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Perfil

O triunfo da essência

Com Valentina Sampaio Por Luiza Carolina Figueiredo, Igor de Melo
19.fev
2018

Capa da Vogue Paris de março, a cearense Valentina Sampaio foi uma das modelos mais requisitadas da São Paulo Fashion Week de 2017. Entre um voo e outro ao redor do mundo, ela deu uma paradinha em São Paulo, onde a gente conseguiu bater um papo 

A história é bem parecida com a de muitas outras garotas que gostam de moda. Começa sonhando em ser estilista e descobrindo um talento autodidata para a customização das próprias roupas. O caminho natural? Faculdade de moda. Mas, chegando lá, encontra uma outra porta aberta: as passarelas. Era alta, com 1,77m, bonita, de cabelos castanhos, lábios carnudos, olhos verdes, miúdos… Não custava nada tentar. Ela então percebeu que não queria ficar nos bastidores, mas ter todas as câmeras e holofotes virados para si, ser modelo.

Precisou de pouco tempo para ser notada. Um ano e meio, na verdade. Participou dos principais eventos de moda local, como o Festival da Moda de Fortaleza (FMF) e Dragão Fashion, em 2015, onde fez seus primeiros contatos com as agências de São Paulo. Nessa mesma ocasião, veio a entrevista para a revista Glamour, acompanhada da chamada: “Conheça Valentina Sampaio, a new face transgênero da moda no Brasil”.

Pronto! Depois disso, Valentina Sampaio, 20, tornou-se notícia em todo o país. E, junto com as manchetes, a repercussão, carregada com todos os seus significados positivos e negativos. Vieram trabalhos, reconhecimento, mas também uma rajada de comentários maldosos.

Entretanto, foi em 2016 que tudo mudou para a modelo que nasceu em Aquiraz, a 31 km de Fortaleza. Valentina recebeu, numa rede social, uma mensagem que daria novos rumos à sua carreira. Era o convite para participar do elenco do filme “Berenice Procura” – ainda inédito. Foi para o Rio de Janeiro.

Lá, receberia outro convite via rede social, desta vez para a campanha do Dia da Internacional da Mulher da L’Oréal e, posteriormente, para ser uma das embaixadoras da marca.
Naquele momento, Valentina Sampaio já era uma das modelos mais disputadas do Brasil. Porém, havia outras surpresas em 2017. Ela foi chamada para participar de um editorial de moda na Vogue Paris de março sobre “a beleza transgênero”. E não foi convidada apenas para integrar o ensaio, mas para se tornar a primeira modelo transgênero a ser capa da revista. Meses depois, outra Vogue viria, a alemã; Valentina é destaque da edição de agosto.

Uma menina

Do primeiro desfile na FMF até a Vogue, não fazem nem cinco anos. Tudo na carreira de Valentina parece acontecer com urgência. Talvez por isso preserve o ar de menina de interior, de quem ainda está acostumando ao ritmo apressado da vida cosmopolita. Mas já está pegando o jeito.

A conversa é tímida, pausada, o tom de voz é baixo… A não ser quando o assunto é a terra natal e as lembranças da infância e da família, momento em que o lampejo de saudade volta aos olhos e ela parece, por um momento, se transportar pra casa, de onde diz tirar sua força.

Filha de pescador e professora, criada com mais seis irmãos, sempre foi cercada de todo amor e compreensão que uma criança poderia esperar. Sobretudo aos oito anos de idade, quando foi levada a uma psicóloga que apontou que ela era uma menina transgênero.

“Foi tão natural que nunca teve essa história de ‘quando os pais descobriram’. Porque os pais sabem desde cedo, porque são eles que estão vendo os filhos crescerem. Às vezes fingem que não veem.”

Apesar da timidez, Valentina é forte e determinada. Não se vê como ícone, mas sabe que é uma porta-voz “de uma classe que muitas vezes não tem voz e não tem vez. E não vou deixar que nada nem ninguém tente me diminuir ou me impedir de fazer aquilo que eu acredito”.

