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Histórias

Na voz deles: uma professora transformando a periferia com poesia feminina negra

Com Camile Baccin Por Flávia Bessa, Igor de Melo
10.out
2019

Até o final do quarteirão, na esquina com a Rua 10, faça chuva ou sol, há seis anos a professora Camile Baccin segue o mesmo caminho no bairro Barroso para chegar na escola Professor Aloysio Barros Leal (ABL). Lá, ela ensina literatura e redação aos seus alunos das turmas de primeiro, segundo e terceiro ano do ensino médio. Com dezoito anos de experiência em sala de aula, o que transformou a vida e a profissão de Camile foi ter vivenciado de perto a realidade da escola pública. 

Rodeada por mãe, tios, primos e primas educadores, Camile Baccin esteve inclinada ao universo da literatura desde a sua infância. Ler nunca foi uma obrigação para ela, mas sempre uma escolha. Aos dez anos, já conhecia a ‘Gabriela, Cravo e Canela’ de Jorge Amado, além da ‘’Helena’’, de Machado de Assis. ‘’Acima de tudo, eu tinha um prazer absurdo em ler, a minha cabeça funcionava no mundo da imaginação, onde eu me desconectava da realidade e sentia tudo o que o livro tinha a me oferecer.’’ Mesmo não compreendendo as complexidades das obras, explorar as possibilidades literárias sempre foi o grande propósito de Camile. Assumindo o papel multidimensional e dialógico como educadora, ela levou como reflexo da sua prática na leitura o impulsionamento da mobilidade social dos seus alunos. 

Acompanhando as mudanças dentro e fora da escola, a professora assume que além dos clássicos, precisa, também, explorar a literatura contemporânea. ‘’Nós temos que pensar e dinamizar a nossa prática. Eu preciso dialogar com a linguagem e realidade do meu aluno. Eles vão compreender estruturas textuais mais complexas, mas, à priori, eu preciso conquistá-lo a partir de algo que ele goste e entenda. Ensino é mediar o conhecimento, e o nosso papel é despertar o interesse por esse conhecimento.’’ 

*Foto de arquivo/Vozes Mulheres

Afeto e (re)conhecimento na escola 

Para os alunos da Escola Professor Aloysio Barros Leal, o local de ensino tornou-se, também, uma segunda casa. Casa. Lugar onde se encontra proteção, carinho, atenção, alimento. ‘’É além do bem material, do que eles não têm em casa, é o afeto. E eu acho que ser professor é isso: doar afeto.’’ São jovens que já possuem muitos vazios na vida, e encontraram na escola um lugar de acolhimento.

Lá, como espaço de troca, os alunos da ABL sempre apoiaram todos os projetos propostos por Camile, principalmente quando o assunto é ação coletiva. ‘’Eles querem, eles cobram. Eu ofereço as ideias, mas se eles não abraçassem, a coisa não fluiria.’’ Assim como o afeto, a liberdade literária também ganha espaço em sua sala de aula. Entre uma leitura e outra, a professora concede ao aluno o poder de escolha do livro estudado. Desde que seja desenvolvida uma identidade com a literatura, toda obra é válida. 

Para o desenvolvimento do ensino de Camile Baccin, a multiculturalidade é um princípio necessário aplicado à escola pública, principalmente por se tratar de um grupo tão heterogêneo em relação às questões de classe, gênero, cor e religião, mas ainda existe uma resistência desses jovens quanto aos processos individuais de (re)conhecimento identitário, aquela tal ideia do pertencimento. ‘’São meninos de um bairro periférico e que já possuem uma autoestima baixa. É necessário abrir espaços para essas discussões na escola, afinal, como e aonde eles vão se enxergar?’’

A poesia ancestral do ‘’Projeto Vozes Mulheres’’

Seguindo com a missão de provocar a reflexão social dos seus alunos, Camile Baccin resolveu explorar, em sua sala de aula, a literatura negra feminista. Na verdade, tudo começou de forma despretensiosa, por meio de um objetivo literário pessoal. Em contato com os textos de escritoras brasileiras negras, Camile conheceu a autora Conceição Evaristo, o que acabou provocando sua transformação como professora e como mulher. Seguindo sua ‘’resistência e persistência como educadora’’, Baccin determinou que iria explorar ao máximo obras de literatura negra feminista. 

A prática educativa acompanhou a transformação interna da professora e o ponto de partida foi um poema de Conceição Evaristo chamado ‘Vozes Mulheres’’. ‘’Quando eu trouxe para a sala de aula, não imaginava o nível de emoção dos alunos diante desse texto com tantas vozes falando sobre ancestralidade, racismo e preconceito. O Vozes Mulheres nasceu da emoção deles e da minha emoção ao vê-los reagindo à linguagem poética’’. O Projeto começou a ganhar forma, Camile fez a divisão das equipes por turmas e cada sala ficou responsável por uma autora diferente, realizando apresentações através de seminários ou intervenções artísticas pela escola. 

