Vós

menu
Histórias

Duas realezas e a disputa pelo trono da panelada

Com Realeza da Panelada Por Marcela Benevides, Igor de Melo
08.mai
2018

Localizados na mesma rua, no bairro Joaquim Távora, a apenas 79 metros de distância um do outro, os dois são bem conhecidos, porém, em toda Fortaleza. Muito se murmura sobre a relação entre eles, e perguntas como “será que são da mesma família?” ou afirmações como “ouvi dizer que eram casados” são bastante frequentes.

É verdade, os caminhos do Rei e da Rainha da panelada se cruzaram, e durante 14 anos eles trabalharam e viveram como uma família. Juntos eles começaram a personalizar a panelada na capital alencarina, tradicionalmente feita com tripa de boi. Ousados, optaram por reinventar e cozinhar apenas com o bucho, a unha e o nervo. De acordo com a realeza, esses ingredientes são mais “nobres” e não deixam a comida gordurosa.

Mas como tudo é impermanente e muda, a vida deles também tomou outros rumos e hoje cada um reivindica o trono para si. Mas calma, os dois deixaram claro que a convivência e a concorrência são saudáveis, e que eles são como parceiros e, sempre que preciso, um ajuda o outro.

O Rei

Desde os 13 anos demonstrava que seu dom estava na cozinha. A mãe pedia para cortar e temperar a carne, e ele logo se atrevia a pedir para fazer o arroz. Ajudar a fazer as refeições não era uma obrigação, mas um prazer. E foi assim que Antônio Weber Braga de Almeida – ou Braga, como se apresentou – começou a trilhar os caminhos da culinária.

O ano era 1979 e Braga saía do ramo de vendas de carro para investir na culinária. Com a fala descontraída, ele explica que a ideia de servir comida regional “foi o que veio primeiro na cabeça”. “Eu disse, vamos botar uma panelada e pratos típicos para ver se vai dar certo, e aí desembanhou.”

Mas a alcunha “rei da panelada” só viria depois, como sugestão de um cliente baiano. “Ele sugeriu um pirão para acompanhar a panelada, que era servida apenas com arroz. E disse assim ‘essa é a melhor panelada que eu já comi por aqui, e vou dar uma dica. O nome deveria ser O Rei da Panelada’. E eu gostei, aproveitei a oportunidade e coloquei.”

Desde então, Braga é conhecido como “O Rei da Panelada, o pioneiro e tradicional há 38 anos”. A justificativa para se autodenominar pioneiro e tradicional é simples: “O mais antigo era o Raimundo dos Bofes, que ficou mais de 40 anos no ramo, mas desde que ele faleceu eu sou o mais antigo na área.”

É com firmeza que o rei fala sobre a qualidade dos seus pratos. “Costumo dizer que tenho mestrado, doutorado e sou PHD na faculdade de Harvard, nos Estados Unidos, para fazer a panelada”. Para ele, a panelada significa o sustento ao longo de três décadas, que foram vividas com batalhas e alegrias.

A Rainha

“Fogo lento e paciência” é o lema para cozinhar a tradicional panelada de Margarida Verçosa de Oliveira, que leva cerca de oito horas para ficar pronta. A receita é herança de família, passada de geração em geração. Margarida também é conhecida como a Rainha da Panelada, denominação dada por ela própria, em 1998, após o rompimento com Braga.

Alex, o filho de Margarida, diz com um sorriso no rosto que a mãe é “gaiata”. “Como tem o rei da panelada e era ela quem cozinhava lá antes, ela se denominou como rainha e fez questão de colocar o slogan ‘a verdadeira dona do trono’ só para cutucar a concorrência.”

Alex e a esposa Liliana estão a frente do negócio de Margarida há 10 anos. Eles administram o restaurante a pedido da rainha, que queria dar continuidade ao legado. “Eu assumi porque ela queria dar continuidade ao negócio e porque prezamos pela qualidade da comida e do atendimento.”

Apesar de a administração diária estar nas mãos do filho, a rainha está sempre presente no restaurante. “Todo final de semana ela vem aqui e checa se está tudo em ordem. Toda alteração precisa do consentimento da rainha. Se a gente mudar uma mesa de lugar sem autorização, ela briga e puxa orelha e manda voltar pra onde estava.”

É com carinho que Liliana fala sobre a história da sogra Margarida. “O ambiente é simples e familiar, o trabalho é cansativo, mas estou aqui para dar continuidade ao trabalho da rainha, ela é inspiração.” Liliana não se considera a princesa da panelada, mas diz que o marido é o “príncipe” por ser filho da rainha. “Mas se ele quiser eu pego carona e sou princesa também.” Para os herdeiros do trono, a panelada significa paixão, sustento e trabalho.

Serviço
O Rei da Panelada
Rua Capitão Gustavo, 3372 – Joaquim Távora
Funcionamento: terça a domingo, de 8h às 16h
Telefone: (85) 3272.8672
Valores:
Meia Panelada: R$ 21 – serve 2 pessoas
Panelada Inteira: R$ 42 – serve 3 pessoas
Acompanha arroz e pirão
Facebook: O Rei 

Rainha da Panelada
Rua Castro Alves, 340 – Joaquim Távora
Funcionamento: segunda a domingo, de 8h às 15h
Telefone: (85) 999.187.774
Valores:
Panelada família: R$ 45 – serve 4 pessoas
Meia Panelada: R$ 22,50 – serve 2 pessoas
Panelada Executiva: R$ 20
Petisco: R$ 10
Acompanha arroz e pirão
Facebook: A Rainha

Colaboradores

Marcela Benevides

Marcela Benevides

Ver Perfil

Ler e escrever são as duas coisas que mais a definem. Gosta de contar histórias sobre pessoas e lugares que inspiram a felicidade e a percepção de que a vida vai além das bolhas em que vivemos, e é na cidade que encontra a sua inspiração. Acredita que o jornalismo é um dos meios para promover a união entre culturas. Importante destacar: tem o sol em leão.

Igor de Melo

Igor de Melo

Ver Perfil

É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

Comentários

Quer conhecer mais histórias como esta?


Cadastre seu email abaixo para receber matérias, novidades, eventos, e outras informações na sua caixa de email.

fechar