Entrevista

Vós – Como foi a sua infância em Aquiraz?

Valentina – A minha infância foi ótima, super feliz. Eu cresci num local pequeno, então brincava em casa, num jardim enorme e na praia, cercada por muitos primos e irmãos. Também tinha muitos amigos na escola, onde brincava de corda, de elástico, de boneca. Eu era bem popular, sempre cercada de amigos e com uma relação boa com todo mundo. Sempre gostei de ter muitas pessoas perto de mim e sempre fui muito brincalhona.

Vós – Como começou seu gosto pela moda?

Valentina – Sempre desenhei, desde pequenininha. Não sei bem como aprendi, sei que pegava os modelos e já sabia desenhar. E também sempre costurei. Pegava as roupas velhas de casa, que ninguém utilizava mais, pra fazer peças e as minhas roupas mesmo. Eu tinha a mania de customizar as minhas roupas e, como não tinha máquina, o que dava pra fazer na mão eu fazia e, o que não dava, tinha uma costureira vizinha lá de casa que quase todo dia eu tava lá, a Tereza. Ninguém me ensinou, aprendi sozinha. Tudo na mão, artesanal, porque gosto de fazer e sei fazer bem, mas na máquina, até na faculdade não aprendi a usar direito.

Vós – Você começou na faculdade de moda e depois mudou para arquitetura. O que levou a essa mudança?

Valentina – Entrei na faculdade e a minha vontade, na moda, era de ser estilista. Mas aí fui vendo que não gostava de algumas coisas, tipo modelagem e costura. Então escolhi arquitetura porque envolve mais a arte. E acho que as duas áreas andam bem juntas. Quero continuar com a minha carreira de modelo, de atriz e conciliar também com a arquitetura.

Vós – Se você queria ser estilista, como foi parar nas passarelas?

Valentina – Lá na faculdade tinha gente que já trabalhava no circuito de moda de Fortaleza e fazia cadeira junto comigo. Daí, fui conhecendo o pessoal e vi que também tinha essa possibilidade. E sempre gostei desse negócio de câmera, de ser fotografada, da ideia de desfilar, de ser modelo, atriz. Então decidi fazer o teste para modelo, passei e o meu primeiro desfile foi no Maraponga Mart Moda.

Vós – Você ainda lembra qual foi a sensação que sentiu no seu primeiro desfile?

Valentina – Acho que foi a mesma sensação que a gente sente até hoje em qualquer desfile. Dá o mesmo nervosismo. E é muito difícil explicar. É uma ansiedade, adrenalina, um frio na barriga… Uma mistura de vários sentimentos.

Vós – E lembra qual foi a sua primeira viagem pra fora do Ceará?

Valentina – A minha primeira viagem pra fora do Ceará foi para o Rio, pra fazer o filme, e pra fora do Brasil foi pra Nova Iorque. Foi no Rio quando tudo começou a acontecer…

Vós – Que filme é esse que você participou?

Valentina – Eu gravei um longa que vai sair agora no segundo semestre (de 2017), “Berenice Procura”, com direção do Allan Fiterman e produção da Elisa Tolomelli. E muita gente bacana no elenco, como Claudia Abreu, Eduardo Moscovis e Vera Holtz. Mas eu ainda não posso falar muita coisa sobre o filme… Só que minha personagem se chama Isabelle, é uma das protagonistas e é uma cantora.

Vós – Você canta no filme?

Valentina – Sim. Eu fiz um trabalho de preparação bem antes das filmagens, primeiro sozinha e depois com o elenco. Fiz três meses de aula de música e depois, um mês filmando. Foi uma das experiências mais incríveis da minha vida. Gostei muito tanto da preparação quanto de dar vida à personagem dentro do set. E isso acaba te exigindo mais do que ser modelo, porque é muito difícil, de se esvaziar do personagem depois que tudo acaba. Eu sentia bastante dor de cabeça, porque não conseguia sair daquele momento, e a Isabelle é bem dramática, bem difícil de fazer.

