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Histórias

Mais um espevitado pro mundo

Por Michele Boroh, Igor de Melo
27.abr
2018

Febril, tomando antibiótico, faltando ao colégio. O telefone toca, é a representante da agência convidando para a vaga de um garoto que faltou à gravação de um vídeo publicitário. Além de doente, ele não tinha experiência alguma com trabalho filmado. Debilitado e inexperiente. Foi assim mesmo.

E o que pareciam efeitos complicadores acabaram revelando-se definidores. Gravou de 10h às 18h, “numa boa, fazia tudo o que o diretor pedia”. Segundo a mãe, foi ali que ficou claro que ele tinha algo diferente. “Porque ele tava muito adoentado! Eu até dizia, ‘Igor, faz uma cara pras pessoas acreditarem que você tá mesmo doente!’”

Igor Jansen tinha 8 anos. Entre a rotina comum de criança – escola, brincadeiras, amigos –, o peculiar: os trabalhos como modelo e a queda para a comédia. Entre os ídolos, nem atletas nem cantores. “É a turma toda: Edmilson Filho, Falcão, Tirulipa… A mundiça toda! E eu também quero ser da mundiça.”

Mas apesar das imitações dos vídeos do Tirulipa a que assistia na Internet e das mais de 20 vezes em que repetiu o filme Cine Holliúdy, fazer parte daquele mundo não era um objetivo concreto de Igor. Outro imprevisto seria responsável por definir seu caminho: a futura seleção para o próximo filme de Halder Gomes. “Eu era chamado pra alguns testes da agência, mas nem eu nem minha mãe sabíamos o que era no início. Passei no primeiro, passei no segundo… Aí, quando eu passei no terceiro, avisaram que só tinha sobrado outro garoto além de mim e que era pra um filme.”

Como parte do teste final, os dois finalistas passariam uma semana com o protagonista para avaliar quem se enturmava mais. “Quando ele soube que era com o Edmilson foi que a ficha caiu e ele ficou nervoso”. O primeiro encontro foi no estúdio e, quando voltou, a mãe já sentiu que ele estava diferente, que algo havia mudado. “Ele me disse que quase tinha desmaiado de emoção.”

“Quando eu comecei a conversar com ele me deu uma tontura, minha vista foi escurecendo, um embrulho no estômago…” Apesar da tensão, a relação fluiu e firmou. Alguns meses depois, a família inteira estava reunida numa sala de cinema para assistir a estreia de Igor no papel de um dos personagens de destaque de um filme do mesmo diretor de Cine Holliúdy. Na plateia, além dos pais, os grandes ídolos do menino, agora parceiros de trabalho.

O Shaolin do Sertão foi sucesso de bilheteria e a atuação do iniciante Igor agradou tanto crítica e público que o personagem ganhou força independente e hoje o garoto é mais conhecido como Piolho do que pelo nome de batismo. E sobra até pra mãe, Andréa. “Sempre tem alguém pra me chamar de Lêndia!”

O filme rodou as salas do Brasil inteiro e acabou por alçar o talento de Igor para outros formatos. Neste ano, mais uma vez sem ter planejado, ele assume um novo desafio. “O pai dele recebeu um e-mail e depois o pessoal da TV Jangadeiro (afiliada do SBT no Ceará) ligou dizendo que a emissora estava procurando um ator para fazer um papel num núcleo nordestino da nova novela, e que eles tinham indicado o Igor. Alguns dias depois ele já estava fazendo os testes com o diretor-geral de dramaturgia do SBT.”

Diante de mais um teste surpresa seguido de outra aprovação, a mesma emoção. “Não caiu a ficha. Quando pensei em novela, que era pra ir morar em São Paulo durante um tempo, eu já pensei em família, amigos, colégio… Mas depois me tranquilizei e eu sei que isso faz parte.”

Igor Jansen, agora contratado do SBT, é um dos protagonistas de As Aventuras de Poliana, a nova novela da emissora que tem estreia prevista para maio. Além do cearense assumindo um dos principais papéis da trama, algumas cenas foram gravadas por aqui, na praia de Mundaú e em Quixadá. Representação num pacote completo.

Dentro de seu universo infantil formado por skate, bolas, raquetes, violão e videogame, o garoto é, aos 14 anos, um desses exemplares de pendor e maturidade raros, factíveis, quase sempre, só na ficção. Mas Igor Jansen é realidade. Mais um cearense prontinho pra dominar o mundo, sem qualquer ensaio. Um típico desenrolado. Depois de Chico, Renato, Tom, Valéria, Karla, Edmilson e Falcão, parece que o legado de espevitados segue garantido.

Colaboradores

Michele Boroh

Michele Boroh

Ver Perfil

Nasceu no Dia do Jornalista. Aos 9 criou o Jornal dos Amigos do Prédio, em folha de caderno e à base de canetinha. Agora, aos 32 e após 8 em TV, é coordenadora e editora de VÓS, com a mesma paixão da infância. É também cronista no Tribuna do Ceará e no Medium, viciada em livro, cavaquinista de churrasco e mãe de um Bull Terrier. Ariana, de sol e lua.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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