Vós

menu
Histórias

Tradição que resiste ao tempo: um reisado que está junto o ano inteiro no Grande Mucuripe

Por Flávia Oliveira, Igor de Melo, Michele Boroh

Acredita em Vós

22.fev
2016

Tradição que resiste ao tempo

Meu senhor, dono da casa
Abra a porta e acenda a luz
Venha dar a santa esmola
Em nome de Jesus

É Dia de Reis. Marcos, dona Socorro e a filha Katia Juliana percorrem as ruas da Varjota vibrando a caixa, a zabumba e os tambores, seguidos do boi, da burrinha e de guerreiros vestindo roupas reluzentes. Eles lembram a visita que os Reis Magos fizeram a um Jesus Cristo nenenzinho. As prendas que recebem vão para os cerca de 40 membros do grupo – a maioria do bairro – mas alguns meninos e meninas também vêm do Castelo Encantado e do Mucuripe. O festejo, no entanto, não se restringe ao 6 de janeiro. Eles dançam o reisado o ano inteiro, menos em fevereiro.

O Reisado Nossa Senhora da Saúde nasceu há 12 anos, fruto da parceria entre o Brincantes Cordão do Caroá, projeto de extensão da Universidade Federal do Ceará, iniciativa privada e Serviço Social do Comércio do Ceará (Sesc-CE), o qual, desde então, tem mantido o grupo com ajuda para transporte, cestas básicas e material para confecção dos adereços utilizados nas apresentações. Katia Juliana, a Mestre de Reisado, também trabalha com projetos sociais na instituição.

Peleja contra as más influências

Marquinhos representa o Mateus, o rei negro e destronado que tornou-se palhaço para sobreviver, em uma alusão à guerra que houve entre mouros e cristãos. “A peleja hoje é outra: lutamos para tirar a meninada da rua, das más influências. Pra dar um pouquinho de carinho e atenção, coisa que muitos não têm em casa”, diz Marquinhos, o “Pai Marcos”, como os meninos gostam de chamar. Socorro é a “mãe Help”, e se encarrega da organização das viagens, das costuras e de aconselhar as meninas que chegam à procura de orientação.

Kátia enche os olhos d´água ao falar dos “irmãos e irmãs”, crianças de outras famílias, mas que o Reisado tratou de unir à sua. Em tempos de preparação de figurino, a casa da família Sousa se enche de brincantes que, debruçados sobre contas coloridas e gotas de plástico, preparam as próprias coroas. Enquanto isso, debulham também um pouco da vida de cada um. “A gente chora, a gente ri. São muitas histórias que eles nos contam”, diz Kátia. “E quando chega algum e diz assim: ‘se não fosse o Reisado, a minha vida seria pior’, aí não dá mesmo pra segurar a emoção”, lembra. (Flávia Oliveira)

Alguns personagens do Reisado

Rei – O traje do Rei deve ser o mais bonito e enfeitado. Levam nas mãos uma espada e, às vezes, também um cetro

Rainha – A Rainha é representada por uma menina, com vestido branco ou rosa, uma coroa na cabeça e um ramalhete de flores nas mãos

Mestre – Regente do espetáculo. Utiliza apitos, gestos e ordens para comandar a entrada e saída de peças e o andamento das execuções musicais

Mateus – Usa trajes diferentes dos outros figurantes, além de um grande chapéu afunilado com espelhos e fitas coloridas. No rosto pintado de preto, óculos escuros, e nas mãos leva o pandeiro. É o personagem cômico do Reisado

Boi – É o contraste entre a fragilidade do homem e a força bruta de um boi

Burrinha – Além de testemunhar o nascimento de Cristo, por isso, é considerado como um animal sagrado para o sertanejo, ela traz em seu lombo as marcas da urina de Jesus em forma de cruz

Jaraguá – O animal dança em passos miúdos, mas de vez em quando investe aos saltos. Vai de um lado para o outro batendo as queixadas, fingindo morder. É feito de uma caveira ou mandíbula de cavalo, presa a um pau comprido e forte que lhe serve de suporte e pescoço.

Colaboradores

Flávia Oliveira

Flávia Oliveira

Ver Perfil

É repórter. Anda com bloquinho de papel, caneta e máquina fotográfica na bolsa, para o caso de ver na rua alguma história boa de ser contada. Escreve em mesas de restaurantes vazios ou em qualquer outro lugar. Talvez bem aí, ao seu lado.

Igor de Melo

Igor de Melo

Ver Perfil

É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

Michele Boroh

Michele Boroh

Ver Perfil

Nasceu no Dia do Jornalista. Aos 9 criou o Jornal dos Amigos do Prédio, em folha de caderno e à base de canetinha. Agora, aos 32 e após 8 em TV, é coordenadora e editora de VÓS, com a mesma paixão da infância. É também cronista no Tribuna do Ceará e no Medium, viciada em livro, cavaquinista de churrasco e mãe de um Bull Terrier. Ariana, de sol e lua.

Comentários

Quer conhecer mais histórias como esta?


Cadastre seu email abaixo para receber matérias, novidades, eventos, e outras informações na sua caixa de email.

fechar