Vós – E como aconteceu o convite?

Valentina – Eles deviam estar fazendo pesquisa pela internet, porque a produtora de elenco entrou em contato diretamente comigo pelas redes sociais. Logo de cara, fui pesquisar pra ver do que se tratava. Mas não imaginava quão importante era o filme e se realmente iria dar certo. Depois, aos poucos, quando conheci o diretor e ele foi pro Ceará me conhecer é que eu fui percebendo tudo. Logo depois, fui pro Rio.

Vós – Foi quando foi produzida a primeira campanha da L’Oréal?

Valentina – Eu estava no Rio fazendo o filme quando a L’Oréal também me contatou pelas redes sociais para a campanha do dia 8 de março. E foi marcante, porque era a campanha do Dia Internacional da Mulher, e muito bonita e delicada a forma como ela foi abordada. O ambiente foi muito leve, com pessoas de boas energias. Eles me fizeram algumas perguntas e criaram um texto junto comigo, falando sobre respeito e beleza, que é algo que transcende o nosso corpo, que vem da alma… Eu dizia que eu amo ser mulher, e que o Dia da Mulher é importante, mas não pra ganhar flores, pois a gente quer respeito.

Vós – Foi nessa época também que você conquistou sua identidade com o nome social. Como foi isso pra você?

Valentina – É uma coisa muito importante ser reconhecida pelo que você é e deixar pra trás uma coisa que lhe incomodou por tanto tempo. É como se fosse nascer de novo. Uma sensação que eu não sei explicar direito.

Vós – E por que Valentina?

Valentina – Eu não lembro o motivo de Valentina. Eu acho que eu só escutei e sempre achei um nome bonito. Tanto que eu só fui ver o significado depois.

Vós – Demorou para as pessoas na sua cidade começarem a te chamar de Valentina e não pelo nome de batismo?

Valentina – Quando mais novinha, eu nunca era chamada pelo nome que tinha no meu documento, sempre fui chamada de Bebê. Porque a minha mãe não sabia que estava grávida de mim então, quando nasci, nem nome eu tinha. Passei um bom tempo sem nome, com as pessoas me chamando só de Bebê. E isso ficou até quando eu estava já maior.. E de Bebê mudou pra Valentina. Mas com certeza ainda tem gente que me chama de Bebê até hoje. E não era nem o Bebê, era a Bebê.

Vós – Depois da campanha do 8 de março, você virou embaixadora da marca. Qual a relevância desse título pra você?

Valentina – Ele ajuda a mostrar que o meu trabalho não traz pontos positivos só pra mim, mas pode ajudar num mundo melhor, onde tenha mais amor e mais respeito. E eu acredito que a moda ajuda a romper muitas barreiras, pois leva informação de todos os tipos. Ainda mais agora nesse momento em que a gente está falando tanto de diversidade e a moda está levantando muito essa questão.

Vós – Outro marco importante na sua carreira foi a capa da Vogue Paris…

Valentina – Foi um sonho enorme realizado. Pra minha carreira também é um marco muito importante, porque essa capa tem a possibilidade de me trazer só coisas boas. Embora ela seja muito recente e não dê pra sentir muito as consequências, é um momento que eu ainda tô vivendo e já aumentou bastante a minha visibilidade.

Vós – Uma das consequências imediatas é a visibilidade para a questão dos transgêneros.

Valentina – É importante que ela está dando oportunidade pra mostrar essa diversidade, pra mostrar que a gente pode, que é capaz também e que é um caminho bom que a gente está indo, né? Mesmo que seja ainda pouco, ainda pequeno, mas nós estamos caminhando para um futuro melhor, pois esse assunto está sendo discutido, até que vai chegar um momento em que isso não vai precisar mais ser debatido, não será mais relevante, que não vão mais existir esses rótulos e que as pessoas vão se dar conta de que todo mundo é ser humano e que todos devem ter a oportunidade e o direito de mostrar o que tem de melhor.

