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Mora

Seu Flor não mora sozinho

Com Bruno Flor Por Marcela Benevides, Igor de Melo
09.ago
2018

A casa nº 1265 é o único imóvel residencial da rua e, além do muro baixo, incomum na Fortaleza do século XXI, tem suas grades vazadas e janelas abertas. O som natural das plantas, que se mexem com o vento, se mistura com o barulho cotidiano da casa: pessoas entrando e saindo pelo portão, alguém tomando café da manhã na cozinha, uma vizinha que chama para tirar dúvidas sobre uma orquídea que ganhou, a música pausada no aparelho de som antigo volta a tocar, um coro de buzinas lá fora anuncia que o trânsito começa a ficar intenso na Padre Valdevino.

O ateliê botânico do Seu Flor é a entrada principal e se conecta fisicamente com o interior da casa. As plantas estão em todos os lugares, penduradas no teto, em vasos no chão ou engarrafadas em pequenos ecossistemas: elas preenchem os espaços sem cor. Ao passar pela porta e caminhar pelo corredor branco, os crochês da avó dispostos pela parede anunciam que ali existe mais da família do que se imagina.

Mas não pense que foi apenas a avó de Flor que ganhou homenagem naquelas paredes. Seu Flor, também conhecido como Bruno Flor, o biólogo e ‘permacultor’, considerado pelos amigos como ‘‘quase um predestinado’’, homenageou o avô com o nome do seu ateliê. “Meu avô é agricultor e é conhecido lá em Aquiraz como ‘‘seu Flor’’, e ele e eu somos os únicos homens da família com Flor no sobrenome, então decidi colocar esse nome no ateliê. Ele sabe que é em homenagem a ele e gosta.”

Cada espaço forma algo único e as plantas guiam o caminho. A parede da sala narra as memórias de Flor, que guarda uma lembrança em forma de objeto para cada lugar que passou. A simbiose do ambiente é intensa e transmite aos visitantes tranquilidade e proximidade. “Muita gente chega aqui e diz que a casa tem um ar de nostalgia da infância, elas param no corredor e dizem que parece com a casa da avó, e isso é algo que eu queria trazer pra cá, esse amor, porque casa de avó é lugar de amor, calma, brincadeira, serenidade e de família.”

O Útero anuncia a chegada na cozinha. É ali que as conversas, as trocas afetivas, de conhecimento e ideias nascem. “Venho de uma família de matriarcas, são 12 mulheres e desde a casa da minha avó tudo acontecia na cozinha e meio que aqui também, por isso a minha amiga escreveu ‘‘útero’’ na parede. As pessoas chegam e sentam, eu ofereço um café e quando percebo tudo está acontecendo na cozinha, assim como essa conversa.”

Da cozinha é possível avistar o quintal, repleto de mais plantas. São cactos, kokedamas, árvores, terrários abertos, tudo misturado. Não é ali que o caminho termina, mas o ciclo da casa e das plantas se (re)inicia a todo instante naquele espaço.

“Em uma floresta é comum as plantas se comunicarem pelas raízes. Elas avisam umas às outras se estão sendo predadas, se precisam de ajuda ou se não se gostam. É uma forma de comunicação fácil de perceber pelos seres humanos, mas para elas o entendimento é diferente.” Na casa de Flor, as plantas também estabelecem esse tipo de conexão, e não apenas entre elas, mas com todos os cômodos da casa.

E essa interação, que é alimentada por Flor com amor e conversas, reflete nas percepções dele diante das sutilezas da vida. “As plantas não precisam falar para demonstrar várias coisas da vida. Por exemplo, as plantas fazem algo muito lindo que é dar uma flor, mas ela não avisa pra todo mundo que deu flor, ela só mostra. E quando eu percebi isso foi algo forte, foi uma lição.”

Na casa, pessoas e plantas compartilham trocas, e tudo gira de maneira diferente, é também uma comunicação simbólica. “Às vezes queremos obrigar a planta a crescer para um lado, mas ela segue outro caminho, daí eu me pergunto porque eu quero obrigar ela a crescer por aqui se ela é livre e tá escolhendo outra direção. E acho interessante quando as plantas me mostram isso.”

A casa, ao mesmo tempo que é a dos seus sonhos, não é. Ela poderia ter um quintal mais amplo, porque Flor precisa de mais espaço. Mas ao mesmo tempo, toda a sua história, sua personalidade e seus aprendizados estão expostos ali. “Desde que mudei pra cá, há um ano, e comecei a perceber as modificações, eu criei um afeto muito grande pela casa. Essa aqui é a minha casa, porque eu me apropriei do espaço, e mais que uma casa é um lar pra mim, que me deixa muito feliz.”

A casa preenche, mas não prende Flor, e ele não precisa buscar a felicidade em outros lugares porque ele encontra amor ali dentro. Reunido com amigos, com visitantes, com seu roommate, com sua gata e, claro, com suas plantas, ele até esquece de ir lá fora.

Serviço
Jardim do Seu Flor
Instagram: @jardimdoseuflor
Facebook/jardimdoseuflor

Colaboradores

Marcela Benevides

Marcela Benevides

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Ler e escrever são as duas coisas que mais a definem. Gosta de contar histórias sobre pessoas e lugares que inspiram a felicidade e a percepção de que a vida vai além das bolhas em que vivemos, e é na cidade que encontra a sua inspiração. Acredita que o jornalismo é um dos meios para promover a união entre culturas. Importante destacar: tem o sol em leão.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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