Vós

menu
Colunas

Nordestino tem cara de quê?!

Por Thaís Machado
02.mai
2018

Festa australiana, gente do mundo todo, mas, claro, um brasileiro parou ao meu lado. “Posso conversar com você?” Eu, ironicamente conhecida pela simpatia e paciência pra “conversas de balada”, lembrei que tenho 30 anos e tô solteira (algo que claramente não me incomoda), disse: “claro!”

Depois de nos apresentarmos, começamos a cumprir a cartilha de perguntas tipicamente feitas por aqui. “Chegou há quanto tempo? Qual seu visto? É de onde lá no Brasil?” Seria tão mais fácil ter respondido logo a essa última, mas na tentativa de jogar um charme, respondi: “adivinha!” Pra quê?!

Já fui mineira pra muita gente, mas como o dito cujo era de lá, percebeu que eu não era conterrânea. “Rio? São Paulo?” Por um segundo me perguntei se ele não era gringo, porque geralmente eles só conhecem duas cidades no Brasil, mas vieram as últimas cartadas: “Brasília? Vitória!”, então eu logo tratei de ajudar o rapaz desesperado. “Sou da maior região do Bra…” Nem terminei e ele gritou: “SUUULLL!!! É DO SUUULLL!”, numa empolgação de quem tá certo que vai ganhar um milhão de reais em barras de ouro. E eu? Ainda tô me recuperando, mas respirei fundo e entendi que ninguém é obrigado a saber que O NORDESTE É A MAIOR REGIÃO DO BRASIL. Mero detalhe. Quem se prende à detalhes? Odeio detalhes.

Mas o mais curioso (sim, tem mais!) foi a surpresa dele acompanhada da frase, velha conhecida minha: “Mas você não tem cara de nordestina!” Aprendi com uma amiga que às vezes é bom falar consigo e me dei um conselho: “Respira, Thaís! Respira!”

NORDESTINO TEM CARA DE QUÊ?!

É simples! A gente tem cara do Brasil, oras! Cara de miscigenação. A gente tem olho puxado e cabelo enrolado. A gente tem pele negra e olho azul. A gente é alto. A gente é baixo. A gente é bonito, mas pode até ser feio, porque aí depende de quem vê, né?

“Ah! Mas você às vezes puxa o ‘s’ como carioca, e depois fala como paulista!”

Eu falo “feXta” como cearense fala festa.
Eu falo “ThaíS” como cearense fala Thaís.
Tem cearense que chama mãe de mainha. Eu chamo minha mãe de mãe.
Nossa Miss é loira de olhos verdes, e pasmem, brasileiros, nem só de virgens dos lábios de mel somos feitos. Nem só cabeças-chatas se balançam de rede.

Não. Não gostamos de ser chamados de “paraíba” ou “baiano” quando a gente diz que é de Fortaleza, de Natal ou de (do) Recife. Não. Não é tudo a mesma coisa. Seja forte, seja fraco… Não. Não existe sotaque certo ou errado.

Sim. Nordestino espera que você se lembre do Nordeste. Porque o Nordeste é um pouquinho do Brasil também. Quer dizer, o Nordeste é muito do Brasil. A maior parte, tá, amigo mineiro? O Nordeste é tão grande que se espalha pelo Brasil. É tão grande que se espalha pelo mundo. Onde quer que você vá, ali tem um nordestino. E se vier pra Austrália, esteja certo: vai encontrar uma mulher arretada, com cara de cearense e com orgulho de ser nordestina.

Ah! A quem interessar possa, a conversa parou por ali. Continuo solteira e mineiros não foram excluídos. Oremos!

 

(Foto de capa: Kaique Andrades)

Colaboradores

Thaís Machado

Thaís Machado

Ver Perfil

Dona de uma coragem titubeante e de uma insegurança convicta que me perseguem há 30 anos, há um decidi largar tudo e trocar a cidade do sol pela terra dos cangurus. “Um passo pra trás, alguns pulos pra frente”, eu diria. Praia sem caranguejo, mar gelado, água de coco de caixinha e tapioca vendida à preço de ouro por brasileiro desunido. Ninguém disse que ia ser fácil, né?! Como tudo tem seu lado bom, brinco que aqui virei até vidente. Quer saber do futuro? Pergunte-me como! Tô 13 horas à frente.

Comentários

Quer conhecer mais histórias como esta?


Cadastre seu email abaixo para receber matérias, novidades, eventos, e outras informações na sua caixa de email.

fechar