Vós – Você falou em rótulos… Ao mesmo tempo em que eles são ruins, porque estereotipam, também podem ter um lado positivo ao servir como uma bandeira ou ícone, que é o que você é agora, de certa forma, por ser um rosto conhecido e aceito de um grupo muitas vezes marginalizado.

Valentina – Eu não me vejo ainda como um ícone ou alguma coisa assim.

Vós – E como você se vê?

Valentina – Eu me vejo como uma pessoa normal, uma modelo normal que está lutando pelo seu espaço, lutando pelo seu trabalho.

Vós – No passado algumas marcas não queriam se vincular a você, mas agora você é disputada. Como enxerga isso?

Valentina – É o momento em que a gente está vivendo. Eu vejo isso como um avanço. É um avanço pequeno, mas é um avanço.

Vós – O que falta para ser grande?

Valentina – Ainda falta muita coisa. Porque preconceito ainda existe muito. Mas a gente está caminhando e trabalhando, combatendo. Porque ele não é uma coisa natural que nasce com o ser humano. E se não é natural, a gente tem que combater, educar, pra que isso acabe.

Vós – Você já sentiu preconceito?

Valentina – Onde eu cresci, não. A primeira vez que eu realmente me deparei com o preconceito foi quando comecei a trabalhar, em um dos primeiros trabalhos. E depois, quando comecei a sair em algumas matérias na internet, eu via comentários bem maldosos. No começo, eu ficava bem mal mas, agora, prefiro não olhar.

Vós – Com essa vida corrida de modelo e atriz, o que dá pra fazer no tempo livre?

Valentina – Como passo por tantos cantos diferentes, não tem como criar uma rotina, como caminhar, ir à academia… Mas toda vez que tenho tempo livre numa cidade eu gosto de passear e conhecer os pontos turísticos. Também gosto de desenhar croquis, ou paisagismo. E gosto de ler romances policiais, como os livros do Sidney Sheldon.

Vós – E como está sendo a experiência de morar sozinha em Nova Iorque?

Valentina – Eu gosto. É bom e não é bom. Sinto muita falta de casa, principalmente porque cresci numa família muito grande, sempre rodeada de gente. Então, estar sozinha pra mim é mais difícil. Em casa eram meus pais mais sete filhos, sem contar que a família toda morava perto; todo mundo se via todos os dias. Já em Nova Iorque eu fico sozinha, em apartamento locado por temporada. A gente não tem nem tempo de se adaptar, apenas vai indo.

Vós – Quais os lados positivos e negativos da vida de modelo?

Valentina – O lado ruim é isso de passar tão pouco tempo nos lugares e ficar mudando de um canto pro outro. Já o lado bom é que você conhece outras culturas e vai aprendendo bastante, com a oportunidade de conhecer vários cantos do mundo e várias pessoas.

Vós – E de todos esses cantos pra onde você já foi, qual o seu preferido?

Valentina – Eu gosto muito do meu lugar. Não sei se porque é de onde eu sinto mais saudade e mais vontade de voltar por estar tanto tempo fora. Mas é o lugar onde eu me sinto confortável.

Colaboradores

Luiza Carolina Figueiredo

Luiza Carolina Figueiredo

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Apesar de jornalista, sonha com ficção e, por isso, fica animada em ouvir os causos dos outros - quem sabe não tira inspiração para um futuro romance? Acredita que, se escrever de tudo um pouco, um dia vai conseguir a história que realmente quer. Leitora compulsiva, está sempre com um livro ou HQ nas mãos (ou na bolsa). É meio tímida, mas tem um bichinho tagarela dentro dela que, quando começa a falar, quase não para. E se a conversa for geek, então...

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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