uma casa na Cidade 2000, reformei e abri o La Ticiane. Mas foi minha esposa quem tomava conta, ela e meu primo, e como lá era muito pequeno, decidi abrir outro restaurante.

Vós – Foi aí que surgiu o primeiro Assis?
Assis – Não. Foi o La Delicia, mas depois de dois anos um americano gostou do espaço e fez uma proposta para comprar. Como era boa, eu vendi. Foi depois daí que eu abri o primeiro restaurante com o meu nome. O Assis I.

Vós – Como o senhor já tinha experiência, foi mais fácil gerenciar o Assis I?
Assis – Mais ou menos. Eu aluguei o espaço e era um valor muito alto, eu trabalhava para pagar aluguel, e isso foi dificultando o trabalho.

Vós – Pensou em desistir?
Assis – Toda renovação de contrato em pensava em desistir. O preço do aluguel subiu muito, em seis meses deixei de pagar o equivalente a 700 reais para pagar 2 mil reais. Eu estava aceitando a situação mesmo sem poder, mas é aquele ditado, quem tá na chuva é para se molhar, e se eu já estou molhado vou continuar, e decidi trabalhar para ter o meu próprio prédio e tirei a ideia de desistir da cabeça.

Vós – E o “Rei da Picanha” surgiu como?
Assis – Foi uma sugestão do meu primo, ele falou “coloca Rei da Picanha” Eu dizia que não, que era um nome muito grande, mas ele ficou insistindo. Daí ele argumentou, “não tem o Rei do Peixe, o Alfredo? Coloca o Rei da Picanha.” Fiquei com aquele pensamento, e lembrei que lá no Rio tem o Rei do Galeto, e decidi colocar o Rei da Picanha.

Vós – Quando o senhor percebeu que podia expandir?
Assis – Quando percebi o movimento da casa. Vi que era bom, que as pessoas comentavam e pensei em dar sequência. Esperei ficar mais firme e abri o Assis II.

Vós – E hoje são parte da história de Fortaleza…
Assis – Acho que sim. Vejo as pessoas chegarem aqui e elas ligam comentando “olha, eu estou aqui no Assis, um point aqui da cidade, mulher bonita, tem cerveja gelada, telão para assistir futebol, é bem animado.” Isso para mim é referência, fico muito orgulhoso e vaidoso. Tenho muito orgulho do que construí, não achei que chegaria tão longe.

Vós – E como aconteceu a construção dessa credibilidade?
Assis – Foi o trabalho do dia a dia. A dedicação diária, o tempo. Os dias vão passando e vamos aprendendo mais, ganhando experiência e isso nos fortalece.

Vós – Qual é o legado do Assis?
Assis – É deixar o exemplo de vida da pessoa Assis. Uma referência de como manter uma atividade comercial. Ensino a todos os meus funcionários como passar pano no chão, atender uma mesa, tudo. Se eles dizem que querem abrir um restaurante, mando eles observarem como funciona, como deve ser feito o trabalho. É aquele ditado, o que é bom não é feio copiar, e me realizo muito com meu trabalho.

Vós – Pensa em se afastar da administração dos restaurantes?
Assis – Não. Quero morrer aqui dentro, quero morrer trabalhando. Mas ensino aos meus filhos, quero que eles aprendam os processos, eles já são meus sócios, mas é aquela coisa, né?! Quem é vivo é mortal.

Colaboradores

Marcela Benevides

Marcela Benevides

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Ler e escrever são as duas coisas que mais a definem. Gosta de contar histórias sobre pessoas e lugares que inspiram a felicidade e a percepção de que a vida vai além das bolhas em que vivemos, e é na cidade que encontra a sua inspiração. Acredita que o jornalismo é um dos meios para promover a união entre culturas. Importante destacar: tem o sol em leão.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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