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Rita de Cássia: a compositora que conquistou gerações

Com Rita de Cássia Por Felipe Gomes, Igor de Melo
07.jun
2017

Tinha tudo para ser só mais um clichê, feito muitas histórias comuns no meio musical. Os elementos estavam todos lá: a jovem sonhadora para quem o mundo estava restrito à pequena cidade no sertão cearense, à agendinha em que escrevia suas poesias guardadas a sete chaves devido à timidez e, como não podia deixar de ser, o apreço pela música que vinha de família.

O desfecho esperado se completaria com o grande primeiro sucesso que veio logo, não como cantora, mas como compositora. Esse, contradizendo o clichê, não seria o único, mas aquele que seria eternizado. Os versos cantados por Kátia Cilene, então vocalista da banda Mastruz com Leite, mudariam para sempre a vida da menina de Alto Santo e levariam para todo o Brasil as poesias guardadas no caderninho de anotações.

Compositora do sucesso Meu vaqueiro, meu peão – música tida como marco inicial do forró eletrônico e que, em 2017, completa 24 anos – Rita de Cássia não é só mais um clichê. Gravada por grandes ícones do gênero, tem diversos hits no currículo. Todos, segundo ela, escritos com propósito, primando por contar uma história e por deixar uma mensagem positiva.

Feita de poesia – na visão de mundo e no ofício -, memórias e opiniões, Rita recebeu Vós em casa para falar de sua história, composições e do atual momento do forró. A entrevista, agora divulgada na íntegra, compõe o Especial Forró publicado na sexta edição da revista Vós.

Entrevista

Vós – Sua família tinha a música como um hobby, como isso se torna algo mais profissional?

Rita de Cássia – Meu irmão começou a tocar sanfona e guitarra, montou uma banda e me chamou pra cantar. Papai não queria deixar, porque dizia que eu era muito inteligente pra isso, mas acabou cedendo. A banda era de dentro de casa mesmo e qualquer coisa, se não desse certo, desfazia. E eu num ia parar de estudar mesmo… Foi daí que eu e o meu irmão (Redondo) montamos a Som do Norte.

Vós – E já com a banda Som do Norte você começou a colocar suas composições?

Rita – Sim. Mas coloquei as músicas dizendo que eram músicas que tinha ouvido no rádio e copiado. Não tive coragem de dizer que eu que tinha escrito. As bandas da região começaram a aprender a música (Brilho da Lua) e colocaram em seu relatório. Um belo dia a Mastruz colocou no repertório e fiquei nervosa, mas depois o Emanuel Gurgel procurou saber quem eu era e ficou tudo resolvido.

Vós – De onde vinha a inspiração para essa adolescente compor lá em Alto Santo?

Rita – Meu mundo sempre foi feito de uma certa poesia; a poesia das coisas simples, mas que se tornaram valiosas. Transformei tudo em música e poesia. A minha ideia sempre foi passar qualidade para as letras e trazer a juventude que, na época, já estava se interessando por outros tipos de ritmos. E sempre falando bastante de amor e do sertão. E falando do sertão sem falar de tristeza. Sempre quis escrever sobre as lutas, mas também sobre as vitórias.

Vós – Sua carreira começou em uma época em que não existiam tantos compositores de forró. De lá para cá, muitos seguiram a mesma linha do seu trabalho e outros pegaram um rumo diferente. Como você vê o mercado de compositores hoje em dia?

Rita – É uma outra época. Quando comecei a compor, muitos seguiram esse estilo mais romântico. O Batista Lima, por exemplo, com a Limão com Mel. Hoje em dia, com essa invasão da internet, nós vemos uns temas mais imediatos que surgem de uma gíria e dura, no máximo, uns três meses. O que a gente sempre fala para eles é que tomem cuidado. Pra não pensar só no dinheiro do momento. Daqui alguns anos, como é que vão viver? Meu vaqueiro, meu peão me sustenta há 24 anos. E, quando a gente compõe, tem que pensar nas novas gerações que estão vindo. Qual o legado que você quer deixar?

Vós – Existe uma história um tanto curiosa sobre Meu vaqueiro, meu peão. Como foi o processo da composição até a gravação?

Rita – Na época, estava começando o auge das vaquejadas. Queria falar de vaqueiro e de amor, e ao som do forró. Também estava passando uma novela da Manchete que falava de peões, A História de Ana Raio e Zé Trovão, e o tema estava em alta. Como ia falando, Brilho da Lua despertou o interesse das bandas pelas minhas composições e a Mastruz com Leite já queria ter gravado essa. Só que, quando o Emanuel Gurgel veio, já tinha cedido a música para a Eliane. Era muito fã dela. Ele conversou comigo e disse que não fazia mal, que tinha outras. Nesse tempo, 1992 ou 93, eu estava internada com pneumonia e ele queria ouvir a música. Como não dava pra eu vir para Fortaleza, ele mandou o Ferreira Neto pra Alto Santo: montaram quase um estúdio de gravação no meu quarto – eu ainda me recuperando -, ele gostou, a Mastruz gravou e foi aquele sucesso.

Vós – Você acha que essa música foi a responsável por abrir as portas da mídia para o forró?

Rita – Com certeza! A Mastruz conseguiu, com Meu vaqueiro, meu peão, ir a lugares que o forró não ia. Hoje tem até um destaque, nem sei se da forma correta mas, na época, foi um negócio realmente muito grande.

Vós – Você já chegou a fazer versões de músicas estrangeiras?

Rita – Eu não gosto. É pegar uma música que não é sua. Até fiz uma coisinha ou outra. Só pra gente, mas não gosto. Músicas são filhos e você não gosta que mexam com seus filhos. Não gostaria que pegasse Meu vaqueiro, meu peão e não gostaria que colocassem só uma outra letra lá fora e gravassem.

Vós – Com a queda no faturamento da indústria fonográfica, qual é o lugar do compositor hoje em dia no forró?

Rita – Alguns compositores do forró migraram para o sertanejo. E o sertanejo paga muito bem. Que eu saiba, aqui, quem tá muito bem são os compositores do Wesley e do Aviões. Nós, do chamado Forró das Antigas, ainda ganhamos bem por conta desse passado construído.

Vós – E como você vê esse atual momento das composições do forró?

Rita – Eu fico muito preocupada quando o vejo um cara cantando uma música em que chama as mulheres de vagabundas e um monte de mulher aplaude isso. Pra fazer sucesso, não tem necessidade disso. Luiz Gonzaga fez sucesso sem pornografia nenhuma. O sertanejo mesmo tem uma poesia incrível. O Emanuel Gurgel diz, e eu concordo, que o forró não é mais abrangente por isso, porque quando chega nas novelas é sempre com essa intenção de pornografia.

Vós – E você acha que o forró pode voltar a ter como carro-chefe essa poesia e esse amor presente nas suas canções?

Rita – Eu consegui chegar onde cheguei compondo, e sendo mulher falando de amor com poesia. Fico muito satisfeita de a minha mensagem ter conseguido chegar no coração das pessoas. Hoje, tem esses eventos de Forró das Antigas e os jovens vão, e cantam, e gostam. As modinhas passam. A música feita com a alma, com respeito, fica pra sempre.

Confira o sucesso Meu vaqueiro, meu peão:

Colaboradores

Felipe Gomes

Felipe Gomes

Ver Perfil

Soube desde de cedo que iria ser jornalista. Com as histórias de uma Fortaleza de outros tempos, contadas pela bisavó, aprendeu a ouvir. Entrou na faculdade para falar de coisas. Saiu querendo falar de pessoas. Valoriza o olho no olho, admira o cinema francês e adora música.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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