*Foto de arquivo/Vozes Mulheres

Entre tantas escritoras, foi Conceição Evaristo quem mais emocionou os alunos da professora. Então Camile resolveu apresentar com mais profundidade os contos e poemas da literatura ressignificante da autora. ‘’Nós seguimos nessa literatura dor da Conceição. Sua escrita vem de uma dor ancestral, dessa mulher martirizada que não faz o papel da vítima, ressignificando a sua dor. E é isso o que eu quero reforçar: o que aconteceu com a mãe deles, não é o que vai acontecer com eles.’’ 

Cartas para Conceição Evaristo

Nesse meio tempo, Camile comprou uma passagem de avião com destino a Paraty, rumo a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), onde tentaria um encontro com a escritora. De fila em fila no evento,  Baccin foi contando sobre o Projeto e sua ligação com a autora brasileira, até a história chegar nos ouvidos de uma moça que dizia conhecer a assessora de Conceição. ‘’Ela perguntou se eu queria ser apresentada. E aí, na cara e na coragem, aceitei.’’ 

*Foto de arquivo/Vozes Mulheres

A voz do projeto de Camile e seus alunos do ABL ecoou até alcançar Conceição Evaristo. Chegado o momento de conhecer a autora, a primeira coisa que a professora conseguiu falar foi: ‘’Olha o meu projeto, o projeto dos meus alunos. Conceição, vem lá na escola?’’ Conceição viu as fotos e vídeos dos meninos e com os olhos marejados disse: ‘’Eu não escrevi a minha literatura para jovens, a minha literatura é adulta e o que você tá fazendo é muito importante, você sabia disso?’’ A escritora aceitou o convite de Camile e, através da programação da Bienal Internacional do Livro do Ceará, chegou até a escola cearense.

A culminância do Projeto Vozes Mulheres seriam cartas escritas pelos alunos para a autora a partir de tudo o que sentiram com os contos de Conceição. Meninos e meninas passaram a ler todos os contos e escrever suas cartas, mas o que seria inicialmente apenas um presente para a autora brasileira, acabou ganhando um destinatário diferente. ‘’Era final de noite, eu cheguei cansada em casa, coloquei aquelas 400 cartas sobre a minha cama, olhei e percebi que o eu tinha em mãos era ouro. Aquilo tinha que virar livro e iria se chamar Cartas para Conceição’’. A professora foi até a Secretaria de Educação apresentar o projeto e tentar convencer a publicação do livro. Gostaram tanto da ideia que, além de livro para publicar, Camile Baccin agora tem um documentário para rodar. 

Ultrapassando os muros da escola

No dia 24 de agosto de 2019, Conceição Evaristo pisou em solo cearense. No bairro Barroso, a Escola Professor Aloysio Barros Leal flutuava sob o céu daquela manhã ensolarada. Pais, alunos, funcionários e convidados receberam a autora brasileira com aplausos que duraram cinco minutos. Depois, um silêncio absurdo pairou sobre o pátio da escola, já que todos queriam ouvir o que Conceição tinha a dizer. ‘’Foi um divisor de águas para toda a comunidade. A escola está em outro patamar, a identidade dos alunos foi reavivada, passou a existir um orgulho de ser daqui. O projeto ultrapassou os muros da escola, chegando até a mídia, e sabe o que é importante? A gente saiu no jornal, mas não nas páginas policiais. O nosso bairro precisava disso: mostrar o que ele tem de melhor.’’

E outro público, este fora das salas de aula, acabou sendo o grande leitor de ‘’Olhos D’água’’, da Conceição: foram as mães dos alunos de Camile Baccin. Os relatos eram de que os jovens pegavam o livro na biblioteca e, em casa, faziam a leitura para as suas mães. Em algum ponto da história, essas mulheres se enxergaram naqueles contos. ‘’Fertilizou de um jeito, que as mães vieram até a escola pra abraçar a Conceição Evaristo e agradecê-la pela sua potência literária transformada em suas vidas. Aconteceu de uma forma que elas finalmente se viram numa narrativa.’’ Da Escola Professor Aloysio Barros Leal, ao bairro Barroso, a mudança está na escrita das cartas, nos desenhos dos cartazes, nos discursos positivos e nas posturas empoderadas. Agora essa comunidade sabe que pode (re)escrever suas histórias.

Colaboradores

Flávia Bessa

Flávia Bessa

Ver Perfil

Escolheu a Comunicação Social, pois acredita no comunicar mais acessível e representativo. Encontrou no jornalismo, o caminho para a (re)construção dessa nova forma de informar. Uma comediante em ascensão, provavelmente sempre terá uma piadinha pronta pra contar (e rir sozinha).

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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